História do cinema nacional pelas décadas

Décadas que construíram uma das expressões artísticas que melhor - e cada vez mais- retratam a cultura brasileira.

22/06/2020 12h05

Ir ao cinema é uma das principais atividades culturais não só no Brasil, mas no mundo. Alguém conhece uma pessoa sequer que odeie assistir a um filme nas telonas? No entanto, apesar dessa paixão, o que poucas pessoas sabem é a (grandiosa) história da sétima arte, sobretudo a do cinema nacional.

Tudo começou em dezembro de 1895, quando, em Paris, foi exibido o filme que deu início à história do cinema mundial: "Saída dos Trabalhadores da Fábrica Lumière". Por incrível que pareça, o cinema brasileiro não tardou muito a despertar. Bastaram-se apenas sete meses. Em julho de 1896, ocorreu a primeira exibição de um filme no Rio de Janeiro.

Essa primeira exibição, claro, ficou para história, mas o verdadeiro marco que impulsionou o cenário brasileiro foi a abertura da primeira sala de cinema do país, também no Rio de Janeiro, por incentivo dos irmãos italianos Paschoal Segreto e Affonso Segreto. Talvez você nunca nem tenha ouvido falar neles, mas, foi essa dupla, que em 1898, realizou filmagens da Baía de Guanabara. Bastou. Eles se consagraram os pioneiros do cinema nacional.

Já em São Paulo, a primeira exibição de uma filmagem aconteceu apenas no ano seguinte, em 1899, quando Paschoal Segreto realizou uma gravação para celebrar a unificação da Itália. E foi assim que o cinema paulista começava a engatinhar. Os passos, de fato, só chegaram no início do Século XX com a primeira sala de cinema sendo aberta na capital, o Bijol Theatre.

Não há dúvidas: o movimento já estava dando as caras e tomando forma, porém tinha um pequeno detalhe atrasando o desenvolvimento da sétima arte no país. Ela tinha nome e sobrenome. Era a tardia falta de eletricidade, que somente foi resolvida em 1907, com a implantação da Usina Ribeirão de Lages, no Rio de Janeiro.

Resolvido o problema, o número de salas cresceu consideravelmente: a capital carioca chegou a ter, naquele mesmo ano, cerca de 20 salas de exibição. Isso mesmo. Em pleno 1907 o cinema já fazia sucesso por aqui.

Esse foi o início da construção de uma das expressões artísticas que melhor - e cada vez mais- retratam a cultura brasileira.

Nesse artigo você vai conferir:

- Século XX e a expansão do cinema nacional
- Cinema nacional nas décadas de 1960 e 1970
- Cinema nacional nas décadas de 1980 e 1990
- Cinema nacional nas décadas de 2000 e 2010

Século XX e a expansão do cinema nacional


Quando tudo era mato, as películas brasileiras eram no estilo de documentário. Foi então que em 1908 o cineasta luso-brasileiro, António Leal, apresentou "Os Estranguladores", considerado o primeiro filme de ficção brasileiro. Mas engana-se quem acredita que naquela época as produções se assemelhavam em algo com as de hoje. Nem a duração dá para comparar: os primeiros filmes tinham 40 minutos, no máximo.

Bom, era assim pelo menos até 1914, quando, depois de muita experimentação, o português Francisco Santos exibiu o primeiro longa-metragem produzido no país. "O Crime Dos Banhados", este foi o nome escolhido para o primeiro filme brasileiro com mais de duas horas de duração. Evolução e tanto, não?

O ano de 1914 também foi muito importante mundialmente. Foi nele que se iniciou a Primeira Guerra Mundial, que se estenderia até 1918. O parque industrial europeu foi quase reduzido pela metade e a Europa deixava de ser o grande símbolo da prosperidade no mundo. Foi a partir de então que os Estados Unidos alcançaram a condição de grande potência.

Com essas mudanças, o cinema nacional entrou em crise, sendo dominado por produções estadunidenses, devido ao surgimento da gloriosa Hollywood. Com a prosperidade do ocidente, na década de 1920, o audiovisual brasileiro ganhou visibilidade com as publicações das revistas de cinema "Para Todos", "Selecta" e a "Cinearte". O manifesto desses impressos eram voltados àqueles que "apreciam verdadeiramente o espetáculo cinematográfico" e "se interessam pelas coisas do cinema", com o objetivo de "formar mentalidades cinematográficas".

