Opinião: Altered Carbon é série bela e promissora, mas falta profundidade

Estreia acontece em 02 de fevereiro

22/01/2018 17h45 (Atualizado em 12/02/2018 14h39)

Por Daniel Reininger

Assistimos aos primeiros capítulos de Altered Carbon, nova série da Netflix baseada nos livros de Richard K. Morgan, e gostamos do que vimos. O programa trabalha bem temas típicos de sci-fi, enquanto cria uma boa atmosfera de mistério com uma intrigante história de detetive.

Se você ainda não ouviu falar do programa, pare agora e veja o trailer, que você encontra no final desta página. Basicamente, essa série traz elementos Cyberpunk, pós-humanistas e parece uma mistura de Blade Runner e Matrix com as séries The Expanse e Black Mirror.

Sim, por essa descrição parece que Altered Carbon é mais do mesmo. E seria se não fosse pelo tom da história sobre a investigação do assassinato de um Matusa, como são chamado os ricaços praticamente imortais desse mundo. A vítima em questão volta à vida graças a uma tecnologia implantada na base do cérebro - item instalado em todas as pessoas e responsável por guardar memórias e personalidade a fim de conceder vida eterna, mas só para quem pode pagar. O problema é que tentaram apagar também os backups do ricaço, quase conseguindo apagá-lo da existência.

Ambientado em Bay City, antiga San Francisco, no ano de 2384, Altered Carbon abusa da estética cyberpunk vista em animes e Blade Runner, com direito até a chuva perpétua. A sociedade se acostumou à prática da troca de corpos, afinal com a consciência de todas as pessoas armazenadas, ela pode ser transferida entre cápsulas diferentes com facilidade. A morte real só acontece se o backup for destruído.

Nesse cenário, o mercenário Takeshi Kovacs (Joel Kinnaman) acorda após 250 anos, contratado para descobrir o autor do assassinato de Laurens Bancroft. Escolhido por fazer parte de um grupo de elite no passado, Tak conta com a ajuda de uma policial chamada Kristin Ortega (Martha Higareda), um ex-militar de nome Vernon Elliot (Ato Essandoh) e uma inteligência artificial apelidada de Poe (Chris Conner).

Altered Carbon

O visual é incrível. A metrópole é bela e decadente. Enquanto as ruas de Bay City lembram Blade Runner, como falamos acima, a arquitetura interna tem um aspecto único, como se o mundo digital se mesclasse com o real. As lutas são muito bem coreografadas, a tecnologia presente é interessante e a podridão dessa sociedade aparece por todos os lados.

Além disso, a série trabalha temas como divisão de classes, questões religiosas sobre corpo e alma enquanto apresenta uma trama interessante de investigação estilo neo-noir, com elementos reconhecíveis para quem gosta do gênero, mas sem cair no óbvio.

Entretanto, as falhas existem e não são poucas. Para começar pelo elenco, que não funciona tão bem como deveria e raramente entrega boas atuações. Kinnaman é um ator sem sal e colocá-lo no papel de protagonista é sempre um perigo, ainda mais com um personagem aparentemente frio e calculista. Só que a maioria dos coadjuvantes não ajuda também, com exceção de Poe, a A.I. do Hotel O Corvo que é realmente ótimo.

Com elenco fraco, os diálogos se tornam problemáticos. Com muitos nomes tecnológicos e questões que precisam ser explicadas ao público, os personagens têm o hábito de fazer longos diálogo expositivos. Ortega e Kovacs ainda incomodam mais, porque cada nova informação vêm acompanhada de um diálogo explicativo interminável. Era melhor ficar perdido até entender todo esse universo, do que ficar entediado ouvindo explicações fora de contexto.

Outro problema é a demora para a narrativa engatar. O primeiro episódio estabelece a premissa em um bom ritmo, mas uma vez que conceitos básicos estão estabelecidos, a trama para de progredir e passa a demorar demais em questões já vistas. A impressão que dá é que ao invés de durar 10 horas, poderia ser um filme de 2 horas e meia. Sem falar que o arco da policial Ortega, até onde vimos, é bem batido.

Apesar dessas falhas, Altered Carbon é uma série única, com visual impressionante, temática intrigante e um universo bastante criativo. É uma série que mantém a curiosidade do espectador do começo ao fim, mesmo quando o capítulo não funciona tão bem. É verdade que a narrativa ainda precisa evoluir, tanto em termos de personagens quanto de aprofundamento de temas e relações, mas os elementos estão lá e ainda é possível se tornar algo tão complexo quanto The Westworld ou The Expanse no futuro. Torcemos para isso.

Altered Carbon estreia em 2 de fevereiro na Netflix. Confira o trailer:

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