Opinião: 30 anos depois, "Cabra Marcado Para Morrer" ainda dialoga com realidade do país

Lançado em 1984, obra-prima de Eduardo Coutinho redefiniu o gênero e continua essencial para entender o Brasil

03/03/2015 12h06

Longa-metragem mais importante da intensa produção cinematográfia de Eduardo Coutinho, morto em fevereiro de 2014, Cabra Marcado Para Morrer é considerado um marco entre os documentários nacionais e, para alguns críticos, um dos filmes mais importantes já realizados por aqui.

Tamanha importância não vem do acaso. Misturando documentário e ficção, o longa acompanha a trajetória do líder camponês e martir da Reforma Agrária João Pedro Teixeira, assassinado na Paraíba em 1962. Ele era referência na luta pelo direito à terra.

A ideia inicial de Coutinho era reencenar a história do líder utilizado os próprios camponeses como atores. A viúva de João Pedro, Elisabeth Teixeira, interpretaria ela mesma.

As filmagens seguiam no sertão paraibano até serem interrompidas em 1964 pelo Golpe Militar que depôs o presidente Jango e mergulhou o país em décadas de repressão política. Cercado por forças policiais, o engenho da Galiléia, onde ocorriam as gravações, foi violentamente reprimido.

Coutinho foi acusado de propaganda comunista, mas conseguiu escapar para Pernambuco juntamente com Elizabeth. Outros integrantes das filmagens não tiveram a mesma sorte. Além da apreensão de boa parte do material, muitos dos líderes de Galiléia foram presos, torturados e, alguns deles, jamais vistos novamente.

Cabra Marcado para Morrer

A pausa nas filmagens acabou durando 17 anos e só foi retomada pela abertura política do último dos governos militares.

Em 1981, Coutinho retornou ao estado para encontrar os personagens que lá deixou. Elisabeth Teixeira passara todos esses anos vivendo na clandestinidade e não mais viu onze dos seus doze filhos. Abandonou tudo, mudou de nome e se escondeu em uma cidadezinha no interior do Rio Grande do Norte.

Ao retomar essas vidas, Coutinho os confronta com seu próprio passado e estabelece uma relação entre a história e o cotidiano, entre os indivíduos e o Estado. Cabra Marcado Para Morrer é sobre todos nós, mas também é sobre Coutinho, cuja vida ficou paralisada pela agitação política da época.

Ao confrontar ficção e documentário, imagem e palavra, memória e história, o diretor nos deu um dos filmes essenciais para entender o significado do Golpe Militar nas lutas sociais.

"Minha vida parou com o filme. Esse é o fantasma. Como parou a vida dos camponeses. Então [Cabra Marcado...] apresentou para mim uma dimensão psicológica, é realmente um filme de um caráter politico mas a partir de uma coisa pessoal também."

Rever Cabra Marcado Para Morrer é como reencontrar nossa história. Se em 1964 e, posteriormente, em 1984 a terra era questão de sobrevivência e o Estado hostil e incapaz de mediar os conflitos vindos dessa necessidade, hoje pouca coisa mudou. 

A Família de Elizabeth Teixeira

Em 2013, meses antes de ser brutalmente assassinado pelo filho que sofria de esquizofrenia, Coutinho reencontrou esses personagens por mais uma vez, o que rendeu A Família de Elizabeth Teixeira e Sobreviventes de Galileia, dois média-metragens que são reflexos da ainda conflituosa relação entre sobrevivência e propriedade.

Se a luta política era protagonista, esse reencontro do diretor com esses personagens revela apatia. Enfraquecidos, burocratizados e cada vez menos influentes, os movimentos sociais perderam força e foram, em partes, cooptados.

Cabra Marcado Para Morrer é sintoma, mas também remédio para tamanha apatia. Revê-lo continua, trinta anos depois, essencial.


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