Ganhando o mundo: o cinema nacional no exterior e no Oscar

O cinema nacional aprendeu a produzir excelentes filmes, esses que muitas vezes ultrapassam as nossas fronteiras

26/06/2020 08h00

O cinema nacional teve idas e vindas ao longo de sua trajetória, mas com as lições absorvidas nos momentos de quebra e de retomada, ele aprendeu a produzir excelentes filmes, esses que muitas vezes ultrapassam as nossas fronteiras e atingem o público estrangeiro, angariando indicações e premiações nos eventos mais importantes da indústria.

Nesse artigo você vai conferir:

- O cinema nacional no exterior
- No topo do mundo: o cinema nacional no Oscar

Selecionamos alguns dos longas-metragens brasileiros que mais receberam destaque internacional, dos mais antigos aos mais recentes de nossa história.

O cinema nacional no exterior


O Cangaceiro (1953)


Escrito e dirigido por Lima Barreto, o filme que mostra a história do massacre do Capitão Galdino e o subsequente sequestro da professora Olívia, por quem ele se apaixona, foi uma das primeiras produções brasileiras a conquistar reconhecimento internacional. O longa-metragem ganhou o prêmio de Melhor Filme de Aventura e de Melhor Trilha Sonora no Festival de Cannes.

O Pagador De Promessas (1962)


Baseado na peça homônima de Dias Gomes, o filme de Anselmo Duarte é o único a conquistar a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Trata-se da história dramática de Zé do Burro (Leonardo Villar), um homem humilde que tenta cumprir a promessa de carregar uma enorme cruz de madeira, mas que enfrenta resistência por parte da igreja local.

Pixote - A Lei Do Mais Fraco (1981)


O drama de Hector Barbenco mostra a realidade das ruas de São Paulo, nas quais crianças entram em contato com a prostituição, crimes e violência. O protagonista Pixote (Fernando Ramos da Silva) é levado para o reformatório juvenil e por lá a história se desenrola, mostrando o abuso dos guardas e do diretor da instituição. A produção foi indicada na categoria melhor filme do Globo de Ouro em 1982 e ganhou a estatueta de Melhor Filme Estrangeiro na premiação da Associação de Críticos de Nova York em 1981.

Cabra Marcado Para Morrer (1984)


O documentário de Eduardo Coutinho mostra a vida de João Pedro Teixeira, um líder camponês assassinado em 1962. Na época de sua concepção, em 1964, a produção foi interrompida em razão do Golpe Militar, e as filmagens só foram retomadas e finalizadas 20 anos depois, contando com a mesma equipe técnica e personagens. Foi amplamente reconhecido pelo cenário cinematográfico internacional, recebendo prêmios no Festival de Berlim.

O Beijo Da Mulher Aranha (1985)


Mais um sob a direção de Hector Barbenco, a co-produção entre Brasil e EUA com atuação de Sônia Braga recebeu vários prêmios, em especial os direcionados ao ator norte-americano William Hurt. Ele ganhou um Oscar de Melhor Ator e recebeu também as estatuetas pelo mesmo título no Festival de Cannes e no BAFTA, premiação britânica. O filme conta a história de dois prisioneiros que desenvolvem uma improvável amizade.

Eu Sei Que Vou Te Amar (1986)


Estrelado por Fernanda Torres, o filme mostra a história de um jovem casal que resolve começar um jogo da verdade sobre tudo o que já lhes aconteceu, em uma espécie de psicanálise filmada. Ela recebeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes, com apenas 20 anos de idade. O longa-metragem foi indicado à Palma de Ouro.

Carlota Joaquina - A Princesa Do Brazil (1995)


O longa-metragem protagonizado por Marieta Severo conta parte da história da monarquia portuguesa e a elevação do Brasil de colônia do império português a reino unido com Portugal, além de trazer referências à monarquia da Espanha. O filme foi um grande sucesso, percorrendo diversos festivais de cinema internacionais e acumulando um milhão e meio de espectadores ao redor do mundo.

O Quatrilho (1995)


Baseado no livro homônimo de José Clemente Pozenato, o filme traça a história de uma comunidade rural habitada por imigrantes italianos. A produção ganhou prêmios nas categorias de Melhor Atriz para Glória Pires, Melhor Direção de Arte e Melhor Trilha Sonora no Festival de Havana. Foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

O Que É Isso, Companheiro? (1997)


O filme baseado em fatos reais que conta com atuação do vencedor do Oscar Alan Parkin foi indicado na categoria Melhor Filme Estrangeiro do Oscar em 1998. Além disso, venceu o prêmio de melhor filme pelo público no American Film Institute e foi indicado ao Urso de Ouro no Festival de Berlim. Trata-se da história do sequestro do embaixador dos EUA no Brasil, durante a Ditadura Militar.

