Kids: Após 20 anos, retrato da geração dos 90 criado por Larry Clark ainda inspira o cinema

Longa causou controvérsia ao retratar verdade inconveniente sobre a juventude

01/07/2015 17h02

Por Iara Vasconcelos

Há 20 anos o fotógrafo e escritor norte-americano Larry Clark causava polêmica com seu primeiro longa-metragem: Kids, em 1995. Provocativa, a trama acompanhava um grupo de jovens nova-iorquinos nos anos 90. Em plena fase de descoberta, eles abusavam das drogas e do sexo sem prevenção, não respeitavam leis e faziam o que dava na telha. Kids é considerado uma das obras mais importantes do cinema contemporâneo. Seu realismo não permite questionamentos moralistas, é um retrato cru, sem filtros nem censura. Para compor o enredo, Clark contou com a ajuda de Harmony Korine, na época com 18 anos, no roteiro e do renomado Gus Van Sant na produção.

Korine é conhecido pelos filmes conceituais e com pouco diálogo, mas forte carga visual, como Gummo, de 1997, sua estreia na direção. Assim como Kids, o longa se desenrola em torno um grupo de adolescentes entediados de uma cidade americana recém destruída por um tornado. Uma representação do chamado "White Trash" e da delinquência juvenil.

Kids

Uma ajudinha da inexperiência

O elenco de Kids era composto quase integralmente por atores novatos, foi o primeiro longa de Rosario Dawson e Chloë Sevigny, hoje grandes estrelas de Hollywood. A inexperiência do grupo perante as câmeras contribuiu para o realismo das cenas que muitas vezes ganhavam ares de documentário.

Harmony Korine também era quase um aprendiz. Em entrevista recente ao The Guardian, ele relembra o início da carreira na cosmopolita Nova York.

"Eu costumava andar por aí com uns filmes que fiz na época do colégio guardados na mochila - filmes que eu gravei em 16 mm – e colocava o número de telefone da minha avó na parte de cima das fitas VHS. Se eu visse um conhecido na rua, eu entregava meu filme para ele".

Larry Clark não tinha experiência na direção, Korine nunca tinha escrito um grande roteiro e a maioria dos atores enfrentavam as câmeras pela primeira vez. Então, o que mais podia sair dali senão reações genuínas e despretensiosas? Não é sobre bons enquadramentos, mas sobre o despertar de sensações e o impacto visual.

Kids foi tão controverso porque jogou na cara da típica família do subúrbio americano (o equivalente aos lares da classe média/alta no Brasil) uma realidade que eles se negavam a enxergar: Quase todos os jovens são expostos ao mesmo ambiente e as mesmas situações. Os seus filhos, os filhos do vizinho, o órfão e o filho do pastor, não é preciso ir muito longe.

Entretanto, mesmo após 20 anos, muitos dos assuntos abordados no longa ainda são tabu, não é à toa que Korine acredita que o filme nunca daria certo nos dias de hoje: "Seria impossível fazê-lo agora. Não conseguiríamos sair ilesos com ele".

Não é a toa que o trangressivo drama adolescente tenha influenciado outras tantas produções como Aos Treze, de 2003, Garotas Sem Rumo, de 2004, e até versões mais polidas, como Bling Ring: A Gangue De Hollywood, de Sofia Coppola, e Juno. Kids é um dos poucos filmes que foi capaz de se inspirar na cultura popular, com as tribos alternativas e o universo do Skate, e a inspirá-la ao mesmo tempo.

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