Produções se espalharam por vários cantos do país, dando origem aos ciclos regionais. Na década de 1930, foi criado o primeiro grande estúdio no Brasil: a "Cinédia". Foi a primeira experiência de cinema industrial bem sucedida da história do cinema brasileiro.

Fruto das campanhas de defesa em prol da existência de uma cinematografia nacional, empreendidas na década de 20 pelas revistas "Cinearte", "Selecta" e "Para Todos", a empresa tinha como objetivo a formação técnica e estética da mão de obra da indústria, assim como a continuidade da produção e a sua inserção no mercado exibidor. Procurou modernizar os processos, técnicas, equipamentos e estratégias de comercialização, tendo como referência o modelo de Hollywood.

As produções mais importantes dessa época foram: "Limite" (1931), de Mario Peixoto; "A Voz Do Carnaval" (1933), de Adhemar Gonzaga e Humberto Mauro; e "Ganga Bruta" (1933), de Humberto Mauro.

Duas companhias pioneiras no cinema nacional: a Atlântida e Vera Cruz

 

Assim como aconteceu na Primeira Guerra Mundial, o mundo sofreu consequências - válido dizer que ainda maiores - com a Segunda Guerra Mundial. Os dois lados do confronto exploraram o potencial mobilizador das telas de cinema, que uniu-se aos aparelhos de Estado, e serviu como discurso patriótico para a nação comprar a ideia da batalha.

Desde a ascensão dos regimes fascistas ao poder até o último disparo, centenas de filmes foram produzidos tanto pelos países Aliados, quanto pelas potências do Eixo. De todos os centros de produção cinematográfica, Hollywood foi o mais emblemático. O cinema nacional surfou nessa onda.

Durante o período, o destaque fica para a criação da companhia Atlântida Cinematográfica. Fundada em 18 de setembro de 1941, no Rio de Janeiro, por Moacyr Fenelon e José Carlos Burle, a Atlântida representou a primeira experiência de longa duração na produção cinematográfica brasileira voltada para o mercado, caracterizada principalmente pelas chanchadas, filmes de baixo orçamento, em que predominavam um humor ingênuo, burlesco, de caráter popular, com forte sátira ao produto estrangeiro.

Durante os primeiros dois anos de existência, a Atlântida produziu sobretudo cinejornais, como o Atualidades Atlântida. O primeiro longa-metragem foi um documentário-reportagem sobre o IV Congresso Eucarístico Nacional, realizado em São Paulo em 1942. Apresentado como complemento, o média-metragem "Astros em Desfile", uma espécie de parada musical com artistas famosos da época, antecipou o caminho que a Atlântida percorreria mais tarde

O primeiro grande sucesso veio em 1943: "Moleque Tião", dirigido por José Carlos Burle, com Grande Otelo no papel principal e inspirado na vida do próprio ator. O filme abriu caminho para um cinema voltado às questões sociais. Entre 1943 a 1947, a Atlântida se consolidou como a maior produtora brasileira: nesse período foram produzidos 12 filmes, como "Gente Honesta", de Moacir Fenelon, com Oscarito, e "Tristezas Não Pagam Dívidas", de José Carlos Burle: foi neste filme que Oscarito e Grande Otelo atuaram juntos pela primeira vez.

Em 1953, o jovem Carlos Manga dirigiu seu primeiro filme, "A Dupla Do Barulho", seguido por "Nem Sansão Nem Dalila" e "Matar Ou Correr", um faroeste tropical apoiado, mais uma vez, no talento cômico de Oscarito e Grande Otelo. Mas, de todos os filmes dirigidos por Carlos Manga na Atlântida, "O Homem Do Sputnik", de 1959, talvez seja o que melhor sintetize o espírito irreverente da chanchada.

A Atlântida produziu um total de 66 filmes até 1962, quando interrompeu suas atividades. Entre outras estrelas, a companhia congregou Anselmo Duarte, Eliana, Cyll Farney e seu irmão, o cantor Dick Farney, os comediantes Oscarito e Grande Otelo e os diretores Watson Macedo o Carlos Manga.

