Análise: O limite da razão no sonho de Nebraska

Assim como Dom Quixote, Woody Grant é a representação perfeita da figura do louco

15/02/2014 15h27

Nos primeiros minutos de Nebraska, um idoso desalinhado e debilitado pelo tempo caminha no meio-fio de uma avenida movimentada, vem de encontro à câmera e ao espectador. Ele não procura por você nem pela aprovação de ninguém. Mais do que isso, revela com que disposição deve encarar qualquer obstáculo que dificulte seu objetivo: recolher a rica quantia de um milhão de dólares ganha em um bilhete premiado. Ele acredita nisso, mas só ele.

Para retirar seu prêmio, Woody precisa viajar de Billings, Montana, até a cidade de Lincoln em um percurso de mais de 900 km. Sem carro e habilitação para dirigir, ele decide ir andando até seu destino, quando consegue comover, por pura compaixão mesmo, seu fracassado filho David a levá-lo de carona até o lugar. Imprevistos o colocam na trilha de sua cidade natal, onde o protagonista reencontra histórias de seu passado e a validação duvidosa de seu novo status de milionário, mesmo sem ainda ter colocado as mãos na fortuna.

O Louco no Tarot

Carta do Louco no Tarot

A luta contra o medíocre ou a busca pelo (aparentemente) insignificante não é exatamente nova no mundo da ficção: um de seus mais genuínos retratos foi composto em 1605, por Miguel de Cervantes, no clássico Dom Quixote. Na trama literária, Alonso Quijano é um fidalgo apaixonado pelos romances de cavaleria que percorre a região central da Espanha em busca de inocentes para salvar e vilões para combater, assim como nas obras que passou a vida consumindo. Montado em seu sofrido "alazão" Rocinante, o Cavaleiro da Triste Figura rasga as entranhas do planalto espanhol acompanhado pelo fiel escudeiro Sancho Pança em aventuras que não existem.

— Sancho amigo, hás-de saber que eu nasci, por determinação do céu, nesta idade de ferro, para nela ressuscitar a de ouro. Sou eu aquele para quem estão guardados os perigos, as grandes façanhas, e os valorosos feitos.

Assim como Dom Quixote, um homem (neste caso bem mais) velho disposto a encarar a oposição do mundo para viver seu sonho, Woody Grant é a representação perfeita da figura do louco criada por Cervantes. Ingênuo e determinado, sua vida é um road movie em preto e branco cujo trânsito não lhe atribui cores, até que ele encontra sua grande missão. Em uma cena emblemática de sua caça ao tesouro, Woody retorna à casa onde foi criado e enquadra mais uma vez o mundo pela janela de seu antigo quarto. Um vasto campo revela o mundo que ele não alcançava, assim como Dom Quixote antes de conhecer seus romances de cavalaria. Dois homens transformados pela descoberta de sua vida.

O limite da ilusão

Embora o mote para as duas aventuras seja distinto, já que Dom Quixote persegue a eternização de sua imagem de cavaleiro enquanto Woody pretende pôr as mãos em uma fortuna em dinheiro, a determinação daqueles que perdem a razão por um sonho forma um elo entre as narrativas separadas por centenas de anos. Como acreditar em uma carta premiada que chega pelo correio ou como combater as vilanias do mundo como um anacrônico cavaleiro medieval? Qual é o limite seguro entre a ingenuidade sonhadora e a importância de acreditar em uma verdade escusa?

Dom Quixote e Sancho Pança

Dom Quixote e Sancho Pança

Em Dom Quixote, o ignorante e esperançoso Sancho Pança representa, ironicamente, o bom senso diante dos devaneios de seu mestre. Ainda que iludido pela promessa de ricas recompensas, é o simples camponês quem se esforça durante toda a trama literária para convencer o cavaleiro andante a encontrar o limite entre sua paixão e os perigos de viver em um mundo que não existe. Embora o tom cômico acompanhe os maus empreendimentos da dupla, a maior parte de suas aventuras termina em feridas profundas, tanto físicas quanto emocionais.

Seja pela vida de cavaleiro andante, seja por um prêmio de um milhão de dólares, a cruzada que os desalinhados, incompreendidos e determinados Woody Grant e Dom Quixote travam em suas trajetórias estão mais relacionadas à insatisfação com sua realidade do que com devaneios infundados. 

Em Nebraska, é a figura de David, o filho generoso que por compaixão decide acompanhar Woody em sua empreitada, que se voluntaria para administrar essa linha tênue entre a loucura e a realidade em que seu pai transita. E que também deixa marcas profundas no andarilho.

Afinal, transpor o limite entre idealizar e viver um sonho é um ato capaz de fazer qualquer pessoa perder a razão.

 

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