Diretora de Capitães da Areia diz que não fará versão baiana de Cidade de Deus

21/03/2009 11h17

Texto: Heitor Augusto
Fotos: Vantoen Pereira Jr.


Em 1937, Jorge Amado publicou seu sexto romance, Capitães de Areia. Aos 24 anos, o homem que se tornaria um dos maiores escritores brasileiros, deu um olhar que mistura romantismo e política a um grupo de adolescentes sem eira nem beira que se vira com pequenos furtos.

Mas essa atmosfera do jovem Jorge Amado, então filiado ao PC (Partido Comunista), não é exatamente o que vai permear a versão cinematográfica da história, dirigida pela neta do escritor, Cecília Amado. "Apesar de o livro ter muita coisa que ainda fascina os jovens de hoje, ele contém muito da ideologia do jovem Jorge", explica Cecília, que atendeu ao Cineclick por telefone de sua casa no Rio de Janeiro. "Eu convivi muito com ele durante minha adolescência, quando ele já tinha mais de 70 anos. E o homem que conheci era mais maduro e humanista. Essa postura dá o tom ao filme".

A primeira mudança é o espaço de tempo em que a história dos garotos se passa. No livro, está anos 30; na versão cinematográfica, cujo roteiro foi escrito por Cecília em parceria com Hilton Lacerda (A Festa da Menina Morta), é deslocada para a década de 50. Mas, para quem gosta do livro, a diretora alerta: todos os Capitães, do líder Pedro Bala à única mulher do bando, Dora, estão no filme.

Estreante na direção, Cecília já trabalhou com não-atores no seriado Cidade dos Homens. Ao lado do experiente preparador de elenco Christian Duuvoort (O Banheiro do Papa), selecionou os jovens que viveriam os novos Capitães da Areia. "A preparação começou em outubro de 2007. Tivemos mil e tantos jovens de 22 ONGs, por exigência minha. Destes, ficaram 90. Duuvoort os preparou por dois meses. Sobraram os 12 escolhidos, que receberam outros dois meses de preparação", explica a diretora.

Rostos desconhecidos, como o Jean Luis Souza de Amorim, que interpreta Pedro Bala, líder do bando. Hora de começar as filmagens. Aí veio a crise, o cronograma foi adiado, mas a produção resolveu tentar reverter a situação: dividiu em três etapas as filmagens. A primeira, entre setembro e outubro do ano passado, concentrou-se no Trapiche, o QG dos garotos; a segunda, em janeiro, e a terceira, o final do filme que mostra os garotos já desarticulados, agora em abril. "Cerca de 90% já filmado", contabiliza Cecília.

No processo de preparação dos atores, a diretora, que já havia trabalhado como 1ª assistente de direção em Batismo de Sangue, conta que percebera, desde o início, o talento de alguns para o papel. "De cara, saquei quem teria de ser o João Grande e o Pirulito". Mas nem tudo foi tão simples. "Com o personagem do Professor, vínhamos trabalhando com um garoto, mas ao longo do processo outro jovem foi se revelando. E é difícil chegar para eles, que não têm estrutura familiar ou financeira, e dizer que está fora", admite Cecília, que conseguiu realocar o garoto no elenco de apoio.

Violência, abandono, um bando de moleques que tenta escapar pela criminalidade. Um novo Cidade de Deus? "Não, pois tanto o conteúdo como a abordagem são diferentes. O filme do Meirelles explica pela superfície a formação da violência e do tráfico. O Capitães da Areia mostra, de maneira humanista, o que está por trás dos jovens, que hoje encontram os mesmos problemas que meu avô mostrou nos anos 30". Porém, não deixam de haver semelhanças. "Os métodos de preparação são parecidos, a violência social também é de impacto, a linguagem é moderna e a fotografia [assinada por Guy Gonçalves] é vibrante".

Carlinhos Brown, um ex-Capitão da Areia

Nesse processo de preparação, um ex-Capitão da Areia real se envolveu muito com o filme: Carlinhos Brown. Um dos personagens, o Boa Vida (interpretado por Jordan Mateus), é músico e há uma sequência no filme em que ele toca caixinha de fósforo.

Brown parou e, durante uma das sessões de preparação, mostrou ao jovem como tocar o instrumento improvisado. "Exatamente como Batatinha [grande nome do samba baiano] ensinou o Carlinhos quando jovem. E ele foi um Capitão da Areia na infância e trouxe muito desse universo para a trilha". Sim, o músico também é responsável pela trilha sonora.

Com a previsão de finalizar a última etapa das filmagens em abril, a diretora diz que pretende lançar o filme no verão. A distribuidora já está garantida: Imagem Filmes. A produção é de Bruno Stroppiana (Skylight) e Donald Ranvaud (Buena Onda). Ainda não está decidido se irá passar por algum festival antes de entrar em circuito.

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