Central Do Brasil (1998)


Isso mesmo. Mais uma vez mencionando Central do Brasil. A doce história de uma mulher que busca se reencontrar e a de um menino atrás de suas raízes é um dos melhores filmes nacionais, com exibições em consagrados festivais internacionais como o de Sundance e o de Berlim. São mais de 15 prêmios tanto para o diretor Walter Salles quanto para a protagonista Fernanda Montenegro, além de ter sido indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

O Auto Da Compadecida (2000)


Ambientado no sertão nordestino e baseado na obra homônima de Ariano Suassuna, o filme que conta a história dos personagens João Grilo e Chicó foi um dos filmes nacionais de maior sucesso no exterior. A produção, dirigida por Guel Arraes, venceu o prêmio do Festival de Filmes Brasileiros em Miami, nos EUA, além de outros troféus de melhor atuação em eventos espanhóis.

Cidade De Deus (2002)


Mais um que voltamos a falar. Com direção de Fernando Meirelles, Cidade de Deus é uma das produções mais marcantes do cinema nacional, com amplo reconhecimento no exterior. Tratando de temas como violência, tráfico de drogas e estigmatização de favelas, o longa foi indicado ao Oscar 2004 nas categorias de melhor direção, melhor roteiro adaptado, melhor edição e fotografia.

Carandiru (2003)


Outra figurinha carimbada. O filme que aborda a então Casa de Detenção e seu massacre ocorrido em 1992, foi indicado a uma série de premiações internacionais. No Festival de Cinema de Havana, o diretor Hector Barbenco recebeu prêmios de voto do público e no Festival de Cartagena o longa recebeu a estatueta de Melhor Filme. A produção foi indicada à Palma de Ouro no Festival de Cannes.

Cinema, Aspirinas E Urubus (2005)


O primeiro filme do pernambucano Marcelo Gomes foi muito bem recebido pela crítica internacional. Trata-se da história de um alemão no sertão nordestino, que fugiu da Segunda Guerra Mundial para vender aspirinas. A produção fez sucesso no Festival de Cannes e levou o Prêmio do Sistema Educacional Francês, além de passar pelo circuito internacional de diversos eventos importantes da indústria cinematográfica.

Tropa De Elite (2007)


Dirigido por José Padilha, o filme foi amplamente aclamado tanto pela crítica nacional quanto pela internacional. A produção foi premiada como Melhor Filme tanto no Festival de Berlim, quanto no Festival Hola Lisboa.

O Palhaço (2011)


A história do palhaço Benjamin durante os anos 1970 encantou o público. O filme, dirigido e protagonizado por Selton Mello, recebeu premiações no Festival Internacional de Tiburon e no Prêmio de Cinematografia ABC, além de ser indicado a melhor produção no Festival de Chicago.

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014)


A história de um estudante cego em busca de liberdade e do amor é uma das produções brasileiras de maior reconhecimento internacional. O filme venceu prêmios nos festivais de Berlim, Guadalajara, Nova York e São Francisco.

Que Horas Ela Volta? (2015)


O drama protagonizado por Regina Casé participou da corrida do Oscar representando o Brasil e recebeu premiações nos festivais de Sundance, Berlim e Lima, além de amplo reconhecimento da crítica internacional.

Aquarius (2016)


A produção franco-brasileira, estrelada por Sônia Braga e dirigido por Kleber Mendonça Filho, conta a história de uma mulher que cresceu e passou toda sua vida no complexo residencial Aquarius, que é comprado por uma construtora que planeja demolir e reformar o edifício. Ela se recusa a sair e passa a ser assediada e desrespeitada de diversas formas. O filme recebeu premiações em Cannes, Sydney, Lima, Havana, Cartagena e Mar del Plata, além de ser muito bem avaliado pela crítica nacional e internacional.

O Menino E O Mundo (2016)


O filme de animação brasileiro foi exibido em mais de 80 países e concorreu na categoria de Melhor Animação do Oscar. Trata-se da história de Cuca, um menino que vive em um mundo distante e parte em uma jornada de autodescoberta. Além da indicação da Academia, a produção recebeu três prêmios no Festival de Annecy, na França.