Também merecem citação os filmes "Não Adianta Chorar", de Watson Macedo, "Segura Esta Mulher", de José Carlos Burle, e "Este Mundo É Um Pandeiro", também de Macedo, que estabeleceram o padrão das chanchadas: a paródia à cultura estrangeira, em especial ao cinema feito em Hollywood, aliada à preocupação em expor as mazelas da vida pública e social do país. A chanchada se tornou a marca registrada da empresa, atravessando toda a década de 50.

A identificação com a estética e a narrativa do cinema americano marcava, até certo ponto, uma relação de dependência do cinema brasileiro em relação à indústria de Hollywood, o que levou os críticos da época a rejeitarem a chanchada. Mas, mesmo imitando o modelo hollywoodiano, as chanchadas se caracterizavam por uma inegável brasilidade, ao colocar em relevo problemas do país e elementos do circo, do carnaval, do rádio e do teatro.

Em 1949, outro marco para essa história: a criação do estúdio Vera Cruz, baseado nos moldes do cinema norte-americano, em que os produtores buscavam realizar produções mais sofisticadas. Mazzaropi foi o artista de maior sucesso do estúdio. A Vera Cruz representou um marco na industrialização da cinematografia nacional. Destaque para o filme "O Cangaceiro" (1953), o primeiro brasileiro a ganhar o Festival de Cannes.

A Vera Cruz não teve vida longa, entretanto: faliu em 1954, mesmo ano em que foi produzido o primeiro filme nacional a cores: "Destino Em Apuros", de Ernesto Remani. Válido dizer que em 1950 também foi criada a primeira emissora de televisão do Brasil, a "Tevê Tupi", e muitos atores da Vera Cruz passaram a atuar na Tupi.

Cinema nacional nas décadas de 1960 e 1970


Lembra das aulas de História sobre a Guerra Fria? O mundo ficou dividido entre os ideais do capitalismo e do socialismo, causando tensão principalmente entre os Estados Unidos e a União Soviética. Na década de 1950, Juscelino Kubitscheck era o presidente do Brasil e tinha uma postura que favorecia os norte-americanos e a industrialização massiva do país. Parte da população, por outro lado, discordava dessa postura.

Com a sociedade dividida, em 1960, Jânio Quadros, que sucedeu JK na presidência do Brasil, deu ênfase a dois problemas a serem resolvidos, caso fosse eleito, em sua campanha: a ineficiência governamental e a crise financeira que o país vivia.

Ele era como a "esperança" do "povo abandonado" e tinha como símbolo uma vassoura. De fato, ele prometia "varrer a corrupção do país". Com um país polarizado ideologicamente e enfrentando crises governamentais e financeiras, surgem alguns dos movimentos mais emblemáticos do cinema nacional, que se estenderiam pelos anos mais duros da Ditadura Militar: o Cinema Novo, Cinema Marginal e as Pornochancadas.

Cinema Novo, Cinema Marginal e Pornochanchadas


O Cinema Novo focava em temáticas de cunho social e político, com fortes características revolucionárias. Na década de 1950, já foram produzidos filmes considerados precursores desse estilo, como "Rio 40 Graus" (1955), de Nelson Pereira dos Santos. No entanto, os mais emblemáticos são as produções do baiano Glauber Rocha: "Deus E O Diabo Na Terra Do Sol" (1964) e O Dragão Da Maldade Contra O Santo Guerreiro" (1968).

De 1968 a 1970, especificamente, surge o Cinema Marginal, ou "Údigrudi". Essas produções estavam bastante alinhadas ao movimento de contracultura e também ao tropicalismo. No exterior, a contracultura nasceu do desejo de uma felicidade individual, simples, distante da sociedade de consumo e do moralismo.

No Brasil, havia a cultura engajada dos Centros Populares de Cultura, que continha uma intensa militância política na qual uma parte do movimento da bossa nova evoluiu para as canções de protesto. Por outro lado, havia a cultura de consumo, representada pela Jovem Guarda e baseada na cultura do rock.

No meio do caminho, entre essas duas correntes, surgiu o Tropicalismo, movimento liderado por Caetano Veloso, Gilberto Gil e inspirado no antropofagismo das vanguardas modernistas brasileiras dos anos 20. O Údigrudi bebia nessa fonte e sofreu grande censura por parte do regime militar, por seu caráter experimental e radical. Um filme de grande destaque foi "O Bandido Da Luz Vermelha" (1968), dirigido por Rogério Sganzerla, e as maiores produtoras foram a "Boca do Lixo", em São Paulo e a "Belair Filmes", no Rio de Janeiro.

