No Brasil, Catherine Deneuve nega imagem de ícone do cinema francês

Em entrevista à imprensa em São Paulo, musa fala sobre Potiche - Esposa Trofeu e carreira

08/06/2011 15h09


















Um ícone pedindo para ser comum. Catherine Deneuve, nome fundamental para qualquer espectador próximo ao cinema francês produzido desde os anos 1960, tornou-se uma musa já nos primeiros trabalhos com Buñuel, Jacques Demy e Roman Polanski. Agora, aos 67 anos, 54 deles como atriz e se dedicando cada vez mais a cineastas jovens, Deneuve quer negar a marca de ícone inalcançável.

“Ícone é uma palavra perigosa, representa uma idealização e é pesado carregar”, afirmou a atriz nesta quarta-feira (8/6) à imprensa em São Paulo. Deneuve está no Brasil para divulgar Potiche – Esposa Troféu, filme de François Ozon que integra a programação do Festival Varilux – que acontece em 20 cidades – e com data de estreia para 17 de junho.

Em seus trabalhos mais recentes, como 8 Mulheres, Diário Perdido e Um Conto de Natal, a atriz francesa tem interpretado mulheres comuns, do cotidiano, longe do glamour construído em torno de Deneuve, especialmente nos anos 1960 e 70, quando foi dirigida por Buñuel (A Bela da Tarde), Jacques Demy (Pele de Asno), Jean Aurel (Manon 70), Polanski (Repulsa ao Sexo), entre outros.

Por isso mesmo, diz a atriz, tem sido interessante trabalhar com Ozon e Christophe Honoré. “Hoje, gosto muito do universo de Ozon e Honoré porque não são realistas. Falam de sentimentos, mas em outro registro. As personagens são cotidianas, mas se parecem tão distantes de mim e, por estarem em filmes não tão realistas, até me parece que elas não são do cotidiano”, opina. Recentemente, ela trabalhou com Honoré em Les Bien-aimés, que concorreu à Palma de Ouro em Cannes neste ano. No longa, Deneuve contracena com a filha Chiara Mastroianni, fruto da relação com Marcelo Mastroianni, e Milos Forman, o diretor numa ponta como ator.


Assista ao trailer do longa-metragem Potiche - Esposa Trofeu

Sem rodeios

Catherine Fabienne Dorléac entrou na sala de um hotel luxuoso na região dos Jardins de salto alto, vestido com estampa em azul claro. Sem falsas simpatias, senta-se ao centro da mesa e acendeu seu companheiro mais longevo: o cigarro. Flahes vindos de um batalhão de fotógrafos estouram com um só destino. Ela, porém, finge estar alheia à imagem que não está em movimento, não é cinema. Um imprevisto: já na primeira pergunta, o microfone não funciona. Para ela, não tem problema, tudo não passa de um contratempo. Adjetivo perfeito para definir sua presença: cordial.

Mesmo quando precisou de jogo de cintura para responder a um veículo de celebridades sobre a veracidade de pedidos estapafúrdios durante sua passagem pelo Brasil, como 400 toalhas no quarto do hotel. “Eu não sou Sharon Stone”, brincou, para, em seguida, cutucar a jornalista. “Você até deveria ter checado isso antes”.

Voltando ao cinema, Deneuve comentou o olhar que cineastas têm em torno de sua figura e qual é a ideia da representação feminina. “Diretores como Ozon ou Honoré são cinéfilos, assistiram aos filmes que participei nos anos 60. Naquele tempo, o papel da mulher estava mudando e as coisas eram mais simples em relação à imagem. Não existiam tantos paparazzi, a televisão tinha penetração menor”.


Os Guarda-chuvas do Amor, de Jacques Demy, apresentou a atriz para um público além da França

Ozon e Demy

Com cinquenta e quatro anos de carreira, Deneuve estreou fazendo uma ponta em Les Collégiennes, aos 14 anos. O primeiro grande diretor a contratá-la foi Roger Vadim em Vício e Virtude, de 1963. Surgiu, então, Jacques Demy, que impulsionou a carreira da atriz com Os Guarda-Chuvas do Amor, Palma de Ouro em Cannes e indicado a cinco estatuetas do Oscar.

Questionada pela reportagem do Cineclick sobre a relação do cinema de Demy, conhecido pela liberdade no uso da música e no ritmo dos diálogos, com o de Ozon, de Potiche – Esposa Troféu, Deneuve responde. “De certa maneira, é uma homenagem a Demy, mas no filme do Honoré [Les Bien-aimés] canta-se muito também, os diálogos são expostos como canções. Demy abriu essa via, mas, por exemplo, Ozon é mais realista, trata da mulher, poder operários”. A atriz interrompe, busca um complemento coerente à resposta e encerra. “O universo de Demy tem mais fábula e muito mais pessimismo, melancolia. As pessoas cantam, mas não estão alegres”.

Em Potiche – Esposa Troféu, ambientado nos anos 1970, ela interpreta Suzanne Pujol, mulher de um executivo dono de uma indústria de guarda-chuvas. Como indica o título, ela não apita nada, assim como as outras mulheres da família. Porém, o marido é sequestrado pelos operários indignados com as más condições de trabalho, abrindo uma brecha para a esposa deixar de ser um enfeite de prateleira.


Potiche - Esposa Trofeu marca o reencontro de Denuve com o ator Gerard Depardieu

“‘Potiche’ é um termo irônico. Todos nós já tivemos a chance de ser um objeto que só serve para sustentar ideias. Também existem homens ‘potiche’ ao lado de mulheres célebres”, opina. O longa também marca o reencontro cinematográfico com Gerard Depardieu, com quem trabalhou há 31 anos, no antológico O Último Metrô, de François Truffaut.

“É um reencontro para o espectador, mas fiz muitos filmes com ele”. No filme de Ozon, aflora um um romance mal curado do passado. “É verdade que o diretor usou nosso passado cinematográfico na cena dança, já que remete a um momento em que éramos jovens”. Deneuve contou também como Depardieu entrou no filme. “Ele chegou duas semanas após o início das filmagens e entrou no personagem imediatamente, mostrando a cólera e a doçura do papel”.

Após cerca de 40 minutos de conversa com a imprensa, Catherine Deneuve agradeceu, cordialmente, à presença da imprensa e se foi, arriscando um “obrigado” carregado no erre. A atriz também irá ao Rio de Janeiro para participar da divulgação do filme.


Deixe seu comentário
comments powered by Disqus