CineOP: Efeito Reciclagem mostra catador com duas esposas

Documentário acompanha cotidiano de família de catadores que abalam juízo moral

19/06/2011 15h37

Efeito Reciclagem não tem esse título à toa. Dele desprendem-se dois significados, sendo o mais óbvio o reaproveitamento de materiais recicláveis. Afinal, o filme acompanha uma família de catadores que sobrevive disso e reclama da perseguição que a prefeitura de São Paulo realiza contra os carroceiros.

Com isso, o documentário toca seu primeiro tema: o meio ambiente. O que faz, porém, do longa de estreia do canadense Sean Walsh algo a mais do que apenas um filme correto? A tal família que conta a história, sem dúvidas. Os Alvarenga têm uma estrutura peculiar. Existe o chefe da família, Claudinês, senhor de 60 anos que começou a trabalhar como catador junto ao pai.

Ao seu lado, estão duas esposas. Como? Vamos de novo: duas esposas, obviamente não reconhecidas judicialmente, já que a lei não permite a bigamia, mas legitimadas pela própria família. Suas duas companheiras dividem tudo na casa. Ambas as famílias que surgiram dentro dos dois núcleos convivem com os mesmos erros e acertos de qualquer outra que conhecemos. Sem alardes

Os filhos são muitos, tantos que Claudinês até perde a conta. As ex-esposas também, muitas delas aparecendo no filme. Entramos nesses emaranhados relacionamentos bem aos poucos, vagarosamente. Primeiro, um pedaço de um dia de trabalho na rua Santa Ifigênia, centro da cidade, recolhendo papelões, cobres, plásticos. Tudo amontoado numa velha e simpática Kombi verde-limão, que há muito pede merecida aposentadoria.

Depois, acompanhamos mais outro trecho da rotina de trabalho. Com um detalhe muito sutil: a mulher e a menina que estão dentro da carroceria ao lado de Claudinês são brancas, enquanto as do dia anterior eram negras. São esses destalhes que constroem o terreno do documentário.

Numa montagem sensacional de Cristina Amaral (que costuma sempre trabalhar com Carlão Reichenbach), Efeito Reciclagem, Melhor Filme do FICA – Festival Internacional de Filmes e Vídeo Ambiental em 2010, traça um interessante paralelo entre a reciclagem de materiais que iriam para o lixo e a do julgamento humano. Mais do que o filme sobre meio ambiente a reforçar um discurso autômato – e por vezes apolítico –, o documentário de Sean Walsh, exibido na noite de sábado (18/6) dentro da programação do CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, fala sobre comportamento humano. Filme muito interessante.


Redenção, média-metragem de Roberto Pires, também foi exibido no CineOP

Produção histórica da Bahia

Como já lembramos em reportagens anteriores, o CineOP dedica-se principalmente à preservação da memória cinematográfica do Brasil. Tanto que tem exibido produções da chanchada com O Homem do Sputinik e Aviso aos Navegantes, além da homenagem ao diretor Carlos Manga e a debate envolvendo a cultura e o cinema brasileiro dos anos 1950.

Neste eixo, a mostra projetou também Redenção, média-metragem dirigido por Roberto Pires, o mesmo de A Grande Feira, em 1959, ano anterior à explosão de Glauber Rocha com Barravento no cenário baiano e brasileiro.

Muito estranho pensar que esse filme é contemporâneo do Cinema Novo. Na verdade, trata-se de um híbrido que alia escolhas cinematográficas felizes com outras desastrosas e amadoras. Vemos dois amigos (Geraldo del Rey e Braga Neto) donos de uma pousada e preocupados por precisarem de dinheiro. Um empréstimo seria a solução. Enquanto isso, chega para se hospedar no local um misterioso homem. O mistério é inaugurado.

Roberto Pires filma a paisagem natural numa improvisação de scope (formato retangular que aproveita toda a extensão lateral da tela), privilegiando a horizontalidade e a profundidade de campo. Nos momentos em que precisa exprimir o desejo dos personagens, é inteligente e coloca, na mesma imagem, o campo/contracampo, como faziam alguns contemporâneos japoneses. Lindo.

Por outro lado, é altamente inocente. As elipses (supressão dos tempos mortos que não acrescentam à narrativa ou à ação do filme) praticamente inexistem. A sequência final que justifica o título do filme é risível, seja pelos diálogos literais, seja pela interpretação que também não ajuda.

Além da curiosidade de conhecer um pedaço da então prolífica produção cinematográfica baiana, Redenção mostra como um filme pode ser interessante e inseguro em apenas 57 minutos.

*O repórter viajou a convite da organização do festival

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