MOSTRA 2011: Elia Kazan, o alcaguete e seus filmes arrebatadores

Retrospectiva revela diretor que defendeu, de maneira contraditória, personagens de decisões

28/10/2011 14h36

Difícil falar dos filmes de Elia Kazan sem esbarrar no seu polêmico posicionamento político. Quando institucionalizou-se a perseguição a artistas de esquerda em Hollywood, o cineasta, à época popular e reconhecido, jogou na fogueira seus colegas.

Meio século depois, já é possível admirar o quão maravilhosos são os filmes de Kazan sem implicar culpa no espectador. O artista, primoroso. O delator, um ser humano contraditório que sucumbiu a decisões imorais quando pressionado.

Sindicato de Ladrões (On the Waterfront, 1954), uma das obras primas de Kazan que a Mostra Internacional de Cinema trouxe a São Paulo na bela retrospectiva, é tido como a resposta do cineasta às acusações de ser delator. Lá, o alcaguete (Marlon Brando) é apresentado como um homem que apenas cumpriu o dever de ser honesto – mesmo que eu não concorde com a noção de honestidade de Kazan e seu genial roteirista Budd Schulberg.

Esta é uma das principais chaves de leitura de seus filmes: a defesa incondicional de quem faz a coisa certa – sob os olhos de Kazan.


Marlon Brando em Uma Rua Chamada Pecado: talento do ator foi descoberto pela direção de Elia Kazan

Assim é justificado o ato desesperado de Marcia ao manipular a cabine de som e destruir Lonesome Rhodes em Um Rosto na Multidão (A Face in the Crowd, 1957). Da mesma maneira, defende-se o promotor pressionado em O Justiceiro (Bommerang, 1947).

Mesmo que cause um dano irreparável, é movido pelo desejo de fazer a coisa certa que o pai de Laços Humanos (A Tree Grows in Brooklyn, 1945) sacrifica-se pelo futuro da filha. E pensar que este filmaço, quiçá o mais emocionante de um cineasta muito hábil em comover, era apenas a primeira ficção dele. Que estreia!

Antecipação de temas

Grego nascido em Istambul na época do Império Otomano, Kazan foi pequeno para os Estados Unidos. Um típico homem que “fez” a América: como um imigrante que se encaixa na sua terra prometida iria difamá-la? É lógico e coerente com o pensamento do cineasta que, quando sua Pátria o "chamou" (e sabemos como esse discurso de servir à Nação é poderosamente manipulador), ele "colaborou”.

Muita controvérsia, porém, permanece no episódio. Na versão mais recente que supostamente estaria mais próxima do que aconteceu – que circulou quando o diretor ganhou o Oscar honorário em 1999 –, Kazan teria sido pressionado a confirmar se alguns nomes de uma lista eram militantes. Se não o fizesse, estava ameaçado de ver as portas se fecharem em Hollywood. Muitos outros na encruzilhada não colaboraram – Ring Lardner Jr., Dalton Trumbo, Lilian Helmet e outros do grupo Hollywood Ten. Kazan o fez.

Esse artista que achava ter feito a coisa certa dirigiu filmes que anteciparam discussões das décadas seguintes. Logo após o término da Segunda Guerra Mundial, abordou o antissemitismo em A Luz é Para Todos (Gentleman’s Agreement, 1947). Uma década antes do feminismo engendrar-se na pauta diária da vida dos norte-americanos, falou de mulheres separadas em subtramas ou de seus desejos sexualmente reprimidos – Uma Rua Chamada Pecado (A Streetcar Named Desire, 1951) ou Clamor do Sexo (Splendor in the Grass, 1961).


Natalie Wood e Warren Beatty vivem amor em sociedade moralista de Clamor do Sexo

Enquanto a Guerra do Vietnã seria imortalizada no cinema no fim da década de 1970 por Apocalypse Now ou pelos filmes de Oliver Stone nos anos 80, Kazan se antecipara na produção independente Os Visitantes (The Visitors, 1972).

Vinte anos antes de Sidney Lumet falar do espetáculo televisivo em Rede de Intrigas (1976), Kazan já o fizera em seu filme mais arrebatador, Um Rosto Na Multidão (A Face in the Crowd, 1957).

Para entender seu cinema, porém, é imprescindível passar pela experiência de assistir a Terra de um Sonho Distante (America, America, 1963), a confissão cinematográfica de Kazan. A este escriba, a viúva do cineasta, Frances, disse que Kazan gostaria de que esse fosse seu último filme – mas por razões financeiras viriam ainda mais três.


Stathis Giallelis em cena de Terra de um Sonho Distante, longa-metragem inspirado na história de Kazan

No seu testamento em forma de filme, Kazan, que se camufla no personagem Stavros, faz muitas coisas que desafiam a moral (mata, rouba, manipula) para alcançar o objetivo de chegar aos Estados Unidos.

A retrospectiva organizada pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo é o pagamento de uma dívida com um diretor de grandes filmes, sendo também uma (re) apresentação ao público brasileiro, já que poucos longas estão disponíveis em DVD – buraco que a Lume tenta preencher com o lançamento de dois longas.

Já podemos assistir aos filmes de Kazan sem culpa.

Serviço

Retrospectiva Elia Kazan na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Terra de um Sonho Distante
Domingo (30/10), às 20h30, no CineSesc

Rio Violento
Sábado (29/10), às 15h, na Cinemateca

Um Rosto na Multidão
Domingo (30/10), às 23h50, no CineSesc

Vidas Amargas
Sábado (29/10), às 17h50, no MIS

Laços Humanos
Terça-feira (1/11), às 15h, na Cinemateca


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