Entrevista: "Coringa não é uma comédia", diz Todd Phillips

O diretor contou mais detalhes sobre o longa estrelado por Joaquin Phoenix

07/10/2019 17h34

Por Thamires Viana

Depois de uma longa espera, Coringa finalmente chegou aos cinemas! O filme estrelado por Joaquin Phoenix foi honrado com o Leão de Ouro em Veneza, além de ser ovacionado por oito minutos após sua exibição no festival. Como já era de se esperar, em sua primeira semana em cartaz a produção se tornou a maior estreia de outubro na história!

Em entrevista exclusiva, Todd Phillips contou a emoção de trazer Phoenix para estrelar o filme, além de detalhar como foi o processo de criação de algumas cenas importantes e também da cidade de Gothan para o longa.

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CINECLICK: Você já revelou que certos filmes dos anos 70 e 80 falaram com você e o inspiraram a ser um contador de histórias. Nos conte mais sobre isso?

TODD PHILLIPS: Eu acho que foi a capacidade deles de mergulhar profundamente em um personagem em particular que realmente se relacionava comigo. Eram histórias dirigidas por personagens e não necessariamente histórias dirigidas por enredos. E tem o fato de alguns dos melhores atores de nossa época estarem em todos esses filmes, sejam eles Rede De IntrigasTaxi DriverSerpico ou Um Estranho No Ninho... são muitos. De certa forma, é como teatro, mas com um pouco da mágica que os filmes oferecem.

CINECLICK: Como é ter Joaquin Phoenix em um de seus filmes?

TODD PHILLIPS: Scott Silver e eu escrevemos para Joaquin Phoenix e não sabíamos se conseguiríamos ele para o trabalho. Muitas vezes você acaba não trabalhando com a pessoa para quem escreve, mas isso ajuda a estimular a escrita. Quando terminamos, pensamos: como o conseguiremos? E se não? Ele é um ator único, um dos melhores!

Todd Phillips e Joaquin Phoenix no set de Coringa

CINECLICK: Como escritor e cineasta, qual é a beleza - ou o desafio - de trazer um protagonista que é um narrador não confiável?

TODD PHILLIPS: Você tem uma quantidade intensa de liberdade com um narrador não confiável e tem ainda mais liberdade quando ele é o Coringa. Ele diz na história em quadrinhos Batman: A Piada Mortal: "Se eu vou ter um passado, prefiro que seja de múltipla escolha." Então, isso depende da lente através da qual você assiste o filme, o que você acha que realmente aconteceu e o que você acha que ele é no final. Ele é mesmo o Coringa? Há muitas maneiras de vê-lo e o que acho interessante no filme é que você não sai com todas as respostas. Eu mostrei que ele tem teorias diferentes sobre o que pode ou não ter acontecido.

CINECLICK: E por ser uma história de origem, você sentiu essa liberdade em inventar a maneira pela qual ele se torna o Coringa?

TODD PHILLIPS: Para nós, por causa da versão da história que estávamos contando, tentamos fazer tudo - por mais estranho que pareça - fazer sentido. Por exemplo, parte da razão pela qual ele é um palhaço é porque pensamos: "Por que ele usaria essa maquiagem? Porque sua mãe sempre dizia que ele tinha que trazer risadas e alegria ao mundo?". Nossas respostas para nossas próprias perguntas começaram a se misturar e se tornaram uma história.

CINECLICK: Quais são os temas que você explora na história de Arthur?

TODD PHILLIPS: Uma das coisas que queríamos explorar com o filme é a empatia e, mais importante, a falta de empatia presente em grande parte do mundo. Essa é uma das coisas que achamos interessantes e deixamos para o público diferentes interpretações desse tema.

Joaquin Phoenix em Coringa

CINECLICK: No filme, Arthur está lutando para ser visto, mas é consciente de que é invisível. Mas todas as crianças do filme, como o bebêzinho no ônibus, gostam dele e veem algo de bom nele. Foi proposital?

