De Cabeça Erguida: Confira entrevista com Rod Paradot, protagonista do drama

Ator fala sobre experiência de atuar ao lado de Catherine Deneuve

16/09/2015 16h13

Por Iara Vasconcelos

O drama De Cabeça Erguida, exibido no Festival Varilux de Cinema Francês 2015, gira em torno do jovem Malony, interpretado por Rod Paradot, que é negligenciado pelos pais e acaba caindo no mundo da criminalidade. Entretanto, o rapaz é ajudado pela juíza Florence Baque (Catherine Deneuve) e levado a um centro de recuperação de menores infratores no filme que estreia nesta quinta-feira no Brasil. O Cineclick - Tudo Sobre Cinema bateu um papo com o novato ator francês e você pode conferir abaixo:

Qual foi seu primeiro contato com o filme?

Estava fazendo uma formação para ter um Certificado de Aptidão Profissional em marcenaria, em fabricação, na escola profissional de Stains. Durante a pausa, estava fumando um cigarro do lado de fora e Elsa Pharaon veio falar comigo. Ela procurava um jovem como eu para um filme e me perguntou se me interessaria em fazer um teste. Fomos a uma sala, fizemos um teste e... pelo visto, deu certo!

Você se lembra do seu primeiro encontro com Emmanuelle?

Foi para fazer testes com ela. Ela ficava lá e me olhava enquanto me filmavam... Eu estava meio estressado. Antes disso, eu me informei, fui procurar na Internet, sabia quem era ela e o que ela tinha feito. Sabia que era uma pessoa do mundo do cinema, diretora e atriz. Então, quis dar o máximo de mim, para passar no teste. Queria que ela gostasse.

Ela lhe deu uma cena para decorar?

Só um textinho. Um trecho do roteiro no qual pedia a Ludo para me dar um cigarro. Uma cena bem violenta – de que gostei muito ao assistir ao filme. Depois, fiz vários testes, mas Emmanuelle não me dizia se eu tinha sido escolhido ou não! Antes de encontrar Benoît e Sara, fiz vários testes com outros atores e atrizes. Achava que se estava vendo tanta gente, era bom sinal, mas não me diziam nada! Fiz testes com dezenas de garotas para o papel da minha namorada no filme. Foi nesse momento que Emmanuelle me disse que tinha me escolhido! Fiquei muito feliz.

Em que diria que Malony é próximo de você... se é que ele é?

Tenho a impressão de me ver um pouco em Malony. Na personalidade dele. Embora seja bem menos violento do que ele. Gosto muito desse personagem. Há muito amor nele, sobretudo pela mãe. E paralelamente a isso, ele sofre muito de carência de amor, e é por isso que sente tanta raiva... É disso que gosto nele. Moro num conjunto habitacional, sei como é. Os jovens sempre ficam na rua aos 8 anos, sem pais, sem nada, soltos, e é assim que começam a fazer besteiras. E foi isso também que me tocou, pois queria que isso acabasse...

Onde você cresceu? Tem irmãos e irmãs?

Sempre morei em Stains. Sou filho único. Meu pai é bombeiro e minha mãe, funcionária.

Você vai muito ao cinema?

Não muito, mas gosto. Adoro filmes de terror. Assisti ao primeiro quando era pequeno e nunca mais me esqueci. Foi  O Exorcista! Quando soube que ia filmar com essa gente toda, assisti a filmes com eles. Assisti a "Ela Vai" e "Políssia" várias vezes.

Quando era mais jovem, você sonhou que um dia poderia ser ator?

Francamente, de jeito nenhum! Não achei que era capaz. Ao mesmo tempo, sempre gostei de tudo o que era teatro, exercício de expressão, etc... No primário, fazíamos algumas aulas de teatro para lidar com nossas emoções, para não ficarmos muito agitados na aula. Nos faziam trabalhar o grito, a tristeza, a alegria... Depois, toda vez que fiz colônias de férias, participei dos espetáculos que eram organizados. Também fiz uma cena na escola, um trecho de "Sonhos de Uma Noite de Verão", de Shakespeare. Gostei muito.

Emmanuelle Bercot o fez trabalhar com um coach antes da filmagem...

Daniel Marchaudon me ajudou muito. Trabalhamos muito mais de dois meses. Ele me fez pensar na história, tentamos entender bem tudo o que acontecia. Ele me falava do personagem, de Malony, dos motivos para ele agir assim, por que pensava isso, etc... Trabalhávamos mais parecia ser um lazer. Talvez por trabalharmos muito passeando. Era mais natural, mais divertido do que se ficássemos numa mesa. Era mais fácil para entender a história e gravar o texto. Eu sempre tive dificuldade com as lições da escola, mas ali eu aprendia fácil! Talvez por essa história me tocar muito – eu cheguei a chorar ao ler o roteiro. Ou talvez porque eu conheça histórias assim...

Você se lembra do seu primeiro encontro com a sua juíza, com Catherine Deneuve?

Foi num teste de luz, pouco antes da filmagem. Estava emocionado e meio tenso. Não tinha assistido a muitos filmes com ela, mas sabia quem era, minha família tinha falado muito dela, da sua fama e sua carreira. Eu tinha me resignado, tinha assistido a "Ela Vai". Então foi um horror e uma alegria contracenar com ela. Fiquei meio impressionado no início, meio reservado, mas ela foi muito gentil e me deixou à vontade.

Como explica as relações de Malony com sua juíza?