Por outro lado, em 1969, é criada a Embrafilme (Empresa Brasileira de Filmes), apoiada pelo governo ditatorial e com a finalidade de usar o cinema como uma importante ferramenta de controle estatal. Nesse contexto, o Estado passa a financiar as principais produções cinematográficas.

Na sequência dos anos 1970, em São Paulo, as produções de baixo custo do movimento "Boca do Lixo" começam a produzir as pornochanchadas. Talvez o gênero mais emblemático da história do nosso cinema. Baseada nas comédias italianas e com forte teor erótico, à exemplo de "A Viúva Virgem" (1972), do cineasta Pedro Carlos Rovai, as películas dessa corrente duraram até o fim da década de 1980.

Por fim, ainda que a produção cinematográfica tenha sofrido oscilações do meio para o encerramento da década de 1970, filmes como "Dona Flor E Seus Dois Maridos" (1976), do cineasta Bruno Barreto, e filmes de comédias, com a turma dos Trapalhões, por exemplo, faziam bastante sucesso.

Cinema nacional nas décadas de 1980 e 1990


O começo da década de 1980, para o cinema nacional, é desastrosa. O primeiro motivo é a chegada do videocassete e a proliferação das locadoras. Depois vem o fim da ditadura e a crise econômica. Ocorreu um expressivo aumento das dívidas interna e externa e o processo inflacionário atingiu altos patamares. Assim, os produtores não tinham dinheiro para produzir seus filmes, e os espectadores, da mesma forma, já não tinham condições para ir aos cinemas.

Em 1975, funcionavam 3.276 salas de cinema ao redor do país, mas esse número foi diminuindo ao longo dos anos, até chegar a apenas 1.033 em 1995.

Mas, ainda assim, o cinema nacional não enfraqueceu totalmente. Algumas produções merecem destaque, tais quais: "O Homem Que Virou Suco" (1980), de João Batista de Andrade; "Jango" (1984), de Sílvio Tendler; "Cabra Marcado Para Morrer" (1984), de Eduardo Coutinho; "Pixote - A Lei Do Mais Fraco" (1980), de Hector Babenco; e Ilha Das Flores" (1989), de Jorge Furtado, talvez o que mais tenha marcado época e que, aliás, continua muito atual.

Isso porque Ilha das Flores expressa de forma ácida – e com um ligeiro toque de humor – as muitas contradições das sociedades de consumo. E, assim, se mantém atual, 30 anos depois. O ser humano, integra e sustenta uma complexa cadeia que envolve lucro, pobreza, consumo, descarte e lixo.

"O tomate, plantado pelo senhor Suzuki, trocado por dinheiro com o supermercado, trocado pelo dinheiro que dona Anete trocou por perfumes extraídos das flores, recusado para o molho do porco, jogado no lixo e recusado pelos porcos como alimento está agora disponível para os seres humanos da Ilha das Flores", diz a narração em off, ao desenhar a trajetória de um tomate, da colheita ao descarte, no aterro que dá nome ao filme.

Um dos cem melhores filmes brasileiros de todos os tempos, segundo lista feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), o documentário inovou em termos de linguagem, ao antecipar, segundo seu diretor, questões relacionadas à velocidade e ao hipertexto.

E por falar em descarte, em 1990, com a chegada de Fernando Collor no poder, a situação ficou dramática para o cinema nacional. Além das privatizações, o novo presidente extingue o Ministério da Cultura, e acaba com a Embrafilme, o Concine e a Fundação do Cinema Brasileiro.

Mas lembrando: cinema é arte - e em momentos difíceis ela pode ainda mais nos inspirar e nos dar forças para lutar.

Cinema de Retomada


É na segunda metade da década de 1990 que o cinema retoma sua musculatura. Esse período ficou conhecido como Cinema de Retomada.

Apesar de ter promulgado a Lei Rouanet, o principal mecanismo de incentivo à cultura até hoje, foi somente após a renúncia de Collor que o cinema nacional voltou a respirar - ainda que muito timidamente.

