Faye Dunaway, 70 anos: curto estrelato de uma ótima atriz

Faye Dunaway faz aniversário e analisamos os principais filmes da carreira da atriz vencedora do Oscar

14/01/2011 09h33





















Em 1980, Faye Dunaway recebeu um convite para interpretar Joan Crawford, a mais enigmática atriz norte-americana, na cinebiografia Mamãezinha Querida. Por que não? Faye, nas últimas duas décadas, teve ótimos papéis, mas secundários a masculinos. Ela seria a única estrela de um filme justamente sobre uma estrela.

O plano deu errado, a cinebiografia teve um resultado artístico desastroso. Era o fim do estrelato de Dorothy Faye Dunaway, que começara treze anos antes. Entre 1981, data de lançamento de Mamãezinha Querida e 2011, Faye continuou trabalhando, mas nada se iguala ao período em que reinou em Hollywood ao lado de Jane Fonda e Mia Farrow.

Nesta sexta-feira (14/1), Faye completa 70 anos, 48 como atriz de teatro e cinema. Para marcar a data, o canal TCM faz uma retrospectiva, a partir das 22h, com três produções que contam com o talento da atriz: Rede de Intrigas (1976), às 22h; Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas (1967), às 0h10; O Campeão (1979), às 2h15. A sentida ausência é Chinatown (1974), que ficou de fora porque o Turner Classic Movies não tem os direitos de exibição do filme.

A vida útil de Faye Dunaway no topo do cinema americano pode ter sido curta comparada a outras estrelas, mas é cheia de personagens marcantes. Em comum, mulheres que têm de tomar decisões que mudam o curso de uma vida. Porém, Faye mostra todo seu talento quando mistura charme e arrogância – e, claro, quando está a serviço de diretores que conhecem a função.

Assista a uma cena marcante de Rede de Intrigas


Trabalho com Sidney Lumet

Em Rede de Intrigas, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar, Faye é mais um talento no meio de muitos outros (William Holden, Peter Finch e Robert Duvall), comandados pelo mestre dos filmes de tribunais e de seres humanos esmagados por corporações, Sidney Lumet. Faye é Diana Christensen, diretora de programação do canal UBC.

Diana dá a Faye o que ela sabe fazer de melhor na telona: seduzir e aniquilar. Por trás das finas sobrancelhas, o cabelo encaracolado, batom vermelho e um olhar paralisante está uma mulher vazia. Faye escolhe o que quer dar para o espectador: ora a mulher sem escrúpulos, ora a frágil que não sabe o que é prazer. Devemos sentir ódio ou pena dela?

Essa mesma pergunta cabe a Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas, obra-prima de Arthur Penn que jogou na cara da América a violência que ela insistia negar. Penn teve a coragem de colocar como protagonistas dois bandidos que provocam profunda empatia: Warren Beatty e Faye Dunaway.

Ela é inocente, agressiva, sedutora, indecisa, poderosa e uma série de outros adjetivos. Depois de permitir a construção dessa imagem, Penn a destrói com, como ilustra o título, uma rajada de balas, em câmera lenta, sangue voando, carro destruído. O charmoso casal está acabado.

Com esse filme, Faye dormiu uma aspirante a atriz importante e acordou uma estrela do nível de Jack Nicholson. Em dois anos, seu salário aumentou dez vezes. Não só o pagamento, mas seus tiques de estrela também aumentaram.

A inocência de Zefirelli

O terceiro filme a completar a retrospectiva do TCM é O Campeão, produção de 1979 estrelada por Jon Voight. Sinceramente, é uma pena que esta produção dirigida por Franco Zefirelli tenha entrado no lugar de Chinatown, de Polanski, tamanha a inocência do filme.

Zefirelli refilmou uma história de 1931 e simplesmente não conseguiu encontrar o tom de seu longa. Os dramas de Annie (Faye), mulher que se arrepende de uma decisão do passado, se parecem com o olhar que Hollywood dedicou às mulheres nos anos 30, mas figurinos, cenários e música estão claramente localizados nos anos 70.

Num filme que não encontra seu tom, Faye só reage pela via sentimentalista, infinitamente inferior às contradições por trás da máscara de segurança e arrogância de Evelyn Mulwray, sua personagem no filme de Polanski que rendeu outra indicação ao Oscar.



Problemas no set

Falando no cineasta polonês, o resultado de Chinatown [foto acima] é primoroso. Mas, como lembra Peter Biskind no livro Como a Geração Sexo-Drogas-e-Rock’n’-Roll Salvou Hollywood, o clima no set era outra coisa.

“Faye tinha dúvidas quanto à motivação da sua personagem e, aparentemente, não obteve muitas respostas de Polanski. Ele berrava: ‘Só diz as porras das falas. Sua motivação é o seu cachê’ [...] Segundo Polanski: ‘Havia um fio de cabelo que não ficava preso no penteado, vivia soltando e se metendo na trajetória da luz, e eu queria me livrar dele, queria dar um jeito de grudá-lo, mas ele não ficava no lugar’. Polanski deu a volta por trás dela e arrancou o fio de cabelo. Dunaway gritou: ‘Esse filho da puta arrancou meu cabelo!’ ou algo parecido, e saiu intempestivamente no set. Polanski fez o mesmo”.

Outra anedota: “Ela [Faye] ficava dizendo para Roman: ‘Roman, tenho que mijar. Tenho que mijar’. ‘Não, não. Fica aí. Johnny [Alonzo, fotógrafo], você está pronto?’ Eu disse: ‘Estou pronto’. ‘Fica aí. Nós vamos filmar, nós vamos filmar.’. Aí ele disse: ‘Abaixa o vidro da janela. Tenho que falar com você. Você está se virando demais para a direita. Não olhe pro Jack, só olhe pra frente’. E ela joga uma xícara cheia de algum líquido no rosto de Roman. Ele disse. ‘Sua puta, isso é mijo!’ E ela: ‘Isso mesmo, seu babaquinha’, e fechou o vidro da janela”.

Moral da história: certa vez, Angelina Jolie declarou como é muito melhor quando atores e diretores interagem dentro e fora de set. Pode ser, mas a carreira de Faye Dunaway mostra que, mesmo sendo uma estrela chata e arrogante, isso não influenciou necessariamente no resultado de seu trabalho.

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