Espero que ocorra outra Nouvelle Vague, afirma diretor de Godard e Truffaut

26/05/2010 09h24




















Se você acha que irá encontrar um bando de intelectuais herméticos exaltando os consolidadores da Nouvelle Vague como uma dupla genial desde a juventude, que tinha todo o senso de mudança claro na cabeça durante os anos 50, engana-se redondamente. Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague presta um enorme serviço ao cinema: ao mesmo tempo que esclarece o tamanho das transformações de 1958 até meados dos anos 60 , pinta Jean-Luc Godard e François Truffaut com simplicidade: tratavam-se de jovens com muita gana de fazer, transformar e se expressar.

Vamos colocar os pingos nos is. Por que Emmanuel Laurent resolveu fazer um filme justamente sobre um momento exaustivamente explorado, copiado, criticado e alvo de conversas tanto de quem tem o que dizer quanto de quem quer mostrar que tem o que dizer numa mesa de bar? Laurent responde ao Cineclick: “Muita gente já falou da Nouvelle Vague, então você nem sabe mesmo o que pensa do movimento, apenas do que as pessoas disseram sobre ele. Perdeu-se um pouco o senso do que o movimento significou no seu tempo, o que os dois jovens pensavam naquela época ou como os jornais falavam sobre eles. Meu objetivo era dar um olhar refrescante a algo desgastado, redescobrir histórias”, explicou o cineasta em uma longa entrevista na terça-feira (25/5) em São Paulo.

Para quem não está muito antenado sobre o que a Nouvelle Vague (“nova onda”), um parênteses. O movimento, cujos primeiros sinais se percebiam em um grupo radical de críticos da revista Cahiers du Cinéma, tomou forma a partir do primeiro filme de Claude Chabrol, Nas Garras do Vício, de 1958, e se consolidou com os também primeiros longas de Truffaut, Os Incompreendidos, e de Godard, Acossado. Jovens que se apropriaram de elementos do cinema americano, especificamente de Hitchcock e Fritz Lang, e se posicionaram fortemente contra ao caminho que a produção francesa tomara após a Segunda Guerra Mundial. Fizeram filmes baratos, que utilizavam locações reais e sem assumir como regra a linearidade da história.

Em vez de entrevistas com pessoas a mirarem o passado, Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague nos transporta para meados dos anos 50. Imagens de arquivo da vitória de Os Incompreendidos em Cannes e da reação do público logo após a uma sessão de Acossado (com direito a uma pessoa classificando o filme de “sujo”) fazem companhia a jornais também daquele momento.

“Material de arquivo é algo poderoso e apaixonante, que funciona como uma máquina do tempo, mas sub-explorado em documentários. Diz-se muita coisa sobre uma época sem precisar de alguém falando e descrevendo o passado”, avalia o diretor do documentário, Emmanuel Laurent. Exemplo disso é uma conversa de Godard com Fritz Lang, na qual fica nítido o tom exaltador que o francês destina ao cineasta austríaco. “Sem contar que seria muito estranho ter senhores com oitenta anos hoje falando sobre a juventude”, ironiza Laurent.

Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague explora especialmente como a amizade da dupla consolidou um jeito de se posicionar e fazer filme. Nos anos 70, os amigos que antes compartilhavam a mesma visão de mundo e a posição do cinema tomaram caminhos opostos (que já vinham se desenhando na década anterior). Truffaut realizou obras que ele mesmo costumava combater durante o período da Cahiers du Cinéma, enquanto Godard exacerbou sua arrogância e se tornou desesperadamente hermético. O racha ocorreu em 1973, numa carta mal-educada destinada a Jean-Pierre Léaud, que ficou no meio da briga.

A separação não ocorreu do dia para a noite. “Politicamente falando, Truffaut não fazia parte do jogo. Ele não quis se filiar [ao filósofo existencialista] Jean-Paul Sartre ou a nada, apesar de ser muito mais corajoso fisicamente e ter lutado pela liberdade de expressão”, avalia o diretor do documentário.

Para ele, um dependia do outro. “Godard pegou muita coisa do Truffaut e, quando este morreu, foi uma grande perda, mesmo que ele não tenha dito ou sequer tenha ido ao enterro [em 1984]. Acho que, mentalmente, ele precisava ter uma espécie de disputa com o amigo”.

Perdido no meio da disputa estava Jean-Pierre Léaud, que aos 14 anos protagonizou Os Incompreendidos e, a partir desse filme, eternizou o personagem de Antoine Duoinel, o alter-ego de Truffaut. “Era como um pai para ele”. Só que o ator trabalhou com ambos os diretores. “Já com Godard o jogo era diferente, porque ele não era um cara muito justo no quesito amizade, apesar de ser um grande artista. Hoje ele não tem amigos e vive sozinho. Com Truffaut, Léaud era o garoto que nunca crescia; Com Godard, como no filme Masculino/Feminino, ele virou adulto e se aproximou da política”, defende Laurent.

Veremos uma nova onda no futuro?

Quando a conversa se encaminha para as possibilidades de assistirmos a algo tão transformador e contra as regras então estabelecidas como a Nouvelle Vague, Emmanuel Laurent se esquiva. “Espero que sim”.

O cineasta avalia que a luta é constante, que o cinema precisa reagir a seu tempo, mas, pelo menos em relação à produção francesa, vê poucos diretores buscando e propondo caminhos. “Na França, hoje temos Luc Besson tentando copiar Hollywood, os dramas como Mademoiselle Chambon e pouca gente inventando. A exceção é Claire Denis [que trouxe à Mostra de SP 35 Doses de Rum em 2009].

Diretor de um filme que aproxima e distancia François Truffaut e Jean-Luc Godard, Laurent define assim sua relação com ambos. “Truffaut é o que mais o toca e o motivou a fazer cinema. Godard é alvo de admiração, especialmente pelo talento como montador”.

Porém, entre um e outro, Laurent aponta um terceiro: Jacques Demy. “Ele tem uma habilidade impressionante em permitir o sublime a coisas banais, com um uso impressionante da música”. Fica aí a dica para quem ainda não o conhece: assistir a Lola.


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