Cinema nacional independente: Novíssimo Cinema Brasileiro

O movimento mote é a flexibilidade e o dinamismo, apoiado nas redes da internet. Esse é o "Novíssimo Cinema Brasileiro"

19/06/2020 08h00

A participação cada vez maior de filmes independentes em festivais mundo afora nos mostra que tem espaço, sim, para produções menos tradicionais, cujo potencial é claramente perceptível. O cinema nacional, hoje, possui filmes com propostas estéticas significativamente diferentes entre si, que surgem em diversos contextos e regiões do país.

Não formam um bloco de filmes com a mesma cara, mas, apesar dessas diferenças, ainda é possível traçar alguns sinais em comum. Para identificar alguns desses sinais, é preciso recuar um pouco no tempo, para descobrir as origens desse movimento de renovação.

Como já foi dito, no início dos anos 1990, o cinema brasileiro passou por uma abrupta descontinuidade. O presidente Fernando Collor, através de um único decreto, extinguiu as principais instituições públicas responsáveis pelo apoio à sétima arte em solo nacional. Sem o amparo estatal, o mercado local foi completamente dominado pelo produto estrangeiro.

Somente com a Lei Rouanet e a Lei do Audiovisual - promulgadas definitivamente apenas com Itamar Franco - as atividades foram sendo retomadas e tornaram-se a base do apoio público à produção do cinema nacional. Ainda dessa forma, os caminhos para que um cineasta estreante pudesse realizar seu primeiro longa-metragem eram bastante restritos. A captação de recursos para projetos com pouco apelo comercial era naturalmente lenta.

Esse processo fez com que diversos diretores demorassem para que pudessem finalmente realizar seus trabalhos. Podemos citar nesse contexto nomes como Gustavo Spolidoro, Paulo Halm, Eduardo Nunes, Camilo Cavalcante e Kléber Mendonça Filho. A maior parte desses apenas conseguiu realizar seu primeiro longa através de um edital específico do Ministério da Cultura, direcionado a filmes de baixo orçamento.

Ou seja, de um lado as leis de incentivo fiscal foram responsáveis pelo chamado processo de retomada do cinema brasileiro; por outro lado, as leis de incentivo não conseguiam viabilizar um conjunto de projetos mais radicais que não atraíam nem o interesse de investidores privados, nem se enquadravam no perfil dos editais públicos.

No início do novo século, entra um fator determinante e que muda o jogo: a tecnologia digital. Isso despertava novas possibilidades, mostrando um novo modo de produção, abandonando a dependência de um certo modelo de financiamento e apontando a necessidade de uma nova forma de circulação dessas obras.

Em paralelo, começaram a surgir festivais no Brasil que davam espaço para as obras que eram produzidas nesse novo contexto e que não conseguiam abrigo nos mais tradicionais festivais de cinema do país, ainda voltados para uma outra lógica de circulação - mais tradicional.

No mesmo período começou a surgir uma geração na crítica cinematográfica, especialmente através da internet, que além do estímulo a um novo olhar para a cinefilia, também se engajou na curadoria de mostras, abrindo um importante espaço para um cinema brasileiro mais ousado.

Surgia um cinema que via o processo, e não necessariamente o produto final, um dos pontos-chaves de uma nova forma de produção, que via uma relação de cumplicidade entre o cinema e o mundo, entre a criação e a vida. Um cinema que surgia a partir de um certo inconformismo diante de um recente cinema brasileiro - e dos rumos do próprio país - mas também encantado com as possibilidades de testar os limites de algo que não se sabia bem o que era.

Diferentemente das bases de um cinema industrial, voltado para os segmentos de mercado tradicionais, surgia um cinema pós-industrial, cujo mote é a flexibilidade e o dinamismo, apoiado nas redes da internet. Esse é o "Novíssimo Cinema Brasileiro".

Como expoentes desse movimento, podemos citar:

- "Acidente" (2006), de Pablo Lobato e Cao Guimarães;
- "Sábado à Noite" (2007), de Ivo Lopes Araújo;
- "Meu Nome É Dindi" (2008), de Bruno Safadi;
- "Pacific" (2009), de Marcelo Pedroso;
- "Um Lugar Ao Sol (2009)", de Gabriel Mascaro;
- "A Casa De Sandro" (2009), de Gustavo Beck;
- "Estrada Para Ythaca" (2010), de Ricardo Pretti, Luiz Pretti, Pedro Diógenes, e Guto Parente;
- "Avenida Brasília Formosa" (2010), de Gabriel Mascaro;
- "Os Monstros" (2011), de Guto Parente, Luiz Pretti e Pedro Diógenes;
- "No Lugar Errado" (2011), de Luiz e Ricardo Pretti e Pedro Diógenes;
- "A Fuga Da Mulher-gorila" (2011), de Felipe Bragança e Marina Meliande;
- "O Céu Sobre Os Ombros" (2011), de Sérgio Borges;
- "Mãe E Filha" (2011), de Petrus Cariry;
- "Chantal Akerman, De Cá" (2011), de Gustavo Beck e Leonardo Luiz Ferreira;
- "O Som Ao Redor" (2012), "Aquarius" (2016) e "Bacurau" (2019), de Kleber Mendonça Filho

Todos com grande repercussão crítica nacional e com participação em importantes festivais internacionais, como Cannes, Locarno e Rotterdam.


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