Entrevista exclusiva: Guel Arraes fala de Caramuru

08/11/2001 15h00

O diretor Guel Arraes, filho do ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes, viveu exilado com sua família na Argélia durante a ditadura militar. Em 1972, matriculou-se na Universidade de Paris, no curso de antropologia, e ingressou no Comitê do Filme Etnográfico, dirigido por Jean Rouch, mestre do cinema verdade. Lá, trabalhou como projecionista, arquivista e montador.

Guel entrou para a TV Globo em 1981 como co-diretor da novela Jogo da Vida, de Silvio de Abreu. Dirigiu as novelas Guerra dos Sexos (1983) e Vereda Tropical (1984) e, no ano seguinte, dirigiu a série Armação Ilimitada, grande sucesso da TV brasileira.

Como criador, autor, produtor e diretor, Guel Arraes sempre foi visto como um dos nomes mais ligados à renovação da dramaturgia e do humor na TV brasileira. Com o lançamento de O Auto da Compadecida, em setembro de 2000, passou a ser também o pioneiro na experiência de adaptar um produto da TV para o cinema. Agora, Guel repete a dose com Caramuru - A Invenção do Brasil, minissérie concebida para comemorar os 500 anos de descobrimento do país, e que chega às telas nesta sexta-feira (9) reeditada na forma de uma deliciosa comédia romântica. Guel falou com exclusividade ao Cineclick sobre todo o processo de criação de A Invenção do Brasil e de sua adaptação para as telas. Confira a entrevista.


Caramuru repete a trajetória de sucesso de O Auto da Compadecida, migrando da TV para o cinema. Pode-se dizer que seja uma tendência?

Eu acho que é uma possibilidade que foi pouco explorada. Como estou numa posição mais privilegiada para realizar essa passagem, no meu caso virou uma tendência. Mas não há como negar que haja uma forte inclinação em unir cinema e televisão. Por exemplo, a TV Globo, pela primeira vez em sua história, produziu dois filmes. E eu espero que produza mais e que outros diretores entrem nesse esquema. Há outras formas ainda não exploradas dessa associação render bons frutos. O caminho pode ser inverso, por exemplo, com diretores fazendo filmes que possam ser transformadas em pequenas séries, desde que eles prevejam no roteiro seqüências a mais. O Sérgio Resende foi o primeiro a fazer isso com Canudos, que fez essa migração no sentido oposto. Então acho que nós temos que ficar atentos a todas possibilidades de explorar essa parceria entre cinema e TV.


Como foi o processo de transformação de Caramuru numa comédia romântica? Por que você optou por esse formato na transposição para as telas?

Caramuru sempre foi, desde o início, bem diferente de O Auto da Compadecida. O Auto era praticamente um filme feito para TV. Bastou enxugar uma hora e meia e tínhamos o filme estava pronto para o cinema. Já o Caramuru filme é bem diferente da série A Invenção do Brasil. Por isso invertemos o título, porque nas telas o filme é centrado no personagem Caramuru, e a minissérie era um misto de ficção e documentário que visava contar a história do descobrimento do Brasil. Na série, a história de Caramuru e Paraguaçu tinha tanto destaque quanto a história do descobrimento. No filme é o romance entre os dois que norteia o enredo. A relação amorosa, as diferenças culturais são que prevalecem. Em suma: eu e o Jorge Furtado fizemos um roteiro para a minissérie e um roteiro para o filme.



Como se deu o processo de criação do tom de comédia adotado em Caramuru?

De alguma maneira, esse trabalho se liga a outros trabalhos que realizei. Então o que existe é uma espécie de continuidade. O que particulariza Caramuru é o fato de ser uma comédia passada numa época tão remota. E quando você faz uma comédia de época, tem de pesquisar os costumes da época e transportá-los para os dias de hoje. Porque Caramuru também é uma comédia atual. Nós fomos atrás de fatos e informações que permanecem vivas até os dias de hoje. O melhor exemplo disso é o triângulo amoroso retratado no filme. O Diogo é português e vê como pecado namorar as duas irmãs. Já Paraguaçu tem uma visão totalmente diferente e não entende o porquê dele estar fugindo da irmã dela.


Você já trabalha com a mesma equipe há muito tempo. Em que esse relacionamento contribui no resultado do trabalho?

Tem várias pessoas na equipe com as quais trabalho há 15 anos, desde os tempos de Armação Ilimitada. Por isso, considero esse relacionamento fundamental. É como se fosse uma trupe de teatro. Então o que ajuda muito é o entrosamento, porque nós já conhecemos o jeito de cada um trabalhar e isso agiliza muito o trabalho, ganha-se muito tempo, além da influir na qualidade.


Por que você optou pelo processo HDTV e quais foram as vantagens?

O HDTV me facilitou as coisas nesse processo de fazer o duplo uso desse trabalho. Não que filmar em HDTV seja mais econômico. Você pode poupar um pouco aqui ou ali mas o custo praticamente é o mesmo de se filmar em 35mm, como fiz em o Auto da Compadecida. O bom do HDTV é que esta técnica me deixou mais clara essa relação TV-cinema. E o melhor foi topar esse desafio, provar que a qualidade do HDTV é boa, que serve para o cinema. Foi uma necessidade que tornou-se uma experiência positiva.

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