O falecido presidente Itamar Franco, sucessor de Collor, promulgou a Lei do Audiovisual - uma lei de incentivo fiscal mais específica para o setor, e, até hoje, a mais utilizada. Seu sucessor, o presidente Fernando Henrique Cardoso deu continuidade às suas políticas estatais de fomento à cultura.

O filme tido como marco inicial do movimento foi "Carlota Joaquina - A Princesa Do Brazil" (1995), de Carla Camurati, primeiro filme nacional da década a levar mais de 1 milhão de pessoas ao cinema. Em 1995, já foram lançados 14 longas, número que foi aumentando gradativamente. Durante o período de oito anos, chegaram aos cinemas mais de 180 longas, com 21 deles alcançando mais de 500 mil espectadores. O público que foi aos cinemas assistir a um longa brasileiro subiu de cerca de 800 mil, em 1996, para mais de 22 milhões, em 2003.

O gradativo aumento dos festivais de cinema foi outro elemento importante para essa divulgação do cinema nacional, bem como o acesso facilitado aos equipamentos cinematográficos, além, claro, de uma produção maior de filmes mais voltados para as massas. Houve também o deslocamento do eixo Rio-São Paulo de produção para outras partes do país e a revisitação do sertão e da favela, presentes em movimentos artísticos do passado.

Nessa década, merecem destaques as produções: "O Quatrilho" (1995), de Fábio Barreto; "O Que É Isso, Companheiro?" (1997), de Bruno Barreto; e, principalmente, "Central Do Brasil" (1998), dirigido por Walter Salles. São filmes que definitivamente marcam o Cinema de Retomada, principalmente por terem atravessado fronteiras, ganhado bastante projeção internacional e pelo refino técnico que o cinema nacional começava a receber.

Cinema nacional nas décadas de 2000 e 2010


No começo do novo milênio, surgiu o conceito de Cinema Popular Brasileiro. É um movimento orientado por cifras, mas, apesar disso, não significa que seja algo ruim ou sem qualidade.

Mesmo que mais pessoas possam "ir ao cinema", os números das bilheterias deixam de fora toda uma parcela do público que tem acesso aos filmes brasileiros fora do circuito tradicional, através de mostras e festivais - muitas vezes criadas justamente para atender àqueles que não moram em grandes centros e, portanto, não têm acesso a muitas salas de cinema. Esse aspecto, por sua vez, acaba forçando essas salas a transmitirem apenas os filmes que vão trazer maior retorno financeiro, a fim de que a indústria possa recuperar os investimentos no filme.

Porém, popularidade não é determinada apenas pelo número de pessoas que assistiram ao filme, mas também pelo quanto essa pessoa gostou e se envolveu com o filme. Feita essa reflexão, analisemos o movimento.

A primeira característica das maiores bilheterias dos anos 2000 é daqueles filmes que buscam representar um determinado aspecto da nossa sociedade.

Destaque para: "Cidade De Deus" (2002), de Fernando Meirelles; "Carandiru" (2003), de Héctor Babenco; "Cazuza - O Tempo Não Para" (2004), de Sandra Werneck e Walter Carvalho; "Olga" (2004), de Jayme Monjardim; "Dois Filhos de Francisco" (2005), de Breno Silvera; "Tropa De Elite" (2007), de José Padilha; "Enquanto A Noite Não Chega" (2009), de Beto Souza e Renato Falcão; "Tropa De Elite 2" (2010), também de José Padilha; e "Que Horas Ela Volta?" (2015), de Anna Muylaert.

É interessante notar como todos esses filmes trazem diversos elementos da realidade, como cenas extraídas de documentários e o famoso letreiro "inspirado em fatos reais". Em Carandiru, por exemplo, informações sobre o que ocorreu após o término do filme são mostradas junto das imagens da demolição do presídio, aproximando ficção de realidade.

Outro fator de sucesso, dado no exemplo de "Dois Filhos de Francisco", foi ter conseguido fazer um filme que tivesse um apelo junto às camadas mais populares que os levasse de volta ao cinema, ao mesmo tempo em que mantivesse um padrão de qualidade que não afastasse a classe média, majoritária nas salas de cinema.

Destaque também para, em 2001, a criação da Ancine (Agência Nacional do Cinema), órgão oficial do governo federal, constituída como agência reguladora, cujo objetivo é fomentar, regular e fiscalizar a indústria cinematográfica brasileira.


Deixe seu comentário
comments powered by Disqus