Game of Thrones chega ao fim com falhas e foco na esperança

The Iron Throne, sexto episódio da oitava temporada, foi ao ar em 19 de maio de 2019

20/05/2019 13h40

Por Daniel Reininger

A série mais cultuada dos últimos anos chegou ao fim. The Iron Throne, o último episódio de Game of Thrones, deixou um gosto amargo na boca, mas foi mais interessante do que as últimas duas temporadas davam a entender que seria. Com um final muito mais positivo do que qualquer fã esperava, a série chega ao fim com pontas soltas, foco nos Starks e a ideia de que pouco realmente mudou após anos de guerra.

Essa análise contém spoilers de The Iron Throne, sexto episódio da oitava temporada:

A hype é um problema sério para qualquer filme ou série. Como terminar uma saga tão amada e bem produzida e ainda agradar a todos? É um trabalho difícil e desapontar muita gente é inevitável, por diversas razões.

Parece injusto reclamar de uma série que quebrou expectativas atrás de expectativas e, em seu último capítulo, abre com quase 10 minutos de silêncio enquanto mostra o horror causado no capítulo anterior. A fotografia é linda, capaz de invocar tristeza e impactar.

Pois é exatamente o potencial e qualidade da série que nos faz esperar ainda mais dela e nos decepcionar com falhas consideradas corriqueiras.

Vale lembrar que os showrunners David Benioff e D.B. Weiss, além de George R.R. Martin, autor dos livros, avisaram por muito tempo que o fim não agradaria a todos. Isso de fato aconteceu, mas o problema não foram as soluções para os deslizes apresentados e sim a execução descuidada de boas ideias.

Foi um final muito mais positivo do que a maioria poderia prever. Ok, Daenerys enlouqueceu e queimou a capital, mas, fora isso, tudo pareceu mais fácil de se resolver do que deveria. Por muito menos os Sete Reinos entraram em guerra no passado e, agora, todo mundo parece ter tido uma revelação e finalmente entendido que sentar e conversar é a melhor maneira de resolver disputas.

game of thrones season 8 episode 6

De certa maneira, Daenerys conseguiu quebrar a roda (sua analogia para mudar o sistema) ao causar tanto horror aos lordes de Westeros que viram que o único jeito é evitar a guerra e negociar. Provavelmente essa era a ideia de Martin desde o começo, mas a execução na TV pareceu apressada (novamente). Faltaram episódios nas últimas duas temporadas para justificar a maioria dos acontecimentos finais de Game of Thrones e essa é a minha maior frustração com esse encerramento.

Seguindo a tradição da série, o penúltimo episódio foi grandioso e o último procura amarrar as pontas soltas, o que inevitavelmente deixa o fim anticlimático. O capítulo teve novos saltos temporais esquisitos, não conseguiu passar a sensação de urgência que precisava para justificar certas decisões e eventos aconteceram simplesmente para levar os personagens do ponto A ao ponto B, sem realmente desenvolver o caminho. Exemplo disso é Tyrion ter a liberdade de falar o que queria na reunião dos lordes e, sem muita resistência, eleger Bran Stark como o novo Rei dos Seis Reinos (após Sansa declarar o norte independente e absolutamente ninguém falar nada contra).

Entretanto, Sam Tarly sugerir uma democracia e todos os lordes rirem dele foi um momento bastante condizente com a série. No fim, apesar da execução ser apressada, a decisão de colocar Bran no poder faz muito sentido. Ele é sábio e a trama já deixou claro mais de uma vez que conhecer o passado e ouvir os conselheiros é o melhor caminho para um governante. O melhor do jovem Stark como Rei, é que Jon Snow não sentou no trono de ferro. Só é triste ver que toda a reviravolta dele ser Targaryen, no fim, não serviu pra muita coisa.

