"Coisa Mais Linda abre margem para reflexão", diz Mel Lisboa

A série trata de feminismo, música e luta por mudanças em uma sociedade machista

20/03/2019 17h00

Por Daniel Reininger

Coisa Mais Linda, nova série brasileira da Netflix, aproveita o cenário do Rio de Janeiro de 1959 para mostrar a história de quatro mulheres em busca de seus sonhos numa época de glamour e preconceito, ao som da Bossa Nova.

Na trama, a socialite paulistana Maria Luiza (Maria Casadevall) vai para o Rio onde descobre que seu marido fugiu com seu dinheiro. Ao lado da protagonista, estão Adélia (Pathy Dejesus), Lígia (Fernanda Vasconcellos), Thereza (Mel Lisboa), Capitão (Ícaro Silva) e Chico (Leandro Lima), todos em busca de seus sonhos e espaço em uma sociedade retrógrada.

Conversamos com o elenco para saber mais sobre a série que trata de temas tão relevantes:

Coisa Mais Linda

Embora elenco e produtores neguem que a série seja feminista ou panfletária, é inegável sua relevância nos aspectos sociais. "É uma série de mulheres fortes que fazem suas escolhas, as encaram e as histórias delas vão virar sementes para que as pessoas passem a refletir. Além de entreter com essa música, vai educar as pessoas", contextualia o ator Leandro Lima, intérprete do músico Chico.

São histórias atemporais e também capazes de tocar a todos, segundo todo o elenco. "Era importante as camadas de humanidade de todos esses personagens. Todos são muito humanos do ponto de vista das relações, não cair na caricatura e acho que o desafio tá aí. O Capitão é quase um homem quase impossível, ainda mais nos anos 60", afirma Ícaro Silva.

"Os anos 60 me tocam pela efervescência cultural e pela busca de identidade, da música, das pessoas, artística de forma geral, uma busca por seu lugar no mundo. A busca pela vida no morro nessa época também me intrigou, ainda mais porque essas histórias periféricas não são muito contadas", completa ele.

A mimada Lígia, vivida por Fernanda Vasconcelos, vira cantora ao tentar achar seu caminho e a atriz relembra que caiu no choro ao soltar a voz. "Não me sentia capaz. Cantar é uma novidade para mim. A primeira vez que entrei na sala para fazer o teste, me perguntaram: 'Você canta?'. Falei: 'Não' (risos). Aí fui em um professor, ele tocou piano e disse: 'Canta'. A minha reação foi chorar".

Coisa Mais Linda

Para Maria Casadevall, o mais difícil foi se adaptar a uma época de preconceitos. "É muito louco olhar pra Malu com meu olhar de hoje. Eu tentei abordar pelo lado da transgressão, construir com foco nas vontades, enfrentando o controle do pai e as dificuldades da sociedade", diz.

Feminismo

A série trata de feminismo, música e luta por mudanças em uma sociedade machista, racista e atrasada, em meio a uma época de glamour aparente. Para o elenco, é exatamente a distância da época que permite que as pessoas reflitam sobre suas atitudes.

"A série abre margem para reflexão, possibilita a conscientização das mulheres. Existe uma curva enorme de um processo do entendimento da igualdade de gênero e cada uma tem seu processo pessoal, desde a negação, alienação, até quando há a revolta do processo pessoal e você vai indo nessa curva. A série não é panfletária e tá num lugar que agrega à discussão e abre portas e todas as pessoas são capazes de analisar o que mudou e o que não mudou tanto assim e o que precisa mudar. Isso é potente", afirma Mel Lisboa.

Luta

A luta de classes também está na série. "De uma forma muito corajosa, o programa explicita uma violência de classe, por isso eu não quis atravessar minha construção da personagem com o processo que eu estou vivendo hoje, que é totalmente orgânico e em movimento", conta Casadevall.

Sem dúvida é o feminino que domina Coisa Mais Linda. "O meu maior cuidado foi criar a personagem com muitos erros, deixar claro que é uma mulher que pode errar. Não queria cair na caricatura da mulher antiga que sofre violência, sabe? Então, eu quis tornar a Lígia uma personagem muito acessível, muito possível, que pudesse me atravessar", completa Fernanda.

Ela ainda fala sobre sua personagem, que enfrenta dificuldades dentro e fora de casa. "A Lígia me deu esse presente de não julgar antes o que eu sou ou não capaz de fazer e também de escolher experimentar, de me permitir. Isso foi bem interessante. Eu acho que, antes mesmo de fazer o teste, eu já estava aprendendo com o que essa série tem para mostrar", explica.

Preconceito

Com a personagem Adélia, fica clara outra questão de crítica da série: o preconceito e a falta de oportunidades da comunidade negra. "O mais surpreendente dessa história foi a gente perceber ao longo do processo que não estamos tão distante do que está escrito no roteiro que se passa há 60 anos. A gente não pode ignorar as conquistas feitas lá atrás, que nos permitem estar aqui. Mas conseguimos identificar coisas que acontecem hoje e você pode trocar só as personagens, aquele figurino e aqueles diálogos cabem, aqueles problemas cabem, aquela apontada de dedo cabe, talvez maquiada de uma outra forma", comenta Pathy Dejesus.

Coisa Mais Linda - Série Netflix

Durante a entrevista, Pathy pediu para que Maria contasse uma situação que mostra bem essa diferença entre as mulheres brancas e negras.

"Foi muito emblemático quando nós quatro estávamos conversando e se preparando para os papéis e, no meio da conversa, reparamos que uma voz estava ausente e a Patty não tinha nada a dizer, porque éramos três mulheres brancas falando sobre o que acham sobre tudo isso e a mulher negra não tinha o que falar, porque suas questões eram outras. Esse silêncio nos disse muito. E as coisas ainda permanecem diferentes hoje", disse ela.

Dejesus completou o assunto ao lembrar uma cena em que sua personagem deixa claro que nunca teve escolhas, ao contrário das mulheres brancas da série. "Se hoje a gente troca os personagens e os figurinos, aquela apontada de dedo da Adélia ainda cabe. É uma coisa que hoje tem nome, mas naquela época não tinha. Vale ouvir o que ela tem a falar. É muito louco essa distância cultural".

As questões sociais devem atrair muita gente, mas a produção merece uma chance também pela forma como proporciona reflexão e entretenimento de forma equivalente. "Todas as pessoas são capazes de rever pensamentos e atitudes", finaliza Mel Lisboa.

Coisa Mais Linda chega à Netflix no dia 22 de março.

Veja o trailer: 

 

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