TODD PHILLIPS: Acho que as crianças estão vendo o mundo "sem lentes". Na verdade eles não distinguem uma pessoa marginalizada de uma pessoa rica ou pobre. Eles apenas veem um cara que está tentando fazê-los sorrir e reagem a isso. Se a mãe do bebê na cena do ônibus dissesse: "Eu só quero agradecer por fazê-lo rir", Arthur teria flutuado para casa em vez de encarar aquela caminhada pesada. Eu sempre dizia a Joaquin: "Arthur tem passos pesados, é apenas o peso do mundo que ele está carregando!"

CINECLICK: No cânone da DC existem inúmeros aspectos da cidade de Gotham que todos conhecemos e você escolheu alguns elementos muito particulares, como Arkham, para incluir no filme. Por quê?

TODD PHILLIPS: Sim, é claro que temos Thomas Wayne como personagem e Alfred e Bruce, e temos edifícios nomeados pelos Waynes, como Wayne Hall e Wayne Manor. Mas o Arkham Asylum em nosso filme é chamado The Arkham State Hospital, que parecia um pouco mais apropriado. Em nossa versão de Gotham, eles realmente chamariam de Arkham Asylum? Não, seria o Hospital Estadual Arkham.

CINECLICK: Como foi esse trabalho com os departamentos criativos para trazer a Gotham que você imaginava?

TODD PHILLIPS: Sempre que você está fazendo um filme, você tem alguns parceiros importantes ao longo do caminho. Eu escrevi com Scott, enquanto Bradley Cooper e Emma Tillinger Koskoff foram meus parceiros na produção. Emma estava no set todos os dias, fazendo tudo acontecer fisicamente. Mark Friedberg, nosso designer de produção, realmente deu à cidade - nossa Gotham - a aparência e a vibe que você vê no filme. Mark cresceu na West 81st Street, então ele resgatou fotos antigas de Nova York para encontrar o nível certo de grafite, o nível certo de lixo e os carros que desejávamos para o período em que o filme se passa. Sua atenção para o detalhe era insano. E Mark Bridges, que fez nosso figurino, já trabalhou com Joaquin algumas vezes antes. Larry Sher, que foi meu cinegrafista nos últimos seis filmes, é provavelmente o meu parceiro criativo mais confiável. Viajamos o mundo juntos gravando filmes e Larry e eu realmente conversamos sobre a aparência específica disso. E Hildur Guðnadóttir, compositora de nossa trilha sonora, escrevia músicas antes mesmo de filmarmos, com base nas páginas do roteiro que eu estava enviando para ela. E há tanta pontuação no filme porque acho que o que ela fez foi tão único. E, obviamente, meu editor, Jeff Groth, trabalha comigo até o último quadro.

Joaquin Phoenix em Coringa

CINECLICK: Há uma frase no filme em que Arthur descreve sua vida: "Eu pensava que minha vida era uma tragédia, mas agora percebo que é uma comédia." Tendo agora o levado da primeira página do roteiro até a última cena, você pode dizer onde, nesta história, ele cruza essa linha de um para o outro?

TODD PHILLIPS: Realmente não há um incidente ou um momento em que seja um ou outro. Arthur não é absolutamente um herói e este filme não é uma comédia, mas a linha vem dele através de seu próprio ponto de vista particular, que sabemos que não é confiável. Pode-se perguntar o mesmo de quando ele se torna o Coringa? Bem, ele não se torna Coringa quando está pintando o rosto. É um passo a passo. A razão pela qual o filme tem um ritmo tão medido e tão deliberado é intencional e acho que é isso que o torna eficaz.

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Coringa, do diretor Todd Phillips (Cães De Guerra), é uma história original sobre o icônico vilão. A versão de Phillips sobre Arthur Fleck, interpretado por Joaquin Phoenix, mostra um homem lutando para se integrar à sociedade despedaçada de Gotham.

Trabalhando como palhaço durante o dia, ele tenta a sorte como comediante de stand-up à noite, mas descobre que a piada é sempre ele mesmo. Preso em uma existência cíclica, oscilando entre a realidade e a loucura, Arthur toma uma decisão equivocada que causa uma reação em cadeia, com consequências cada vez mais graves e letais.

Coringa já está em cartaz nos cinemas. 

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