Os efeitos psicológicos de uma quarentena nos olhos das telas

O confinamento já foi abordado no cinema e na TV de muitas formas

02/04/2020 17h30

Por Alexandre Dias

A pandemia de coronavírus mobilizou o mundo todo a ficar de quarentena, que é a reclusão dos indivíduos para evitar o contágio do vírus. Porém, mais do que evitar a transmissão de uma doença, o confinamento promovido por essa ação atinge diretamente o psicológico das pessoas. 

Estamos falando de todo o planeta Terra, logo, são diferentes mentes e corações envolvidos nesse processo. Cada quarentena pode gerar uma consequência dentro do cérebro que a realiza, então é um assunto que precisa ser debatido, inclusive por especialistas. 

Felizmente, a amplitude do que uma quarentena pode significar é proporcionalmente gigantesca às histórias do cinema e da televisão. O audiovisual consegue trazer essa pauta mesmo sem colocar os seus personagens em uma trama verossímil com a situação atual - nem todo o fiilme é Contágio. A comédia, por exemplo, pode fazer uma piada mais psicológica do que uma explicação em um longa sobre uma doença contagiosa. 

Portanto, vamos trazer ao debate como os efeitos de uma quarentena vêm às narrativas cinematográficas: 

Atividades

Um dos principais quesitos da quarentena é o tédio. Em determinado momento, as atividades caseiras chegam no seu limite para todos devido a sua repetição constante. Na comédia As Loucuras De Dick E Jane (disponível na HBO GO), por exemplo, o protagonista encarnado por Jim Carrey não tem motivo para sair de casa e começa a fazer exercícios ou simplesmente interagir com eletrodomésticos, pois é uma forma da autoexposição da sua identidade. Não à toa, a premissa da trama, em que ele começa a fazer assaltos para sobreviver, vem depois disso. 

Cena de As Loucuras de Dick e Jane

Apesar de não estar enclausurado nos seus aposentos, o mesmo ocorre com o personagem de Kevin Spacey em Beleza Americana (disponível para alugar no Google Play e Claro Video) de um jeito mais filosófico. As suas atitudes domésticas refletem a alteração do seu posicionamento para com o mundo, o que está relacionado com a crítica que o diretor Sam Mendes quer fazer à classe média dos Estados Unidos. 

Em ambos os longas, as atividades caseiras são individuais, mas isso não deixa de funcionar quando os indivíduos estão confinados em grupo, seja entre familiares ou amigos. Clube Dos Cinco é a prova perfeita, pois as danças e dinâmicas entre os adolescentes da trama são feitas como uma resposta à procrastinação da detenção. Contudo, o filme ainda traz outro aspecto importante do confinamento com várias pessoas, que é a demonstração dos sentimentos. 

Sentimentos

Ser humano é ter emoções, sejam elas quais forem. No cinema, normalmente os espaços fechados que limitam os personagens abrem o que eles estão sentindo, afinal, é o único local em que o podem fazer.

Na comédia de ação Sou Espião (disponível na HBO GO), em que um boxeador se une a um agente para enfrentar uma organização criminosa, a dupla principal chega a ficar confinada em um esgoto. Kelly (Eddie Murphy) rapidamente começa a falar sobre a sua avó que lhe criou, pois Alex (Owen Wilson) não o conhece tão bem, logo, é a maneira do primeiro se expressar sobre o que tem carinho - a avó. 

Já no terror domiciliar Bata Antes De Entrar (disponível no Telecine Play), os pensamentos sombrios de Evan (Keanu Reeves), um pai de família "ideal", entram pela porta em forma de duas mulheres; apesar do arco das mesmas, elas também funcionam como uma manifestação dos desejos do protagonista, que, por estar machucado em casa, não ficam disfarçados para sempre. O Iluminado, horror sobre a loucura de um escritor em um hotel, também utiliza da metáfora literal da mente humana; porém, o filme de Stanley Kubrick brinca com cenas em que realmente o ambiente em questão estaria misturado com o psicológico perturbado de Jack Torrance (Jack Nicholson) e com exemplos mais diretos, como nos primeiros "desentendimentos" que ele tem com a esposa. 

Cena de Bata Antes de Entrar

Aliás, o modo como o protagonista da adaptação de Stephen King fica sobrecarregado é um dos aspectos do confinamento. Obviamente, o gênero do longa leva isso a outro nível, mas em casos como a série This Is Us (disponível na Amazon Prime Video) isso é mais próximo da realidade. Um exemplo é retratado quando uma família precisa esperar uma parente passar por um procedimento no hospital (imagem do topo); são várias pessoas, em um único ambiente e que precisam ficar ali para qualquer emergência. Isso resulta na elevação máxima de suas emoções e angústias, algo que simplesmente não tem como ser resolvido ali, pois é preciso do tempo dos dias que virão e da vivência desses. 

Ideias e o mundo exterior

Um dos assuntos principais nesta pandemia de coronavírus é a própria. O motivo é simples: é o que está acontecendo fora da quarentena, consequentemente, é como os indivíduos se conectam com o mundo externo. Contudo, mais do que a saúde, essa epidemia traz à mesa questões políticas e econômicas, por exemplo. 

Deus Da Carnificina (disponível na Amazon Prime Video e no Globoplay) realiza esse exercício, porque coloca dois casais em um apartamento para debater uma briga entre os seus filhos. Todos na sala têm visões de mundo diferenciadas e ao mesmo tempo iguais, gerando assim uma troca de argumentos eterna sobre o que pensam. A repetição dos temas tende a acontecer, afinal, as informações obtidas na quarentena dependem da movimentação do que está dentro e fora das paredes. 

Cena de Deus da Carnificina

Duro De Matar (disponível para alugar no Google Play), clássico de ação com Bruce Willis, também conta com uma situação interessante sobre as pessoas reclusas desejarem ter o controle do que não está ao alcance delas. O longa coloca o herói protagonista em um prédio contra bandidos; um dos reféns dos criminosos tenta negociar com eles, mas as coisas não saem como ele imaginava. É uma ficção? Sim, mas a falta de paciência dele é um fator interessante de ser analisado, pois uma quarentena nos coloca uma passagem de tempo mais lenta.

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