Indústria pornô aposta em filmes feitos por e para mulheres

O Cineclick conversou com atrizes, executivos e diretoras do pornô nacional

12/07/2019 16h57 (Atualizado em 15/07/2019 17h45)

Por Daniel Reininger

O mercado pornográfico brasileiro está cada vez maior e diversificado. Ao menos 22 milhões de pessoas assumem ser consumidores por aqui, segundo uma pesquisa do canal Sexy Hot. Para entender melhor esse mundo, falamos com atrizes e profissionais do setor sobre esse mercado que movimenta milhões e cada vez mais ganha qualidade e diversidade. E mais importante, aos poucos tem aderido à pornografia com olhar feminino, mais realista e bem produzido do que as produções habituais.

Hoje o público ainda é composto por homens, mas as mulheres estão ganhando espaço, "76% dos consumidores ainda é do sexo masculino. Esse público também é jovem, 58% tem menos de 35 anos, é de classe média (49% da classe B) e com alta qualificação escolar", explica o diretor do Grupo Playboy do Brasil, Mauricio Paletta.

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A diferença entre homens e mulheres é resultado de um histórico machista. "A grande maioria ainda é homem hétero, com preferência a filmes onde a mulher se encontra subjugada e tenha um padrão físico específico, por isso as mulheres dificilmente se identificam com a pornografia mainstream", explica a atriz e diretora de filmes feministas Mayanna Rodrigues.

Pornô para mulheres é o futuro

Nesse estilo, a mulher é protagonista, existe uma história e equipe por trás das câmeras também é formada por mulheres. "Pornô feminista é o pornô para todos. É o pornô verdadeiro, que a gente se identifica", explica a influencer e atriz Vitória Schwarzelühr, conhecida como Dreadhot. "Quanto mais realidade conseguimos trazer para o momento, melhor, e as pessoas vão se identificar de forma mais fácil", completa.

Sonhos, da Sexy Hot

A mudança não é só de perspectiva. "Foco é na qualidade, na fotografia, existe uma história e um roteiro. Se cria uma identificação com os personagens. Cada dia mais esse tipo de produção vêm ganhando espaço, inclusive estou começando a dirigir. Para mim, esse é o futuro da indústria", explica Dreadhot.

A diferença entre e o chamado pornô mainstream e o feminista é a qualidade. "Mulher gosta de detalhes, unha bonita, realismo é importante", diz a atriz e camgirl Lady Conha.

"É um pornô com realidade. Corpos reais. Toques reais. Contexto. O conjunto todo importa", completa Mayanna.

Um mundo de opções

O problema ainda é a forma como as grandes distribuidoras lidam com as produções. "Hoje o mercado é monopolizado por empresas interessadas em dinheiro e não tão preocupadas com a qualidade. Tem melhorado, mas temos um grande caminho pela frente. O pornô tem grande potencial para crescer em todos os sentidos", explica Dreadhot.

As produtoras já enxergam o pornô para mulheres como um novo nicho. "Acredito que a mudança real dentro do mercado leva tempo, mas as grandes produtoras estão começando a perceber que a mulher é uma consumidora em potencial", afirma Mayanna. "No Brasil as produtoras têm mudado aos poucos, mas ainda existem algumas que resistem", completa Dreadhot.

O Encontro, Sexy Hot

Ao menos, hoje já existem opções. "Hoje você consegue achar um pornô com o qual se identifica. E não me refiro a pornografia fetichista, me refiro a você querer assistir alguém transando de uma forma que você acredite. O pornô amador é grande contribuidor para isso", explica Mayanna.

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Em busca de trazer novos públicos para a indústria de filmes adultos, no ano passado, o Sexy Hot Produções (selo criado em 2017 para produzir filmes exclusivos) exibiu no seu canal 23 dos 36 filmes que possuem com olhar feminino como argumento para a história. "Entre eles, estão O Encontro, Sonhos, Aniversário de Casamento e Divórcio", explica Paletta.

Essa mudança se reflete também no Oscar do Pornô, que acontece no dia 06 de agosto, em São Paulo. "Queremos nos aproximar cada vez mais do discurso feminino, então, pela primeira vez, o Prêmio Sexy Hot terá uma mulher no comando da apresentação. A escritora, roteirista, comediante e atriz Natália Klein", afirma Paletta.

Internet mudou as coisas

Hoje a indústria pornô procura novos caminhos após a internet mudar a dinâmica e a facilidade de acesso. "Estamos tentando lidar com o pornô gratuito e amador e com a superoferta da Internet. O mercado feminino é um meio não muito explorado porque a mulher nunca foi vista como a consumidora e sim como o objeto de prazer. É muito bom saber que ainda se pode fazer pornografia saudável sem precisar apelar cada vez para o mais hard", conta Mayanna.

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"Hoje vale mais fazer cam do que ser atriz pornô e muitas meninas fazem programa para fechar a renda. Falta também a valorização e temos lutado para isso, na verdade, todo tipo de emprego precisa buscar essa valorização", conta Dreadhot.

