Mostra: Eu, Olga Hepnarová foca demais no estilo e esquece da narrativa

Filme ainda não tem data de estreia comercial no Brasil

26/10/2016 16h35

Por Daniel Reininger

Olga Hepnarová foi a última mulher sentenciada à morte na Tchecoslováquia e um dos filmes de destaque da 40ª Mostra de São Paulo tenta oferecer uma luz sobre a mente dessa personagem conturbada.

Nascida em 1951, Olga levou uma vida repleta de problemas, que terminou em um caso de assassinato notório. Interpretada pela polonesa Michalina Olszanska, que lembra muito Natalie Portman, Olga é introduzida como uma adolescente atormentada que sofre uma overdose e é enviada para um hospital psiquiátrico, onde ela é brutalizada por outros pacientes. Esse é mostrado como o ponto que define o futuro dela.

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A forma como a personagem é constantemente frustrada, contrariada ou humilhada é um dos pontos tocantes do filme, mas é a forma como Olga é consciente em relação à sua vida e como assume ser uma psicopata sem grandes dramas que realmente faz o longa se destacar. A protagonista parte, então, em busca do martírio para se vingar da sociedade.

Embora o filme seja estilizado, filmado em preto e branco e com montagem propositadamente confusa para tentar captar as mudanças repentinas das atitudes de Olga, que tem como constante apenas o cigarro em sua mão, o longa não é capaz de aprofundar realmente o tema.

Voltado demais à metalinguagem, o longa conta uma história apática, na qual é impossível se relacionar com qualquer personagem e, para piorar, as atitudes de Olga fazem dela alguém desinteressante. O fato de ela se relacionar com mulheres tem pouca importância na trama, embora esses sejam os únicos momentos de aparente alegria da garota, mas não espere nada profundo sobre temática LGBT, são apenas cenas exploradas superficialmente que funcionam como válvula de escape para Olga.

Outro problema é o fato da protagonista acusar a sociedade de vários "crimes" que raramente vemos sendo cometidos na tela, o que nos deixa em dúvida se a garota está alucinando para justificar seus atos ou se os diretores decidiram não mostrar esses aspectos propositalmente.

Na verdade, em certos momentos ficamos na dúvida se o filme tenta defender Olga como uma pessoa instável que não teve o apoio necessário ou se tenta ridicularizar a personagem, muitas vezes mostrada como uma garota rica incapaz de ser feliz, que coloca a culpa de seus problemas na sociedade de forma leviana, até que decide fazer uma loucura para justificar sua vida. Essa ambiguidade é problemática, afinal deixa a narrativa conflitante e paradoxal.

Embora seja interessante ver o retrato da Tchecoslováquia, parte da cortina de ferro, nos anos 70 e o longa tenha boas cenas, inclusive uma num bar é incrivelmente boa, falta carga emocional ao longo de toda a obra. Além disso, o exagero da estilização em detrimento da narrativa atrapalha a produção. Eu, Olga Hepnarová ainda não tem data de estreia comercial no Brasil.

Próxima sessão do filme na 40ª Mostra de São Paulo:

Dia 02/11 – 13h30 – Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 1

Veja o trailer:

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