Eu me perguntei muito sobre isso... Acho que ele a considera como alguém da família. Ela é meio o pai que ele não teve. E seu olhar e sua opinião são muito importantes para ele. Ela procurou entendê-lo, tentou não penalizá-lo logo, isso os aproximou. Mesmo quando ela o acaba mandando à prisão, ele agradece pois se dá conta de que passou dos limites e que ela não pode fazer outra coisa. Acho que é a ela que Malony é mais apegada.

Mais do que ao educador, papel de Benoît Magimel?

Não é a mesma coisa. Yann é mais um tio, ou um primo, ou um irmão mais velho. Há muito amor entre eles... É divertido pois nos disseram várias vezes na filmagem que eu e Benoît parecíamos da mesma família. Em todo caso, logo nos demos bem. Conversamos muito, fizemos várias confidências, ele me contou sobre o início da carreira, quando era ainda mais novo do que eu, ele me ajudou, me deu conselhos, me deixou à vontade... Ficamos logo em sintonia. Com a Sara também foi assim. Com ela, tínhamos uma relação simbiótica, meio como no filme... mas menos movimentada! [Risos] Ela era como uma irmã mais velha para mim.

De que cenas você tinha mais medo antes da filmagem?

Das cenas de sexo! [Risos] Eu não sabia como iam acontecer as coisas, e sentia medo. No final, elas não foram tão difíceis assim! Diane [Rouxel] foi como uma irmã também. Nos dávamos muito bem, nos ajudamos muito, ensaiávamos nossas cenas juntos à noite. Um dia até perguntei se podíamos nos beijar para ficar mais à vontade na hora da filmagem! [Risos]

E quais foram as cenas mais difíceis a fazer?

A cena em que mais me esforcei foi a cena com Sara, quando empurrei a mesa, ela bateu na barriga da mulher grávida e Sara cuspiu em mim! Já não gosto que me cuspam na cara! Tive que me controlar muito. Foi uma cena muito difícil, que me perturbou. Depois de ter filmado, fiquei 30 minutos sozinho para relaxar...

Há outra cena em que me esforcei muito. Na boate, quando Malony exprime tudo o que tem dentro dele, sua raiva e seu amor. Todo tipo... Nunca tinha dançado música transe até bater com a cabeça contra a parede. Foi difícil, me custou muito. Fora isso, fizemos a cena várias vezes...

Emmanuelle diz que foi dura com você de vez em quando, que não lhe dava descanso enquanto não conseguia o que queria...

É verdade, mas ela me orientou muito, me ajudou na filmagem, para entender Malony, e também para me fazer entender o que esperava de mim. Às vezes era difícil, mas era melhor do que ter um diretor que me diria apenas para fazer o que estava escrito! Ela sabe o que quer e quando quer algo vermelho, tem que ser vermelho, e não branco! [Risos] Mas acho que é por isso que os filmes dela arrebentam. Às vezes eu ficava mal após algumas cenas pois absorvia muito as coisas, e precisei de tempo para entender que era em relação ao Malony e não contra mim! Em todo caso, foi uma experiência formidável...

O que o surpreendeu mais nessa experiência?

O trabalho de equipe. O cinema é um mundo à parte, onde as pessoas trabalham com o mesmo objetivo, onde todos estão presente, ouvindo. Pode-se falar, fazer confidências... Estavam todos lá para mim, até nos momentos em que eu tinha dificuldades.

Quando assistiu ao filme pronto, o que o surpreendeu mais?

Quando atuamos num set, não imaginamos como vai ficar, e depois, quando está diante dos seus olhos, não dá para acreditar! Vemos o trabalho feito por todo mundo, no set e na montagem. É ainda mais bonito quando vemos que funciona com Benoît, com Catherine, com Sara. É a prova de que estávamos muito unidos, que trabalhamos bem juntos. Fora isso, claro, entendi como o cinema funcionava. Antes eu assistia a um filme sem pensar na forma como tinha sido feito, hoje eu penso: "Ah, há uma mudança de plano ali, outra lá, e a câmera fez isso..." Agora eu me dou conta do trabalho, da importância de todas as profissões do cinema.

E o que diz o filme, isto é, que se os pais não podem se encarregar da educação dos filhos, é a sociedade que deve assumir, daí o trabalho do juiz, do educador, é algo que o afeta?

É, pois eu moro em Stains, onde há muita delinquência, agressões, jovens perdidos como Malony, e acho que esse filme vai fazer as pessoas pensarem sobre educação... Não se faz um filho sem motivo, há sempre algo que inicia o processo. Isso me fez refletir também...

De Cabeça Erguida vai abrir o Festival de Cannes. Você está...

Orgulhoso, muito orgulhoso com o filme! Muito excitado e muito nervoso também! Mas estou, sobretudo, muito alegre, muito alegre.

E depois de Cannes?

Veremos... Emmanuelle me preveniu. Me disse que isso podia parar de um dia para o outro. Penso nisso, mas gostaria de continuar. Gostei muito de encenar, gostei muito de entrar na pele de Malony... Gostei, me interessei muito, me fez até chorar! Então adoraria continuar...

Se só pudesse se lembrar de um momento dessa aventura, qual seria?

O momento em que fomos todos filmar, e me dei conta que estávamos todos ali e íamos encenar juntos. Foi magnífico.

De Cabeça Erguida estreia nessa quinta-feira, 17 de setembro, nos cinemas do Brasil.

Veja o trailer do filme:

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