Noé: Proibido em vários países, longa causa polêmica; entenda

César Augusto Sartorelli, Mestre em Ciências da Religião, avalia impactos da produção de Darren Aronofsky

02/04/2014 18h32

Noé, de Darren Aronofsky, é um filme que nasceu polêmico. A adaptação do conto da arca foi proibida no Catar, Bahrein e Emirados Árabes Unidos, além de reprovada por 98% dos entrevistados de uma pesquisa realizada pela instituição religiosa Faith Driven Consumers, dos EUA.

No entanto, isso não impediu o filme de estrear no topo da bilheteria norte-americana na última semana. Quer entender a razão dos filmes bíblicos causarem tanta polêmica? Confira entrevista com o César Augusto Sartorelli, Mestre em Ciências da Religião pela PUC São Paulo e curador da 10ª Mostra de Cinema e Religião e especialista no assunto.

 

Mesmo antes de chegar aos cinemas, o filme de Aronofsky para a saga de Noé foi proibido em quatro países e desaprovado pela comunidade religiosa. Por que um filme como este pode ser considerado polêmico?

As religiões são criadas e cultivadas por seres humanos e carregam todas as contradições inerentes a este fato. Como seres humanos pensam de maneiras diferentes, existirão tanto visões das narrativas bíblicas mais abertas como outras mais duras e fechadas em si. Os "criacionistas", por exemplo, não acreditam na teoria da evolução de Darwin e justificam o extinção dos dinossauros pelo fato de que não caberiam na arca de Noé. 

Filmes inspirados em contos mitológicos costumam atrair grandes públicos, a exemplo de Tróia, que faturou quase 500 milhões de dólares em 2004. Por que mobilizam tanta audiência?

Mitos fazem parte do "inconsciente coletivo" da humanidade. Todo mundo tem dentro de si uma ligação com estas histórias que foram base das civilizações porque são narrativas que foram contadas em algum dia de nossa formação e são repetidas há milhares de anos. Mesmo que sejamos ateus por convicção, ou tenhamos abandonado a religião em que fomos criados, sempre seremos tocados pelos mitos que elas carregam.

"Os 'criacionistas', por exemplo, não acreditam na teoria da evolução de Darwin e justificam o extinção dos dinossauros pelo fato de que não caberiam na arca de Noé."

Brad Pitt em Tróia





A história sobre a arca de Noé ganhou seu primeiro título em 1929 e foi mencionado em muitos outros filmes desde então. Quão atual esta história se mantém no imaginário do espectador?

Em toda história em que existe o tema da redenção e do perdão, temos a maneira de pensar cristã, como em vários filmes nos quais o vilão se redime e acaba adotando comportamentos solidários e éticos. O vilão que se redime toca nesta narrativa do pecador que é perdoado, e é muito mais humano do que os que se portam sempre como bons.

Nos Estados Unidos, Noé estreou no topo da bilheteria, com arrecadação próxima a de grandes franquias de ação, mesmo diante de proibições e reprovações. As polêmicas em torno de uma produção como esta podem gerar a curiosidade do público em relação ao filme?

O núcleo mítico sempre será atrativo. Mitos também se recontam, e assim se mantêm vivos, desde que não se altere sua essência. Talvez muitos dos espectadores estejam querendo ver os efeitos especiais aplicados a uma história como esta, que tem esta premissa da destruição e reconstituição do mundo, por conta de suas injutiças e pecados. Para muitas visões religiosas, vivemos uma era deste gênero, pré-apocalíptica.

Adaptações bíblicas como esta ajudam a promover ou contradizer os valores de uma religião?

Sempre ajudam a promover, mesmo que a história seja mal contada e distorça aspectos fundamentais da narrativa em nome da ação ou outras peculiaridades de Hollywood - que tende a transformar toda história, seja em que época ou cultura for, numa trama de amor e defesa da família nuclear no modelo americano, ou da pátria e honra.

"Para muitas visões religiosas, vivemos uma era deste gênero, pré-apocalíptica."

Cena de A Paixão de Cristo

A exemplo de Noé, o longa A Paixão de Cristo (2004) recebeu duras críticas na época de seu lançamento. Quais os perigos de tentar reinventar uma imagem tão consolidada para uma religião como a de Jesus Cristo ou a de Noé?

Quando alguém que pertence a uma seita fundamentalista cristã como Mel Gibson faz "A Paixão de Cristo", pode acabar por criar uma narrativa que carrega os preconceitos e reducionismos característicos de sua interpretação dos textos bíblicos. Surgiu assim um filme que insere visões preconceituosas sobre a via crucis. Essas adaptações poderiam ser muito melhores se tivessem uma boa pesquisa histórica para o roteiro e procurassem sair dos estereótipos da filmografia blockbuster de Hollywood, que parece não conseguir mais viver sem altas doses de violência em sua produção.

Outros títulos mais ficcionais já retrataram passagens ou personagens cristãos e causaram muito menos impacto na opinião pública. Por que eles são mais aceitáveis do que os que seguem a história literalmente?

Sempre que você escolhe criar a partir da ficção, fecha as portas para críticas sobre fidelidade ao real. Se você diz que vai filmar a "realidade" dos textos bíblicos, encontrará vários "proprietários" desta narrativa, já que ela tem várias interpretações: seja judaica, cristã ou de outras vertentes. Seria, talvez, mais correto dizer "as Bíblias", porque teremos alterações substanciais do texto de acordo com a orientação religiosa que a utilizará. Mas o simples fato de não ser um texto definitivo sempre dará margem a polêmicas.

Veja o trailer de Noé:

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