Bacurau (2019)


Os moradores de um pequeno povoado localizado no sertão brasileiro, chamado Bacurau, descobrem que a comunidade não consta mais em qualquer mapa. Aos poucos, percebem algo estranho na região: enquanto drones passeiam pelos céus, estrangeiros chegam à cidade pela primeira vez com uma aura suspeita. Uma obra-prima de Kleber Mendonça Filho, conquistou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2019.

No topo do mundo: cinema nacional no Oscar


A seção acima é sobre filmes brasileiros que marcaram presença nas mais diversas premiações ao redor do mundo. Essa é focada na maior de todas: o Oscar. As categorias são bem variadas - você vai se surpreender com a quantidade delas! Confira:

Ary Barroso – Melhor Canção Original (1945)


A nossa estreia no Oscar foi com a música "Rio de Janeiro", de Ary Barroso. A canção era tema do filme norte-americano "Brazil" e disputou a estatueta de Melhor Canção Original. Acabou perdendo para "Swinging on a Star", de Jimmy Van Heusen, tema do filme "O Bom Pastor ".

Orfeu Negro – Melhor Filme Estrangeiro (1960)


"Orfeu Negro", do diretor Marcel Camus e com roteiro adaptado a partir da peça "Orfeu da Conceição", de Vinícius de Moraes, chegou a vencer o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 1960. Este prêmio ainda gera muita polêmica entre os cinéfilos, pois, apesar de se tratar de um co-produção entre Brasil, França e Itália, de ter sido gravado no Rio de Janeiro e de ser totalmente falado em português, a França foi representada pela estatueta, não o Brasil. Então essa é uma "quase vitória" do Brasil no Oscar, mas merece estar na lista.

O Pagador de Promessas – Melhor Filme Estrangeiro (1963)


O país passou a ter o seu próprio representante entre os Melhores Filme Estrangeiro em 1963, com "O Pagador De Promessas", dirigido por Anselmo Duarte e baseado na peça teatral homônima de Dias Gomes. O filme perdeu a estatueta para "Sempre aos Domingos", produção francesa dirigida por Serge Bourguignon. Em 2015, a obra entrou para a lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos, feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), ficando em 9º lugar.

Raoni – Melhor Documentário (1979)


Em 1979, foi a vez de outra co-produção ser indicada. A direção de "Raoni" foi assinada pelo belga Jean-Pierre Dutilleux e pelo brasileiro Luiz Carlos Saldanha - a dupla também escreveu o roteiro. Disputou a categoria de Melhor Documentário e mais uma vez não levamos a estatueta: o ganhador do ano nesta categoria foi "Scared Straight!", produção estadunidense dirigida e escrita por Arnold Shapiro.

El Salvador: Another Vietnam – Melhor Documentário (1982)


Também uma co-produção, teve a primeira mulher brasileira concorrendo ao Oscar. Dirigido pela cineasta Teté Vasconcellos e pelo norte-americano Glenn Silber, disputou para Melhor Documentário, no entanto, quem levou foi "Genocide", de Arnold Schwartzman.

O Beijo da Mulher-Aranha – Melhor Filme e Melhor Direção (1986)


Mais um filme co-produzido por brasileiros e estadunidenses e que gera discussão se representa ou não o Brasil no Oscar. "O Beijo Da Mulher Aranha" foi indicado, na verdade, a quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Ator. Nessas duas últimas, as pessoas que recebem a nomeação não são brasileiras – o roteirista Leonard Schrader e o ator William Hurt, que chegou a levar a estatueta para casa. Por isso, pode-se dizer que apenas nas categorias de Melhor Filme e Melhor Direção o Brasil foi representado – mas há quem discorde, pois o diretor Hector Babenco é um argentino naturalizado brasileiro.

Luciana Arrighi, "Retorno a Howards End" – Melhor Direção de Arte (1993)


Luciana Arrighi nasceu no Rio de Janeiro, mas sua nacionalidade é australiana. Como diretora de arte, concorreu três vezes ao Oscar e venceu em 1993, por "Retorno A Howards End". Em entrevista concedida ao G1 em 2018, Arrighi afirmou que o Oscar que ganhou "é um pouco brasileiro [...] Eu tenho certeza de que o Brasil me deu um brilho a mais".

O Quatrilho – Melhor Filme de Língua Estrangeira (1996)


O longa foi dirigido por Fábio Barreto disputou a estatueta de Melhor Filme de Língua Estrangeira. "O Quatrilho" perdeu para a obra "A Excêntrica Família de Antonia", da Holanda.