Sansa se tornar Rainha do Norte era algo óbvio e fica claro que ela tem experiência suficiente para fazer o reino prosperar. Quanto tempo a paz vai durar? Não sabemos, mas é um final apropriado para a personagem que sofreu tanto e para um país que lutou demais pelo que achava certo. Já Arya sumiu neste capítulo, mas terminou à frente de um barco rumo ao desconhecido. Será que veremos um spin-off no futuro com foco nas suas descobertas? É algo que eu gostaria.

Talvez o pior momento do capítulo foi ver Daenerys justificar seu ato de queimar Porto Real. Sua explicação não faz sentido. Minutos antes, diante de suas tropas, ela pareceu, literalmente, uma vilã de um império maligno prometendo uma guerra sem fim aos seus súditos. Sozinha, com Jon, pareceu uma garotinha assustada tomando decisões por impulso.

game of thrones season 8 episode 6

Até aí tudo bem, mas a série apostou alto na ideia da loucura, que claramente não foi o que fez ela matar milhares de inocentes. Então foi só uma análise errada sobre a situação? Ou ela mentiu? Nunca saberemos, porque os roteiristas decidiram nos deixar de fora da mente da personagem. Ok, Emilia Clarke não é a melhor atriz do mundo, porém, parece mais erro de roteiro para justificar Jon matar Dany e criar mais uma reviravolta.

Caso não esteja claro: Adoro o fato de Dany fechar o ciclo dos Targaryen: enlouquecer e queimar seus inimigos a ponto de precisar ser parada por alguém de confiança que percebeu que sua loucura não tem volta. O problema é que a forma como tudo isso foi construído foi descuidado. Faltou entender seus reais objetivos, seu estado mental e ter a chance de entender suas motivações (que poderiam ser melhores). Da forma como foi feita, sua queda para a vilania pareceu arbitrária.

A comparação com a trajetória de Walter White em Breaking Bad é inevitável, afinal o professor de química vira um chefão do crime aos poucos e pudemos acompanhar sua transformação de forma lenta, com decisões coerentes com seu estado mental, enquanto também vimos outros personagens reagirem sobre seu comportamento. O distanciamento em relação à Daenerys nessa última temporada nos privou do contexto necessário, a ponto de transformá-la em uma personagem superficial.

E porque diabos Drogon não fez nada contra Jon? Só por ele ser um Targaryen? Aí já é demais. Pra mim, o dragão deveria, ao menos, ter atacado o assassino de sua mãe (ou reconhecer Jon como mais forte e passar a segui-lo). De novo, essa cena foi só um jeito de destruir o Trono de Ferro e, assim, simbolizar que as coisas serão (um pouco) diferentes a partir de agora. A cena causou arrepios, mas pareceu arbitrária.

Enquanto outros episódios nos deixaram sem fôlego ou espantados, o final apenas cumpriu obrigações de finalizar histórias. Foi um desfecho digno, mas com pouca emoção e reviravoltas já previstas. A maior surpresa pode ter sido Bran no trono, mas muitos esperavam que a jornada do rapaz tivesse algum significado maior e, ao menos, teve. Logo, nem foi tão surpreendente assim (teria sido se o tio de Sansa ou Verme Cinzento terminassem no poder).

Certamente não foi um final terrível, como a hype negativa quer fazer muita gente acreditar. Obviamente não cumpriu as expectativas por conta da pressa para encerrar a série, mas essa falha não é de hoje. Conflitos se resolveram (rápido demais), personagens amados sobreviveram (muitos de forma forçada), vilões foram vencidos (sem entendermos suas motivações), heróis foram exilados (quando deveriam ter sido mortos), e a esperança voltou a Westeros, mas sem forçar a barra e fazer do final algo realmente feliz.

É justo dizer que Game of Thrones é uma das melhores séries de fantasia já criadas e, melhor, foi capaz de manter até o fim sua ideia central de que o poder corrompe e o sistema sempre vence. Agora é aguardar os outros livros para tentar entender algumas questões não abordadas na TV.

Veja o trailer do episódio, que está disponível, junto com todas as temporadas da série, na HBO Go:

Deixe seu comentário
comments powered by Disqus