Mostra de SP: Loveless é pesado e escancara problemas sociais russos

Longa é o representante russo ao Oscar

30/10/2017 17h10

Por Daniel Reininger

O drama de Loveless começou com problemas logo na hora da compra de ingressos na Mostra de São Paulo, o que deixou muitos cinéfilos furiosos já que era a única sessão programada do filme. Questão resolvida, o público compareceu em peso para acompanhar um dos filmes mais concorridos da mostra, obra de Andrey Zvyagintsev, de Leviatã, diretor conhecido por criar situações dramáticas intensas que escancaram questões negativas da sociedade russa.

A trama acompanha uma família de classe média à beira do fim e, como Leviatã, Loveless usa relacionamentos conturbados como metáfora para como as pessoas se distanciam uma das outras num mundo hiper conectado, além de mostrar a incompetência da polícia e dos órgãos públicos, o exagero de burocracia, a falta de empatia social e como o comportamento abusivo é sistemático.

Em meio à separação do casal, a dúvida é o que será feito com o filho de 12 anos e, logo de cara, a cena mais pesada do longa entrega uma discussão repleta de frieza e desinteresse pelo bem-estar do menino, que ouve, desesperado, à discussão escondido no banheiro. É de cortar o coração.

O que pareceria ser um drama sobre a decisão do futuro do menino, se torna uma busca desesperada quando o garoto não volta para casa após a escola. O longa usa essa situação para explorar ainda mais os temas principais da obra e mostrar como os pais e filhos não se conhecem. Como resultado, aprofunda a sensação de indiferença e falta de empatia daquela sociedade preocupada em manter a aparência, mas sem realmente demonstrar esse sentimento pelo próximo.

O longa usa a neve e constantes diálogos sobre as baixas temperaturas como metáfora para a frieza da sociedade. A discussão é relevante, mas o longa se perde um pouco ao alongar demais a busca pelo garoto, com cenas visualmente inspiradas, de fotografia cuidadosa, mas com pouco conteúdo realmente. Com isso, a trama se torna arrastada e mais agilidade na montagem ajudaria o longa a causar ainda mais impacto.

A trilha sombria, cenários desolados, como de um centro esportivo abandonado, e as paisagens frias ajudam a reforçar a situação social e criam uma visão, ao mesmo tempo, bela em meio à decadência e cheia de simbolismos. A falta de esperança toma conta da narrativa e isso é reforçado, especialmente, com noticiários e cenas focadas em personagens aparentemente irrelevantes, mas cujas atitudes dizem muito.

O longa possui ainda grandes atuações e uma qualidade técnica impecável. Além disso, a trama constrói tensão emocional o suficiente para sustentar um clímax intenso, na qual a reação dos personagens torna esse momento catártico. As cenas seguintes, porém, mostram o quão perturbados aqueles personagens são ao retornarem a velhos hábitos, passado o momento de emoção intensa.

Loveless é um filme pesado e cheio de alegorias para abordar problemas centrais na sociedade russa, mas possui elementos que podem ser reconhecidos por praticamente qualquer sociedade ocidental. Como representante russo ao Oscar, é um dos fortes concorrentes ao maior prêmio do cinema. Infelizmente, o longa não terá outra sessão na Mostra, mas chegará ao circuito comercial em breve.

Veja o trailer:

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