Análise: Entenda relação de Coringa, depressão e saúde mental

322 milhões de pessoas sofrem com depressão no mundo

03/10/2019 16h15 (Atualizado em 10/10/2019 14h31)

Por Daniel Reininger

Muito tem se comentado sobre Coringa e a necessidade de um filme mostrar um homem branco recorrendo à violência ao enfrentar frustrações da vida. Mas pouco tem se falado como a trama retrata doenças mentais e como a sociedade vê pessoas que sofrem delas. O longa não tem medo de mostrar como depressão e outras doenças afetam uma pessoa e nem de mostrar o tamanho do preconceito da sociedade.

O filme de Todd Phillips (Se Beber, Não Case!), estrelado por Joaquin Phoenix (Ela), traz questões importantes que precisam ser discutidas. Muitos críticos veem o filme como um manual para tiroteios em massa, mas na minha opinião trata sobre doenças mentais de forma relevante.

Arthur Fleck não era inicialmente um maníaco homicida. Ele se torna violento somente depois de ser intimidado, espancado, humilhado, após anos de problemas mentais não tratados corretamente e diversos abusos sofridos. A falta de empatia e compreensão são pontos óbvios da trama, assim como dura realidade de como a sociedade faz pouco para ajudar pessoas passando por necessidades.

A forma como a maioria das pessoas lida com a depressão hoje em dia é um forte indicativo de como não se valoriza a saúde mental. Com mais 322 milhões de pessoas no mundo sofrendo com a doença, segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), e 800 mil casos de suicídio registrados no planeta, é muitas vezes tratada como preguiça ou falta de força de vontade ou simplesmente ignorada. E obviamente, não é o caso e a OMS não cansa de alertar sobre isso.

Cena de Coringa 6

Fato é: Arthur sofre com diversas doenças mentais. Exibe sintomas de depressão, distúrbios alimentares, alucinaçõescomportamentos obsessivos e paranoicos. Ele também sofre de Riso e Choro Patológico, uma doença que faz com que você comece a rir ou a chorar descontroladamente e não necessariamente reflete o sentimento naquele momento, o que causa situações embaraçosas em público. Esquizofrenia é uma possibilidade muito forte e a lista segue.

Internado numa clínica psiquiátrica ainda jovem, ele luta para se reinserir na sociedade. Toma ao menos sete remédios diferentes, vai a terapia tentar "parar de se sentir mal o tempo todo". Trabalha como palhaço para sobreviver. Obviamente, sua condição o destaca com atitudes consideradas esquisitas por muitos. Por isso, ele sofre bullying constante, é abusado e manipulado por sua mãe, também vítima de doenças mentais, e procura consolo onde pode. Todas essas questões são cruciais para a queda do personagem. Mas, no fim das contas, Arthur é uma pessoa que precisava de apoio e nunca teve.

O governo não se importa com o programa de tratamento que ele usufrui no começo da trama. A terapeuta apontada pela cidade não se importa, porque provavelmente não tem o apoio que ela mesmo precisa e, em breve, também perderá seu emprego. O hospital psiquiátrico interna pessoas sem critérios claros e não parece preocupado em realmente curar seus pacientes.

Arthur é espancado enquanto trabalha, é enganado, pessoas tiram vantagem sempre que podem e sua palavra tem pouco valor mesmo quando fala a verdade, graças a suas atitudes consideradas "fora do padrão". Enquanto isso, à sua volta, uma cidade decadente, corrupta, onde só os ricos tem chance de prosperar se torna cada vez mais cínica e violenta – em tempos de Bolsonaro e Trump, impossível não pegar a crítica nesse ponto também.

Joaquin Phoenix como Coringa

Uma das frases impactantes do filme é: "a pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse". Esse é o ponto principal da crítica do longa nessa questão. A trama trata desse assunto com muita seriedade.

Arhur tenta lidar com essa série de frustrações e se torna violento. Isso lembra casos de tiroteios em massa? Sim, mas o ponto aqui é que isso só acontece quando cortam o programa de tratamento, quando é demitido por um erro infantil e, já sem apoio, começa a perder cada vez mais o controle e sofre uma sequência de choques, revelações e decepções. Sem assistência. Sem rede de apoio. Sem medicação. Sem um diagnóstico cauteloso. Sem recursos. Sem saída. Sem volta. Sem vida.

É visível que a situação é desesperadora para milhões de pessoas sem apoio e ignoradas pela sociedade. E quando um blockbuster levanta questionamentos, dá visibilidade e escancara problemas e preconceitos, é hora de encarar essas questões e começar a buscar maneiras de aliviar o sofrimento de tantas pessoas.

Saiba tudo sobre Coringa:

+ Crítica: Coringa é cruel, pesado e incrível
+ 13 referências e easter eggs de Coringa
+ Heath Ledger e Jack Nicholson viveram Coringa, conheça outros
+ Top Coringas da TV e Cinema, segundo a redação do Cineclick
+ Coringa será para maiores de 16 anos no Brasil
+ Opinião: o Coringa de Ledger nem é tão bom assim
+ O que você precisa ver antes de assistir Coringa
+ Coringa de Phoenix nunca encontrará Batman de Pattinson
+ Ranking DC Comics - Já com Coringa
+ 15 coisas que você não sabia sobre Coringa
+ Coringa leva o maior prêmio do Festival de Veneza
+ Coringa de Phoenix nunca encontrará Batman de Pattinson
+ Coringa é diferente porque Marvel é imbatível, diz diretor
+ De Niro é só elogios ao Coringa de Joaquin Phoenix
+ Cinema atacado por atirador em 2012 não exibirá Coringa
+ Coringa deve quebrar recorde que pertence a Venom
+ Coringa: Politicamente correto tirou Todd Phillips da comédia
+ Coringa é um filme perigoso? Entenda a polêmica
+ Polícia de Nova York cria esquema especial para Coringa

Deixe seu comentário
comments powered by Disqus