O que o público mais perde com o corte de verbas na Ancine?

Confira a terceira parte da entrevista com Sandro Santana, doutor em Cultura e Sociedade pela UFBA

12/06/2019 17h23

Por Thamires Viana

Em abril deste ano, todo o mercado cinematográfico do Brasil foi pego de surpresa com o anúncio de que o presidente da Ancine, Christian Castro, havia suspendido o repasse de verbas para o audiovisual no país após determinação do TCU.

Para entender melhor o cenário atual da Ancine, conversamos com Sandro Santana, doutor em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia (2019) com a tese 'Das Leis de Incentivo ao Fundo Setorial do Audiovisual: uma análise das políticas públicas para o audiovisual no Brasil' (2000-2015), mestre pela mesma instituição (2007) com a dissertação "As Relações entre cinema e Estado no período da Retomada", e graduado em comunicação social pela Facom/UFBA. 

A nossa entrevista foi dividida em três partes e a terceira você confere abaixo:

+ Parte I - Entenda o papel da Ancine no Brasil
Parte II - Entenda o impacto do corte de verbas na Ancine

CINECLICK: Como podemos reverter essa situação?

Sandro: Em primeiro lugar é urgente a re-politização da classe, como aconteceu em 2000, no III CBC, e o diálogo desta produção audiovisual com a sociedade. É preciso que o setor se una em torno da luta pela manutenção da política cultural construída para o setor nestas duas décadas, mas também que o audiovisual brasileiro tome iniciativas para a circulação dos filmes e a aproximação com a sociedade. A suposta indústria audiovisual brasileira é uma indústria que produz filmes através do fomento estatal e incentivos fiscais, mas que não se preocupa com a circulação dos bens produzidos. Um filme só se torna um bem cultural ao ser exibido. Tomando como base os anos parametrizados pelo Plano de Diretrizes e Metas para o Audiovisual (PDMA), documento que estabelece um planejamento para o mercado de conteúdos audiovisuais no Brasil até o ano de 2020, dos 633 filmes lançados, entre os anos de 2010 e 2015, apenas 40 tiveram um público acima de um milhão de pagantes; 64 ultrapassaram a marca de 500 mil espectadores; 114 ultrapassaram 100 mil; apenas 45 ficaram na faixa de público maior que 10 mil e menor que 100 mil, e 379 tiveram público abaixo de 10 mil, sendo que destes, 170 tiveram menos de mil ingressos vendidos.

Não podemos fazer a defesa de uma política cultural tendo como argumentos apenas a geração de empregos e impostos , que são importantes, mas é fundamental ter em vista que o principal é o acesso democrático aos recursos e às obras produzidas por toda a sociedade. Uma boa iniciativa seria uma plataforma de streaming que disponibilizasse o conteúdo produzido com recursos públicos gratuitamente após dois anos do lançamento e a preços abaixo do mercado durante estes dois primeiros anos, assim como acontece no Chile e na Argentina. Quando esteve à frente da Secretaria do Audiovisual (2015-2016), Pola Ribeiro criou uma plataforma para disponibilização de conteúdo audiovisual, mas, com o impeachment de Dilma Rousseff, às vésperas de ser implantado e com recursos aprovados no FSA de 20 milhões de reais, o projeto foi abortado.

O que nos chama a atenção é o desinteresse do setor por este projeto que não só coloca o cinema brasileiro numa das janelas que mais crescem em todo o mundo, como também pela possibilidade de comunicação destes filmes com um público completamente apartado das salas de cinema. Seria exatamente as faixas que atingiram público abaixo de 100 mil que teriam nesta janela um espaço para exibição que não foi encontrado no circuito de salas e que dificilmente encontrarão esta janela nas TVs abertas e fechadas. As plataformas de streaming e VOD se mostram como um caminho inevitável enquanto veículo de difusão de qualquer produto audiovisual e torna-se estratégico se considerarmos que a intenção prioritária dos realizadores e da política cultural para o audiovisual no Brasil seja a democratização do acesso às obras produzidas com recursos públicos.

CINECLICK: O que o público mais perde com essas mudanças?

Sandro: Brasil apenas 7,1 % das cidades possuem salas de cinema, sendo que o país ocupa a 60° posição na relação habitantes por sala. Índice que se mantém estável desde 2011, oscilando entre 6.9% e 7,1%. Estas 7,1% das cidades brasileiras com cinemas respondem por 55,9 % da população nacional, então, quase metade da população brasileira mora em cidades onde inexistem salas de exibição.

No entanto um outro dado chama a atenção: 89,3% dessas salas se encontram em shopping centers, o que revela outra exclusão dentro dessas cidades, seja pela localização, seja pelo custo que demanda a frequência numa sala localizada num shopping center. Então, o público que paga ingressos e frequenta o circuito exibidor de salas múltiplas concentradas em shoppings centers perdem muito pouco porque é um público voltado para o cinema de hollywood. A prova disso é o que aconteceu com a estreia do filme Vingadores - Ultimato que enxotou das salas uma das franquias de maior sucesso do cinema nacional, De Pernas Pro Ar 3, que em três semanas superou a marca de um milhão de ingressos vendidos, se tornando a melhor estreia do cinema brasileiro em 2019. Ainda assim, os exibidores tiraram o filme de cartaz com ingressos previamente vendidos sem maiores problemas ou protestos por parte do público ou mesmo da Ancine.

Em relação aos filmes e séries para a televisão, só sobreviverão aqueles que atendam ao padrão algoritimizado dos conglomerados internacionais de streaming, que devem cada vez mais se expandir e dominar o mercado. A derrocada do modelo de TV a cabo é só uma questão de tempo, sem os editais do FSA e as cotas impostas pela Lei 12.485, estes filmes e séries tendem a desaparecerem da TV fechada.

Considero a maior perda o fim da produção audiovisual fora do eixo Rio-SP, sobretudo aquela proporcionada pelos arranjos regionais e cotas, que possibilitaram a produção de conteúdo em todos os estados do país e, na maioria das vezes, com exibição garantida na rede de televisão local.

Sandro Santana é doutor em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia (2019) com a tese 'Das Leis de Incentivo ao Fundo Setorial do Audiovisual: uma análise das políticas públicas para o audiovisual no Brasil' (2000-2015), mestre pela mesma instituição (2007) com a dissertação "As Relações entre cinema e Estado no período da Retomada", e graduado em comunicação social pela Facom/ UFBA. Escreveu os livros "Música e ancestralidade na Quixabeira" (EDUFBA), que chega a sua segunda edição em 2019, e "Festival de Música Educadora FM - 10 anos" (IRDEB, 2015). Diretor, roteirista e diretor musical do documentário "Cantos de trabalho: Bois, batas e cantigas" (em produção). Já produziu três CD's e centenas de shows em diversos estados do país. Tem experiência na área de comunicação e produção cultural, com ênfase em redação de textos e artigo e produção musical, roteiro e direção, atuando principalmente nos seguintes temas: políticas culturais; economia da cultura; cinema brasileiro; cultura popular; cinema e história, análise fílmica; cinema e estado; música e ancestralidade.

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