O Que É Isso, Companheiro? – Melhor Filme de Língua Estrangeira (1998)


Dois anos depois da indicação de "O Quatrilho", o Brasil volta a aparecer na categoria de Melhor Filme de Língua Estrangeira. A direção de "O Que É Isso, Companheiro?" é assinada por Bruno Barreto, e mais uma vez, perdemos a estatueta para a Holanda, com a obra "Caráter", dirigido e escrito por Mike van Diem.

Central do Brasil – Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Atriz (1999)


Um dos mais importantes filmes do cinema brasileiro, "Central Do Brasil" nos rendeu duas indicações ao Oscar: Melhor Filme de Língua Estrangeira e Melhor Atriz, para Fernanda Montenegro. Dirigido por Walter Salles e escrito por João Emanuel Carneiro e Marcos Bernstein, infelizmente, o filme não levou nenhuma estatueta, mas a obra é um legado importante para o cinema nacional.

Uma História de Futebol – Melhor Curta-Metragem (2001)


"Uma História De Futebol" foi produzido e dirigido por Paulo Machline e, de forma ficcionalizada, conta passagens da infância de Pelé, narradas por um amigo de infância. A estatueta acabou indo para "Quiero Ser", de Florian Gallenberger.

Cidade de Deus – Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia e Melhor Edição (2004)


Outro filme que foi um marco para o cinema nacional, "Cidade De Deus" conquistou quatro indicações no Oscar, em 2004. Foi dirigido por Fernando Meirelles e escrito por Bráulio Mantovani. César Charlone concorreu a Melhor Fotografia e Daniel Rezende Melhor Edição. A produção não levou nenhuma das quatro estatuetas, pois "O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei" fez estrago naquele ano – foi indicado em 11 categorias e levou todas.

Carlos Saldanha, "A Aventura Perdida de Scrat" e "O Touro Ferdinando" – Melhor Curta-Metragem de Animação (2004) e Melhor Animação (2018)


2004 foi mesmo o ano do Brasil no Oscar, pois também fomos representados por Carlos Saldanha na categoria de Melhor Curta-Metragem de Animação. "A Aventura Perdida de Scrat" acabou perdendo a estatueta para "Harvie Krumpet". 14 anos depois, em 2018, ele recebeu sua segunda indicação, dessa vez na categoria de Melhor Animação (longa-metragem). "O Touro Ferdinando" perdeu o Oscar para "Viva: A Vida é uma Festa".

Lixo Extraordinário – Melhor Documentário (2011)


"Lixo Extraordinário" é uma co-produção entre Brasil, França e Itália, sendo dirigido por João Jardim, Lucy Walker e Karen Harley e acabou perdendo a estatueta de Melhor Documentário para "Inside Job", de Charles Ferguson e Audrey Marrs.

Carlinhos Brown e Sergio Mendes, "Rio" – Melhor Canção Original (2012)


Os dois músicos brasileiros concorreram ao Oscar com a música "Real in Rio", da animação "Rio". A composição também foi assinada pela americana Siedah Garrett. O trio perdeu o prêmio para "Man or Muppet", de Bret McKenzie, canção do filme "Os Muppets".

O Sal da Terra – Melhor Documentário (2015)


"O Sal Da Terra" segue os passos do renomado fotógrafo Sebastião Salgado, desde os seus primeiros trabalhos em Serra Pelada, até a produção da obra "Gênesis". O filme foi co-produzido por Juliano Salgado, cineasta e que é filho de Sebastião. Dessa vez, quem venceu a categoria foram Laura Poitras, Mathilde Bonnefoy e Dirk Wilutzky, com o documentário "Citizenfour", uma co-produção norte-americana, francesa e alemã.

O Menino e o Mundo – Melhor Filme de Animação (2016)


A direção e roteiro de "O Menino E O Mundo" são assinados por Alê Abreu, mas quem levou a estatueta de Melhor Filme de Animação foi Peter Docter e Jonas Rivera por "Divertidamente".

Democracia em Vertigem – Melhor Documentário (2020)


"Democracia Em Vertigem" acompanha, através do passado da cineasta Petra Costa e de gravações e entrevistas que ela realiza, a eleição de Lula em 2002 até o processo de impeachment de Dilma Rousseff, analisando a ascensão e queda do Partido dos Trabalhadores e a crise político-econômica do Brasil. Além de Petra, o filme foi co-escrito pelas brasileiras Carol Pires e Moara Passoni. Perdeu para o ótimo "Indústria Americana", de Steven Bognar, Julia Reichert e Jeff Reichert e produzido pelo casal Michele e Barack Obama.

 


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