É TUDO VERDADE: O desejo de democracia divide a Rússia, afirma Marina Goldovskaya

Em entrevista exclusiva ao Cineclick, Marina Goldovskaya fala sobre a situaçao política na Rússia e do cinema que registra anônimos

08/04/2011 13h43






















Marina Goldovskaya é a grande homenageada deste ano do É Tudo Verdade. Trata-se de uma das retrospectivas mais inteligentes que o festival de documentários mais importante da América Latina já fez. A obra da cineasta russa, que teve início em 1971, testemunhou a transformação da então União Soviética em direção a um outro modelo, ainda confuso neste início século 21. O cinema de Marina é fundamental para entender a Rússia de hoje.

“Creio que no meu cinema o mais importante é como as pessoas que vão contra a maré reagem às pressões da vida”, contou a cineasta ao Cineclick em São Paulo. Marina está no Brasil acompanhando a retrospectiva e participou na quinta-feira (7/4) do início da 11ª Conferência Internacional do Documentário. Entre sexta e domingo, o festival ainda exibirá, em São Paulo e no Rio de Janeiro, sete de seus filmes [veja programação no fim da matéria].

Seu primeiro longa conhecido internacionalmente é Um Camponês de Archangelsky (1986), sobre um agricultor que lutou isoladamente contra a coletivação rural. Marina já falou dos campos de trabalho forçado na era Stálin (O Regime Solovki) e amarrou diversas histórias que ilustram a trajetória da Rússia pós-Primeira Guerra Mundial (A Casa da Rua Arbat).

Seu cinema também registrou com precisão a falta de rumo da nação após a queda do muro de Berlim (Um Gosto de Liberdade e O Espelho Estilhaçado) e os conflitos étnicos (A Sorte de Nascer na Rússia). Filmes que testemunham a História no calor da hora, algo muito especial para o cinema.

“Eu observo a vida das pessoas, fiz muitos filmes-diários”. Durante a década de 70, tornou-se conhecida por retratos. No início dos 80, se aproximou de jornalistas liberais interessados a falar abertamente de política. No fim do regime, Marina aprimorou a união entre os retratos de anônimos e seus sentimentos com o momento político. “São pessoas e a História ou pessoas na História”.

O que move Marina, a primeira fotógrafa e diretora da antiga União Soviética, a fazer esse tipo de cinema. “O sentimento de mostrar pessoas apaixonadas guia meus filmes. Quando se vive num regime totalitarismo, é preciso se agarrar a alguma coisa. Eu me agarrei na câmera, fazer filmes foi a minha paixão, meu rumo para sobreviver”.


Marina Goldovskaya começou como fotógrafa em 1964 no teledocumentário Quando o Sol Não se Põe

Dziga Vertov

O Gosto Amargo da Liberdade, concluído neste ano, é o longa-metragem mais recente de Marina Goldovskaya. Nele, a cineasta recupera a figura de Anna Politkovskaya, jornalista assassinada em 2006 por cobrir a violência do governo russo contra a população da Chechênia. Mas, assim como a História, a obra da diretora é repleta de interligações: esta produção de 2011, que fala de uma voz solitária contra Vladmir Putin, dialoga com Um Gosto da Liberdade, quando mais de um milhão de pessoas foram às ruas para dizer “sim” à democracia.

Marina conta que, quando começou a realizar seus filmes, a observação no documentário russo era algo raro. “Ninguém fazia, a não ser em outros lugares da Europa ou dos Estados Unidos. Eu tentei observar e capturar a atmosfera – não racionalmente, mas instintivamente, sentia o cheiro. Quando lia textos sobre outros filmes ia sentindo que eu queria fazer aquilo”. Na época, lembra a cineasta, não se fazia documentário sem roteiro pré-aprovado e as entrevistas soavam artificiais.

Para realizar cada filme, uma luta a travar. “Os executivos da televisão onde eu trabalhava não gostavam dos retratos das pessoas que eu fazia, porque não enalteciam a nação. Os filmes eram mostrados uma, duas vezes na TV e sumiam”.

Mas esta postura de cineasta que pega a câmera e sai registrando pessoas não foi inicialmente sugerida por Marina. Já nos anos 20, Dziga Vertov preconizou o cine-olho a registrar os improvisos da vida. “Mas a tecnologia de seu tempo não estava pronta, nem o povo, nem o país – e Stálin não permitiria”.

Aqui entra o ponto chave da obra de Marina Goldovskaya: ao mesmo tempo que documentava o fim da União Soviética, chegava a câmera de vídeo, mais leve e possível de ser manipulada por apenas uma pessoa. Junto com o olhar da cineasta, a tecnologia permitiu que Marina consolidasse seu estilo e realizasse filmes a acompanhar o fluxo da História. “Se não fosse [a tecnologia], meu cinema seria diferente e difícil de chegar a uma atmosfera parecida. Eu ainda poderia registrar as pessoas, mas com a câmera que comprei eu decidi filmar tudo a todo momento”.


Em O Gosto Amargo da Liberdade, documentário mostra falência da Perestroika e assassinato de jornalista

Perestroika

Em 1986, Marina realizou Um Camponês de Archangelsky, retrato de uma voz dissonante – Nikolai Semenovich Sivkov –, a primeira a se opor abertamente à coletivação rural. No ano seguinte, foi a primeira a denunciar os campos de trabalho forçado em O Regime Solovki. Naquele momento, Mikhail Gorbachev ascendeu ao posto de Secretário-Geral do Partido Comunista na União Soviética. Viria uma onda de mudanças trazidas pela Perestroika e Marina Goldovskaya, com seu cine-olho vertoviano, já tinha embarcado nela e passou a pegar os melhores tubos.

E foi assim que chegamos à sua obra com mais de 30 médias e longas-metragens: uma grande onda que registrou, em posição privilegiada, outros tempos – como lembra O Gosto Amargo da Liberdade, não necessariamente melhores que os de antes. “Em 1991, eu via manifestações e chorava porque sentia que todos nós estávamos juntos, felizes e finalmente nos tornando uma nação lutando por liberdade. Hoje somos uma nação dividida entre os querem e democracia e os que não”.

Pela primeira vez em 45 minutos de entrevista com o Cineclick, a diretora de 70 anos titubeia e procura a resposta em algum ponto racional recôndito. “É muito complexo... uma nação que hoje ainda elege Stálin como a figura mais popular da história da Rússia, isso é perigoso, algo está errado... ele matou pelo menos 30 milhões de pessoas... [Marina respira fundo e pensa] a propaganda hoje ainda funciona, e é muito forte”.

Serviço

São Paulo

Sexta-feira (8/4)
19h – A Casa da Rua Arbat, no CCBB
20h – O Príncipe Está de Volta, na Cinemateca Brasileira

Sábado (9/4)
20h – O Gosto Amargo da Liberdade, na Cinemateca Brasileira

Domingo (10/4)
17h – O Príncipe Está de Volta, no CCBB

Rio de Janeiro

Sexta-feira (8/4)
14h – A Sorte de Nascer na Rússia, no Instituto Moreira Salles
16h - O Espelho Estilhaçado, no Instituto Moreira Salles
20h – A Casa da Rua Arbat, no Instituto Moreira Salles

Sábado (9/4)
16h – O Regime Solovki, no Instituto Moreira Salles
20h – Anatoly Rybakov: A História Russa, no Instituto Moreira Salles

Domingo (10/4)
16h – Exibição, seguida de debate com Marina Goldovskaya, de O Gosto Amargo da Liberdade, no Instituto Moreira Salles
20h – O Príncipe Está de Volta, no Instituto Moreira Salles

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