Aquarius foi o filme nacional mais falado dos últimos tempos, mas pelos motivos errados

Longa não faz jus ao burburinho político que o cerca

01/09/2016 16h41

Por Iara Vasconcelos

Aquarius, o mais novo filme do pernambucano Kléber Mendonça (O Som Ao Redor), chega ao circuito brasileiro nesta quinta-feira (1), envolto em uma série de polêmicas e dias depois de ser recebido com muita festa em Gramado. Tudo começou durante o Festival de Cannes, quando o elenco resolveu se manifestar na entrada do Grand Théàtre Lumière, onde ocorreria a exibição do longa, contra a situação política brasileira e o governo do, até então, presidente interino Michel Temer. Apesar de não levar a tão cobiçada Palma de Ouro, Aquarius saiu de lá aplaudido. Entretanto, nas redes sociais, um grupo de brasileiros pedia boicote ao filme.

+ Veja crítica de Aquarius

O que é mais curioso sobre toda essa polêmica é que a trama do longa, estrelado por uma inspirada Sônia Braga, não faz jus ao burburinho político. Ao contrário de O Som Ao Redor, trabalho anterior de Kléber, o longa não foca em lutas de classe ou partidarismos. Claro que a crítica social ainda está presente, mas é menos clara.

+ Leia a crítica do filme

Mas é claro que o assunto não parou por aí, principalmente pelo longa ter sido muito aplaudido na abertura do Festival de Gramado, onde Temer foi novamente vaiado, e o filme ter fortes chances de ser o escolhido para representar o Brasil na categoria de "melhor filme estrangeiro" no Oscar, prêmio que o Brasil nunca conseguiu levar.

Como forma de protesto pela polêmica e para conceder mais chances a Aquarius, outros cineastas, como Gabriel Mascaro, de Boi Neon e Anna Muylaert, de Mãe Só Há Uma, optaram por não inscreverem seus respectivos longas na disputa pela estatueta dourada.

Outro motivo para a desistência deles é que Marcos Petrucelli, um dos membros da comissão do Oscar, condenou abertamente o protesto feito pela equipe. Graças a isso, a atriz Ingra Liberato e o diretor Guilherme Fiúza Zenha resolveram de desligar da comissão, sendo substituídos por Carla Camurati e Bruno Barreto.

Aquarius

Para completar, um novo empecilho surgiu. O longa havia recebido classificação etária de 18 anos pelo Ministério da Justiça. Uma grande parte da classe artística e da imprensa protestou por não ver razões para a decisão. Após reunião com a Vitrine Filmes, distribuidora do longa, o orgão decidiu voltar atrás e reduziu a indicação para 16 anos. 

Com boicote ou não, a verdade é que Aquarius talvez seja o filme nacional que mais levantou debate entre a população e a rodinha da classe artística, mas esse debate pouco tem a ver com o conteúdo da produção. O que nos leva a pensar, porque tantas outras excelentes produções nacionais não alcançaram o patamar de notoriedade desse?

A trama é de uma sensibilidade admirável e é uma das produções brasileiras que mais têm chances reais de agradar a Academia de Hollywood, com um roteiro tradicional e uma história de fácil identificação, além da atuação segura de Sônia Braga, que já tem um histórico em Hollywood. Além disso, o filme foi bastante elogiado pela crítica internacional.

Infelizmente, foi necessário em embate entre opositores políticos para que o cinema nacional finalmente fosse discutido, mas ainda assim o que restou foram divagações sobre as convicções pessoais de seus realizadores.

Assista ao trailer de Aquarius, destaque no Festival de Cannes e Gramado e estreia da próxima quinta:

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