Mostra 2014: Diretor de Casa Grande revela que criação do filme foi como uma terapia

Fellipe Barbosa se inspirou em experiência pessoal para criar longa que dialoga com o momento político e social do Brasil

21/10/2014 10h50

Sucesso no Festival do Rio e no Paulínia Film Festival, Casa Grande agora vem conquistando o público da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Após mais uma de suas sessões, o diretor Fellipe Barbosa conversou com o público e contou detalhes sobre o processo de produção do filme.

+ Leia a crítica de Casa Grande 

Retratando a queda de uma família da elite carioca, o filme foi uma espécie de terapia para o diretor.

"Minha famíia viveu uma situação do tipo quando eu estudava em Columbia, nos Estados Unidos. Me senti mal por não estar presente, esse filme foi uma maneira de corrigir essa ausência, um jeito de estar nesse lugar".

O personagem principal de Casa Grande é Jean, um adolescente rico que luta para escapar da superproteção dos pais, secretamente falidos. Quando o motorista de longa data é demitido, Jean tem a tão sonhada chance de pegar o ônibus público pela primeira vez. No ônibus, ele conhece Luiza, uma aluna da rede pública que começa a abrir seus olhos para as contradições de dentro e fora da casa grande.

"Todos os meninos são do Colégio São Bento. Sempre considerei usar os meninos de lá como protagonistas ao invés de fazer um processo de seleção com 2 mil meninos, como é comum hoje", disse o diretor. Thales Cavalcanti, escolhido após uma série de testes realizados dentro do próprio Colégio (no qual o diretor estudou durante sua adolescência), surpreendeu Fellipe. "Algumas cenas só aconteceram dessa maneira depois dos ensaios. A resposta deles me fazia alterar o roteiro, mas não havia muita liberdade para essas mudanças".

Casa Grande

O diretor também comentou a opção por escolher atores globais para papéis-chave.

"Escolhemos o Marcello (Marcello Novaes) porque ele tem uma imagem meio ligada a essa coisa de Barra da Tijuca. Ele é um cara muito técnico, um ótimo ator e principalmente é um cara muito carismático. Equalizar essas frequências é algo muito difícil, mas ele foi muito generoso".

Casa Grande traz logo no título a referência a uma das obras mais importantes da sociologia nacional, escrita por Gilberto Freyre.

"Eu tinha muito receio de usar esse título, acho muito pretensioso. Quem sou eu para achar que eu sou Gilberto Freyre? Então eu me propus a fazer uma abertura para o filme que merecesse esse título. É um plano muito longo, de três ou quatro minutos, que representa muito frontalmente essa casa gigantesca, com toda a equipe apresentada nos créditos".

Fellipe Barbosa acredita que o longa reflete um novo momento histórico do Brasil, caracterizado pelo empoderamento das classes mais baixas e pelo acirramento da disputa pós ações afirmativas dos governos Lula e Dilma.

"Uma cena que eu gosto muito é a que a empregada, negra, pede demissão. É uma espécie de alforria. O desemprego está baixíssimo, as pessoas agora podem escolher. Essa realidade é nova para nosso país", define.

Deixe seu comentário
comments powered by Disqus