Mumblecore: Movimento do cinema independente assume o título de voz da geração dos "vinte e poucos"

Roteiros improvisados e pouca preocupação com a técnica ajudaram gênero a conquistar público mais jovem

05/01/2015 12h05

Há pouco mais de dez anos o lançamento do drama independente Funny Ha Ha causou frisson no cinema independente dos Estados Unidos. Realizado com orçamento baixíssimo, utilizando locações caseiras e apostando em um elenco formado por atores não profissionais, o filme abria mão dos roteiros tradicionais e investia em longos diálogos improvisados. A fórmula agradou o público e o longa ganhou status cult. Seu diretor, o cineasta sediado em Boston Andrew Bujalski, se tornou referência.

Foi só em 2005 - já fortalecido enquanto gênero - que o movimento foi batizado de Mumblecore (algo como geração do resmungo). De lá pra cá os filmes que se enquadram nesta fórmula têm ganhado espaço em festivais independentes pelo mundo e suas frases e cenas são repetidas como mantras nas redes sociais. Afinal, por que a galera dos vinte e poucos anos se identifica tanto com o gênero?

Funny Ha Ha

Funny Ha Ha: filme lançado em 2002 inaugurou o gênero

A fórmula

Há vários elementos que parecem contribuir para a conexão entre obra e espectador que muitos dos filmes do movimento conseguem estabelecer. Talvez o centro dessa sensação de proximidade esteja na utilização de atores não profissionais para os principais papéis. O improviso, a insegurança e o constrangimento dos "atores" na frente das câmeras humanizam as atuações, fortalecendo a transmissão das ideias, desejos e sentimentos que o diretor procura retratar.

Há também um apreço pelo cotidiano, pelas conversas banais e reflexões que nada concluem. Os personagens parecem sempre perdidos em suas tarefas diárias: estão infelizes com o trabalho, questionam as relações amorosas, não tem a menor ideia do que fazem com suas vidas. Os protagonistas aparecem como versões simplificadas de um personagem recorrente no cinema, o jovelho (como bem percebe este texto do Papo de Cinema).

Representam quem?

Os principais membros dizem que o Mumblecore é uma tentativa de se livrar dos clichês que Hollywood impõe ao seu cinema em uma era povoada pela computação gráfica, pelos roteiros previsíveis e desfechos insossos. A tentativa de fugir dos padrões estéticos e da exigente alta qualidade técnica aproximam a linguagem do movimento do desprendimento do Youtube. Esta talvez seja o único manifesto realmente político do estilo: desglamourizar o ato de fazer cinema.

Os críticos, porém, são quase que uníssonos: falta força para que o Mumblecore se fortaleça como movimento. Há aqueles que dizem que na verdade o gênero é mais uma atualização do New Talkie, movimento que nos deu longas como Slacker (primeiro filme de Richard Linklater, do premiado Boyhood: Da Infância À Juventude) e Go Fish, sucesso inesperado da incipiente diretora Guinevere Turner (que depois acabou investindo na carreira de roteirista). 

Há, ainda, aqueles que percebem o tom exageradamente autorreferencial nas produções: brancos, de classe média e na faixa dos vinte e poucos anos, os protagonistas dos filmes do gênero são exatamente como seus diretores. Como podem se apresentarem como voz de uma geração se nem ao menos representam a pluralidade de seus membros?

Os nomes do movimento

Mutual Appreciation

Mutual Appreciation: Filme de Joe Swanberg está entre os mais lembrados do gênero

Andrew Bujalski ainda é o nome mais conhecido e respeitado, talvez porque possua justamente o desprendimento que o gênero sempre quis assumir para si. Além do já citado Funny Ha Ha, o diretor é o responsável por Admiração Mútua, longa em preto e branco que dosa humor e romance para mostrar a apatia tão relacionada com nossa geração.

Outros grandes nomes são os irmãos Mark e Jay Duplass (e seu sucesso The Puffy Chair, premiado em vários festivais), o jovem Joe Swanberg, do clássico cult Hannah Takes The Stairs e do recente Happy Christmas (com Anna Kendrick e Lena Dunhan) e Aaron Katz, de Quiet City, um verborrágico retrato de uma amizade ambientada em Nova York. Os longas de Lynn Shelton (Your Sister's Sister), Evan Glodell (Bellflower), Alex  e Ross Perry (The Color Wheel) também estão entre os mais lembrados.

O gênero deu um salto com a ajuda de Noah Baumbach e seu Frances Ha, filme que rendeu a indicação ao Globo de Ouro de melhor atriz para Greta Gerwig. Despretensioso, mas de roteiro inspirado (Greta divide a criação do roteiro com o diretor), o longa conta a história da divertida e desastrada aluna em uma companhia de dança à espera de uma chance de integrar o grupo de bailarinos que encenará o espetáculo de Natal. Greta Gerwig tem se elevado ao status de queridinha do gênero, já que também integrou produções como Nights and Weekends e Lola Contra o Mundo, outros expoentes do movimento.

Lola Contra o Mundo

Lola Contra o Mundo : Frases do filme de Daryl Wein povoam o Tumblr

O movimento vem crescendo, seus filmes tem aparecido nos festivais indies mais importes do mundo, de Toronto a Sundance, e até ganharam representantes brasileiros (o controverso Eu Não Faço A Menor Ideia Do Que Eu Tô Fazendo Com A Minha Vida está aí para provar). Mas ainda é cedo para saber se algum dia veremos o movimento sair de seu comodismo e influenciar outros meios.

Se você pussui vinte e poucos anos, recém deixou a casa dos seus pais e anda incrédulo com seu futuro, talvez consiga encontrar algum conforto nos diálogos debochados e nas situações ridículas retratadas pelo gênero. Assistir a um Mumblecore é como ganhar um abraço de um velho amigo, algo que a apática e cansada juventude da qual fazemos parte precisa urgentemente. 

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