Daniel Rezende estréia no trabalho de direção

20/03/2008 12h07

Daniel Rezende é um dos montadores de cinema que mais se destaca no cenário cinematográfico atual. Especialmente depois de ter seu primeiro trabalho em longa-metragem consagrado internacionalmente. Com Cidade de Deus (2002), Rezende chamou atenção do mercado e viajou o mundo para receber importantes prêmios, como o Bafta, o principal do cinema britânico, e o Oscar, já que seu trabalho na montagem do filme de Fernando Meirelles concorreu ao prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood na respectiva categoria.

Natural o trabalho evoluir e, agora, ele se depara com a estréia na direção de um filme. No caso, é Blackout, um curta-metragem que está quase pronto. "Ele está na fila de finalização", brinca o montador e agora diretor. "A idéia surgiu há uns oito anos, mas só tomou forma quando Simone Alexal, a roteirista do curta, resolveu finalmente colocá-la no papel", explica Rezende ao Cineclick. "Foi ela que deu todo o fundo político e definiu os personagens; eu tinha apenas a situação na cabeça", continua.

O fundo político ao qual Rezende se refere é relacionado aos personagens de Blackout, o assessor de um corrupto deputado e um suplente. Eles entram numa sala em reforma no último andar da Assembléia Legislativa para fumar um "baseado" no fim de uma sexta-feira. "Ao reclamar de que tudo tem dado errado naquele dia, principalmente por ter que cuidar de um suposto caso amoroso envolvendo seu chefe, o assessor do deputado e seu amigo suplente se deparam com situações que provam que tudo na vida pode sim piorar. E muito!", completa o diretor.

Em sua estréia como diretor, Daniel Rezende dirigiu atores do naipe de Wagner Moura (protagonista de Tropa de Elite, cuja montagem é assinada por Rezende) e Augusto Madeira (Conceição - Autor Bom É Autor Morto), o também montador Deo Teixeira e "acreditem se quiser, Cesar Charlone (que também fotografou o curta), fazendo seu debute como ator", conta o diretor. Além de diretor de fotografia e, neste caso, ator, Charlone também é diretor - sua estréia ocorreu em O Banheiro do Papa, atualmente em cartaz em alguns cinemas brasileiros. "Não teria conseguido fazer esse filme sem eles", comenta Rezende.

"Posso dizer que ser montador me ajudou muito nessa primeira experiência, principalmente porque conseguimos fazer o que eu mais queria neste curta", comenta o diretor sobre a influência de seus trabalhos anteriores nesta nova etapa de sua carreira. "Blackout é praticamente um plano-seqüência, mas falso, com uns oito cortes escondidos", revela. "De qualquer maneira, acabou sendo um baita de um desafio, pois, como diretor, eu tinha de 'montar' durante a filmagem e, além disso, tinha de trabalhar com excelentes atores", explica Rezende. Mas o fato dele ser montador não significou, necessariamente, que ele fizesse este trabalho em sua estréia como diretor. "Desde o começo eu havia decidido dirigir o filme somente, então convidei Valeria de Barros para montá-lo", revela. "Foi ótimo descobrir como é estar do outro lado e como é ter uma outra visão sobre o material que você filmou; foi a Valeria que me convenceu do melhor take a ser usado, pois na filmagem eu havia gostado de outro", explica Rezende. "No final, foi um filme feito com amigos e todos deram muito de si nele. A Claudine Franco, produtora, fez o filme acontecer", conclui.

Esta nova etapa na carreira de Daniel Rezende algumas questões. Será que ele pretende seguir dirigindo filmes? "Quero continuar montando, porque é o que sei e gosto de fazer, mas se pintarem mais projetos como este, encaro o desafio", revela. Em outra entrevista, Daniel Rezende definiu Fernando Meirelles - com quem trabalhou pela terceira ocasião recentemente, na montagem de Blindness - como um "diretor-montador". Ele explica: "O Fernando é exatamente um diretor-montador, ele entende muito de montagem e filma muito bem porque sabe o que vai ser usado." Ou seja, o figura de Meirelles foi presente também neste novo trabalho de Rezende: "Devo tudo que aprendi de montagem a ele, que gostou do roteiro do Blackout desde o começo e a O2 Filmes (produtora do cineasta) deu a maior força."

Claro que não poderia faltar um comentário sobre o famigerado Blindness, novo filme de Meirelles, baseado no livro Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago. Recentemente, o cineasta publicou no blog de produção do longa comentários sobre a aceitação que o filme tem tendo nas exibições-testes. Em várias pesquisas, Blindness não teve uma boa aceitação por ter muita violência e cenas de estupro. A montagem, de acordo com Rezende, foi finalizada há duas semanas. "Toda essa fase de exibições testes e mudanças já passaram e o filme está ótimo", comenta. "Está em fase de finalização de som e imagem."

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