Na Quebrada: Direção fala sobre as dificuldades de gravar em periferias e presídios

Filme de ficção sobre os alunos da ONG Instituto Criar estreia na próxima semana

06/10/2014 17h02

A 10 dias do lançamento oficial, a equipe por trás do filme Na Quebrada falou sobre a produção em uma coletiva de imprensa no Shopping Eldorado, em São Paulo.

Na Quebrada partiu do curta Cine Rincão, de Fernando Grostein Andrade, que foi exibido no Festival de Veneza de 2012 e fala sobre um jovem da periferia que usou o cinema para melhorar a vida na sua comunidade. Tanto ele quanto os personagens do longa fazem parte da ONG Instituto Criar de TV, Cinema e Novas Mídias, criada pelo apresentador Luciano Huck, irmão de Fernando.

O filme é obra de ficção baseada nas histórias reais de alguns jovens e seus problemas da "vida na quebrada" como violência e conflitos familiares, e como o envolvimento com o cinema participa da transformação social das comunidades. A direção é uma colaboração entre Fernando e Paulo Eduardo, cineasta que também veio da periferia e cuja história inspirou um dos personagens principais.

Os jovens protagonistas são iniciantes no cinema, para alguns esse foi o primeiro trabalho com atuação. Questionado sobre o porquê de não usar rostos globais, Fernando ressaltou a dificuldade de encontrar atores com o perfil do filme: "Atores afrodescendentes paulistas de comunidade, simplesmente não tem. Existe um buraco e essa turma não estava representada.", disse ele.

Com participações de nomes conhecidos como Emanuelle Araújo e Monica Belucci, o longa foca mais na apresentação desses novos talentos e dos participantes do grupo de teatro Do Lado de Cá, todos agentes carcerários e detentos. Igor Rocha é o agente penitenciário e docente de teatro responsável pela iniciativa do grupo, que antes só tinha aulas para funcionários e desde 2010 coloca também presidiários para trabalharem juntos na construção das suas histórias de forma teatral, com exercícios que vão desde interpretar traficantes até dançar balé. "Hoje eu acredito na recuperação do ser humano. Até agora quem fez teatro com a gente não voltou para o crime", conta o professor.

Além das dificuldades de gravar em favelas, algumas cenas aconteceram dentro de um presídio em pleno funcionamento. "Fomos enfiando o dedo na ferida no lugar onde ela acontece", disse Fernando. A equipe de filmagem ficou com medo das gravações deixando Fernando e Paulo sozinhos com apenas dois cinegrafistas para gravar a cena de rebelião. Foram mais de cem detentos que toparam participar e conseguiram se segurar durante várias tomadas, além de ter um atraso no almoço, que só foi perdoado com a condição de exibirem o filme no presídio quando estivesse finalizado.

Por causa disso e para voltar o filme para as comunidades da onde saiu, Na Quebrada terá nos próximos dias uma pré-estreia exclusiva para os detentos, o "Cinema na Laje" para os moradores das periferias visitadas na produção e lança também uma campanha, através do Instituto Criar, de doação de ingressos para pessoas que nunca foram ao cinema.

Na Quebrada estreia nos cinemas na próxima quinta-feira (16). Assista ao trailer:

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