Mostra Tiradentes evidencia drama vivido pelos filmes médios

Evento exibe três produções de franco diálogo com o público, mas que correm o risco de não encontrá-lo no cinema

28/01/2014 02h18

Mostra Tiradentes

Mostra Tiradentes: interesse do público esbarra na falta de locais de exibição

A 17ª Mostra Tiradentes, que segue até o dia 1º de fevereiro na cidade histórica mineira, exibiu em sua programação até agora três longas-metragens que subvertem a polarização do mercado de cinema brasileiro. Me refiro ao discurso, quase mantra, que divide a produção nacional em extremo opostos.

De um lado estariam os filmes ditos comerciais, em geral comédias que levam milhões de espectadores às salas de cinema. Do outro os filmes autorais, produções feitas para satisfazer os anseios artísticos do realizador que estaria, em geral, pouco se importando com o público.

Foi assim durante um tempo e ainda há quem pense e faça cinema desta maneira, mas é fato que a postura simplista não se sustenta mais. Filmes como Quando Eu Era Vivo, Depois da Chuva e Amor, Plástico e Barulho jogam por terra a oposição arte-entretenimento, que durante anos pautou as discussões sobre cinema no país.

São filmes incontestavelmente autorais, carregados da pessoalidade e do traço artístico de seus realizadores, mas com disposição clara em dialogar com um público maior. Capaz de entretê-lo e fazê-lo pensar, sem obrigá-lo a um tour de force narrativo para que o realizador se sinta "autoral" - palavra que para alguns soa como genial. 

Como palco de discussão e exibição da diversidade cinematográfica brasileira, a Mostra Tiradentes acerta em incluir essas produções em sua seleção. Se a dicotomia autoral-comercial perde força diante da diversidade de nossa produção, outro debate se faz imperativo, e este tem a ver com a dificuldade que esses filmes têm de chegar ao grande público.

O calcanhar de Aquiles da exibição

Quando Eu Era Vivo estreia no próximo fim de semana, distribuído pela Vitrine Filmes. Serão entre 20 e 30 telas, número insignificante para um filme com potencial de público bem maior. E estamos falando de um longa que carrega dois chamarizes: a presença de Antônio Fagundes e da cantora Sandy, artistas conhecidos do grande público.

Depois da Chuva e Amor, Plástico e Barulho não contam com essa carta na manga, o que dificulta ainda mais a vida comercial desses filmes. Ambos ainda não têm distribuidor definido, o que significa data incerta para estrear nos cinemas. Como estão fazendo carreira promissora em festivais de cinema, não devem ter problemas em conseguir empresas interessadas em lançá-los. O problema, faz tempo, não é distribuição. É espaço para exibição.

E nesta discussão não adianta apontar o dedo para o exibidor e tachá-lo de inimigo do cinema nacional, etc. Este é um empresário que tem uma disponibilidade de filmes estrangeiros com maior força no mercado que os brasileiros, portanto, vai seguir uma lógica comercial - e seria tolo caso não seguisse. Costumo dizer que cinema é arte por acaso. Tudo que envolve sua realização – da produção à exibição – movimenta somas significativas de dinheiro. E seria ingênuo pensar que alguém perderia dinheiro por amor à arte.

A questão é que o mercado é especialmente cruel com o filme médio. Os longas de arte e de renovação têm seu espaço garantido no circuito alternativo. O blockbuster nacional já não tem dificuldade de confrontar os filmes estrangeiros, vide exemplos como as comédias Até que a Sorte nos Separe 2 e Muita Calma Nessa Hora 2, que ocupam boa parte do circuito exibidor no momento.

O drama é ver bons filmes como Quando Eu Era Vivo, Depois da Chuva e Amor, Plástico e Barulho não chegarem ao grande público, que, afinal de contas, foi o financiador dessas obras. O brasileiro quer ver cinema, quer ver seu cinema. As sessões lotadas aqui na Mostra Tiradentes e em outras festivais no país são termômetro desse interesse, por isso é premente uma política pública de exibição no Brasil.

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