Por isso, trabalhar como modelo pelas redes sociais se tornou uma ótima opção para amadoras e atrizes. "Na internet fazemos conteúdo sob medida, show por Skype e temos contato direto com o cliente", conta a camgirl e modelo Jéssica YoYô.

Camgirls

Existem muitas pessoas interessadas em pagar por conteúdos exclusivos. "Com nosso canal próprio é possível produzir conteúdo de qualidade e é mais vantajoso muitas vezes", completa MariZombie, tatuadora, camgirl e atriz.

Dificuldades da área

Mas nem tudo são flores. Apesar da expansão do mercado, reconhecimento artístico e comercial, ainda existe muito preconceito. "Não importa se faz ou fez pornô, as pessoas sempre vão te julgar" explica Dreadhot. "Como a sociedade interpreta é a maior dificuldade", afirma MariZombie.

E não só as atrizes enfrentam problemas. "Existe muita hipocrisia. Temos pesquisas que mostram como o desejo pelo mercado adulto é grande e querido. Porém, quando falamos abertamente sobre o tema, há sempre uma proibição, uma limitação de divulgação, de comunicação etc., há sempre um falso moralismo, inclusive de muitos consumidores que não assumem que consomem e gostam", explica Paletta.

Além disso, quem trabalha com isso não tem garantia de estabilidade financeira. "É difícil conseguir apoio e reconhecimento. E claro, verba. É um mercado ingrato numa maneira geral porque tem muito tabu em volta e isso torna as condições de trabalho longes do ideal, inclusive na questão dos cachês", explica Mayanna.

Psicológico

A pressão na área é grande por diversos motivos e isso pode gerar problemas para os profissionais. "Na pornografia alternativa nós tentamos sempre entender o que atores e atrizes querem para se sentirem confortáveis e livres. Respeitando principalmente os limites de cada um. Quem dita o ritmo, o quê, como é quando são eles. Sempre há diálogo", explica Mayanna.

Trabalhar com essa área, assim como qualquer outra, fica mais fácil com paixão. "Não passei no vestibular e minha autoestima ficou muito baixa, precisava arrumar emprego. Foi recrutada pela Suicide Girls (site focado em modelos de visual alternativo), depois virei Camgirl. Me apaixonei pela área, gosto das pessoas, conheci fetiches. Descobri o que gosto e isso me faz bem", conta YoYô.

Ioio Camgirl

No caso de MariZombie, trabalhar na área ajudou a lidar com diversas questões pessoais. "Como camgirl, perdi a timidez, me ajudou no controle de ansiedade e me deu confiança".

É preciso entender que ninguém fica feliz consigo só por meio da percepção dos outros. "A forma como as pessoas são vistas por outras não pode ser a principal forma de aumentar a autoestima, afinal, a própria palavra implica na percepção de cada um sobre si mesmo. Isso pode funcionar de maneira pontual ou ajudar, mas é importante cada um valorizar a si independente da opinião do outro", afirma a psicóloga Luisa Franco.

"Todo mundo deveria fazer terapia e acho que todas as produtoras deveriam oferecer. E preciso ter ética, sem isso é possível traumatizar pessoas", completa Dreadhot.

Arte e educação

Sexo também é arte. "Vejo o mercado hoje como um meio pra desenvolver minhas visões sexuais e artísticas, mas não como fonte de renda. Estou no pornô por puro tesão e amor, por isso me limito à produções que eu queira fazer ou participar. Mas é um mercado saturado e o respiro por trás disso é saber que tem muita coisa de boa qualidade e bom gosto sendo feito", explica Mayanna.

Mayanna

Há muitas formas de consumir pornografia e fica claro que existe espaço para criatividade. "A gente busca se manter atualizado, entregar filmes bem produzidos. Lançamos, nesse ano, o Sexy Hot Produções por Universitários para atrair estudantes de todo o país. O canal está à procura de ideias inovadoras, com temáticas originais e, por isso, quer dar espaço para os jovens estudantes das áreas de Comunicação e Cinema tirarem sua criatividade do papel", conta Paletta.

A questão é entender o sexo como algo natural. "Pra mim pornô é total educação sexual e quanto mais pornô de qualidade e ético, melhor", finaliza Dreadhot.

Essa é uma questão interessante, mas exige atenção. "Não temos educação sexual nas escolas e nem sempre isso acontece em casa e a referência acaba sendo o pornô por ser mais acessível, mas a maioria desses filmes não mostram a realidade e se torna uma deseducação por serem voltados ao público masculino. Mesmo para os próprios homens não ajuda, pois os padrões tanto do feminino quanto do masculino não auxiliam em um desenvolvimento saudável de sexualidade", afirma a psicóloga Luisa Franco.

"Com o pornô feminista, isso se torna algo mais positivo e pode sim servir como ferramenta de uma nova referência, porém ainda é preciso cuidado, afinal, o filme pornô é um entretenimento e o ideal seria ter uma bela educação sexual de base e, assim, teríamos mais critérios pela escolha dos filmes consumidos", finaliza Luisa.

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