CINE PE 2014: O Mercado de Notícias analisa rumos da imprensa brasileira

Documentário dirigido por Jorge Furtado usa peça do século 17 como fio condutor para debate

28/04/2014 12h40

O Mercado de Notícias

Jorge Furtado e atrizes da peça The Staple of News: Encenação guia documentário

Foto: Divulgação

O Cine PE - Festival do Audiovisual abriu sua mostra competitiva de documentários na noite deste domingo (27) com um irrefutável candidato ao Troféu Calunga na categoria: O Mercado de Notícias, do diretor Jorge Furtado (O Homem que Copiava). O filme usa a peça teatral The Staple of News, do dramaturgo inglês Ben Jonson (1572- 1637), como base para uma dissecção do jornalismo brasileiro dos dias atuais.

Encenada pela primeira vez em 1626, The Staple of News foi, à época, uma crítica bem-humorada a uma atividade recentemente criada, uma novidade em Londres: o jornalismo. O texto foi traduzido para o português pela primeira vez e é encenado por atores ao longo do filme. Paralelamente, 13 grandes nomes do jornalismo brasileiro avaliam a prática da profissão, as mudanças na maneira de consumir notícias, o futuro do jornalismo e alguns casos recentes que envolveram gafes, erros crassos ou omissões da imprensa nacional.

A inventiva ideia de usar a peça Jonson como vereda para se discutir a prática do jornalismo atual torna-se óbvia em poucos minutos de filme dada à atualidade impressionante do texto escrito no século 17. A peça foi composta apenas três anos depois de o primeiro jornal inglês começar a circular (o semanário A Current of General News), mas as questões assombrosamente continuam as mesmas.

"Eu fiquei muito surpreso com a atualidade do texto Jonson. Parece que ele está falando dos dias de hoje. Daí surgiu a ideia de pegar a peça e usar como linha condutora dos questionamentos que faço aos jornalistas", disse Jorge Furtado à reportagem do Cineclick.

O cineasta entregou aos jornalistas Bob Fernandes, Jânio de Freitas, Cristiana Lobo, Fernando Rodrigues, Geneton Moraes Neto, Luis Nassif, Mino Carta, entre outros, o texto da peça e posteriormente os indagou sobre a profissão. Os depoimentos, intercalados à encenação por atores, constrói um panorama crítico da atividade de informar nos dias de hoje.

Viés de esquerda

Jorge Furtado

Foto: Daniela Nader

O documentário discute a partidarização política dos órgãos de imprensa, os interesses comerciais das grandes empresas de comunicação, a mercantilização da notícia, ética profissional e o advento da internet e como esta está estabelecendo uma nova relação entre os geradores de notícias e o público. Mas todo o debate é conduzido por Jorge Furtado num ritmo leve, nada carregado, que se impõe pelo texto cômico e sarcástico da peça inglesa.

E esta relação bem engendrada entre os depoimentos dos jornalistas e a encenação da peça do dramaturgo inglês é que dá a O Mercado de Notícias uma dinâmica e leveza que o torna palatável para qualquer espectador, sem, no entanto, desfazer-se da seriedade do tema abordado. Com isso Jorge Furtado faz seu filme, que é essencial pelo assunto tratado, tornar-se acessível àqueles que estão de fora da discussão, mas que são os principais alvos ou vítimas do jornalismo mal feito: o público.

Furtado, no entanto, cometeu uma incorreção, comum no jornalismo, ao partidarizar seu filme. O Mercado de Notícias encampa o discurso do governo petista de que são perseguidos por uma imprensa elitista e, paralelamente, dá grande exposição a um episódio que desabona os peessedebistas.

"Todo mundo tem um viés e o meu certamente é de esquerda. Mas eu fiz questão de convidar jornalistas de todos os veículos e de várias tendências. Eles não concordam uns com os outros sobre vários assuntos e essas contradições estão no filme", defende-se o diretor.

Posicionamentos políticos de lado, o fato é que ao se concentrar no embate político Furtado acaba tratando muito en passant o caso da Escola Base, esse sim o mais representativo desacerto da imprensa brasileiro dos últimos anos. Um deslize evidente, mas que não arranha a relevância e qualidade deste bom documentário.

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