Cabelo ruim? Diretora de Pelo Malo fala sobre falta de respeito ao próximo

Longa de Mariana Rondón foi um dos destaques da Mostra de SP em 2013

22/04/2014 19h13

Ganhador da Concha de Ouro no Festival de San Sebastian, o novo longa da diretora Mariana Rondón, Pelo Malo, aborda várias relações criticas: entre uma mãe hostil e o filho que busca sua atenção, o pequeno Junior; a relação do menino com a própria imagem, pois não gosta do próprio cabelo "ruim"; a relação dos dois com o ambiente que integram, um conjunto habitacional desumanizador no meio de Caracas.

Um ambiente machista - apesar de matriarcal - permeia todos esses conflitos e expõe o protagonista mirim ao julgamento da mãe por uma possível homossexulidade devido ao cuidado com a aparência.  Em terra onde o estereótipo de sucesso é ser Miss ou Militar, o olhar garoto revela como é difícil seguir um caminho próprio.

Mariana conversou com o Cineclick sobre política, cinema e cultura latino-americana durante sua passagem pelo Brasil para divulgar o longa, que estreou na última quinta após ter integrado a a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2013. Confira a entrevista:

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Quais questões te levaram a fazer Pelo Malo?

Queria trabalhar a ideia do respeito: o respeito às diferenças, o respeito ao outro, o fato de não sermos iguais; e como a ausência de respeito pode gerar uma violência muito grande, quase insuportável. Quando comecei a trabalhar o longa, olhava muito para as ruas, para ver rostos e gestos que indicavam violência - nas relações próxima entre casais e no núcleo familiar, mãe e filho, pai e filho. Queria justamente falar sobre esses pequenos gestos que podem gerar uma tensão tão grande.

A Venezuela, assim como o Brasil, tem uma cultura muito machista. E essa cultura, creio eu, se reflete na insensibilidade entre as pessoas e até em termos estético, no fim das contas. Você tinha como objetivo incluir esse olhar sobre gênero?

Não coloquei como algo premeditado, embora esteja muito forte no filme. Queria trabalhar com imagens, com estereótipos muito comuns presentes no sonho de ser Miss Venezuela, Miss Universo. No país se considera um meio para a ascensão social, para poder ganhar dinheiro. Para os meninos, o sonho é ser militar. Esses são os sistemas mais evidentes e criam uma sensação de falso poder.

Sobre gênero, me parece haver uma estrutura que permite a existência do machismo. Por outro lado, vivemos num Estado matriarcal, onde a presença do homem é excluída e os filhos são criados prioritariamente pelas mães, que cumprem o papel de pai e mãe, de feminino e masculino. Esse dois lados acabam criando uma esfera machista.

Pelo Malo

Cena de Pelo Malo

Você acredita que a cultura militar enraizada na Venezuela reforce a insensibilidade?

Sim, é uma cultura muito arraigada e agressiva. As condutas militares criam comportamentos desse tipo.

E como é ser uma cineasta em seu país?

No caso da Venezuela, por incrível que pareça, há uma cultura de mulheres cineastas. Margot Benacerraf, fundadora da cinemateca nacional em 1966, abriu esse espaço. Ela criou uma cultura de que as mulheres podem fazer cinema e há muitas jovens em ascensão.

Pelo Malo foi acusado de ser antichavista. Como foi essa história?

A polêmica começou devido a uma declaração que dei numa premiação. Para mim é mais importante falar sobre o filme do que falar sobre qualquer declaração anterior a ele. E o longa nem havia estreado na Venezuela.

Você acredita que o cinema deva desempenhar um papel sociopolítico?

Meu filme é muito político, embora não coloque o tema como forma elementar. Falo de política porque falo das pessoas. A política afeta a família, as relações mais íntimas. Não coloquei isso em forma de propaganda, militância, mas em como somos afetados por ela.

Aquele conjunto habitacional onde vocês filmaram é bem desumanizador...

Esse edifício é considerado um patrimônio histórico, pois marca o início da estética moderna na América Latina. Foi um dos primeiros a aparecerem dentro do conceito das cidades utópicas, criado por influencia do arquiteto francês Le Courbusier. Foram desenhadas visando a liberdade, mas acabaram por resultar em perguntas muito potentes para nossa geração. Esses lugares propunham melhor para o ser humano e acabaram como estão. Quando o longa veio para mostra de SP, me perguntaram, numa confusão: por que não foi realizado em português, já que se passa no Brasil? As semelhanças são muitas.

Apesar do drama envolvendo a família protagonista, o filme também é bem-humorado. Você pensou em unir esses dois gêneros para torná-lo mais leve?

Não inventei nada, somos daquele jeito culturalmente. Por mais trágico que seja, sempre há um humor - mas é um humor duro e difícil, um humor que mantém a relação com o drama.

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