Opinião: Oscar 2018 se esforça para corrigir erros do passado e fazer justiça

Os melhores longas receberam mais estatuetas de forma justa

05/03/2018 13h00

Por Daniel Reininger

Em um ano com filmes variados e interessantes, tivemos muitos feitos inéditos, como o vencedor mais velho, primeiro ganhador estrelado por uma transexual, primeiro roteiro original de um negro. Como ficou claro já nas indicações, O Oscar cumpriu a promessa de dar espaço para as minorias sociais, uma das principais críticas dos últimos anos contra a Academia.

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Só que os votantes também escolheram como grande vencedor o filme mais seguro em termos políticos e não necessariamente o melhor. Não me entendam mal, A Forma Da Água é um belo filme, adorei quando assisti, mas outros longos também mereciam e, para mim, Corra! e Três Anúncios Para Um Crime são melhores, porém com mais espaço para possíveis polêmicas que a Academia geralmente tenta evitar.

Ou seja, a questão política, além da beleza técnica e da ótima protagonista fizeram diferença para esse resultado. Ainda mais se levarmos em conta que a premiação desse ano dividiu bem seus premiados: das 13 indicações, A Forma da Água levou apenas 4 estatuetas. O mesmo vale para Dunkirk e Três Anúncios Para Um Crime.

Sem surpresas, mas muito merecido, Guillermo Del Toro levou o prêmio de Melhor Diretor. Ele é um dos cineastas mais incríveis da atual geração e a forma como lida com o cinema fantástico é inspiradora, capaz de tirar o gênero do limbo que ficou por tantas décadas.

Fato é: os melhores longas receberam mais estatuetas de forma justa e isso é inegável.

Forma da Água

Claro que ainda é cedo para saber se algum desses longas têm potencial para marcar a história do cinema, afinal, é muito comum o Melhor Filme do Oscar ser esquecido após algum tempo, enquanto outros se mantêm relevantes, embora o mais comum entre os vencedores seja o esquecimento. Esse será, provavelmente, o caso de Spotlight - Segredos Revelados, por exemplo, vencedor de 2016, enquanto Mad Max: Estrada Da Fúria, do mesmo ano, ainda é um fenômeno.

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Para compensar, outra grande justiça da noite foram os prêmios de roteiro. Me Chame Pelo Seu Nome é um filme lindo, com roteiro bem construído, e Corra! era, sem dúvida, o filme que mais merecia levar como roteiro original e foi até escolhido como o melhor filme de 2017, pelo Cineclick. Não à toa o diretor e roteirista Jordan Peele foi aplaudido de pé.

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Sobre os prêmios de atuação, Sam Rockwell foi a surpresa. E ele foi uma surpresa pelo mesmo motivo político que pode ter influenciado a vitória de A Forma Da Água. Com o papel de um policial racista, fazia sentido ele não vencer, mas venceu. De forma merecida por sinal, afinal, Três Anúncios Para Um Crime é um filme de atuação e o trio principal (Woody Harrison incluso) é fantástico. E a Melhor Atriz de 2018, Frances McDormand, está simplesmente sensacional.

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E a bela atuação de Gary Oldman como Churchill em O Destino De Uma Nação, que ainda conta com uma baita mudança física, algo que os votantes da Academia adoram ver e reconhecer, é um dos motivos desse filme funcionar. Sua vitória era óbvia, embora teria sido ótimo ver Daniel Kaluuya, de Corra!, levar esse prêmio.

Nos prêmios técnicos, Dunkirk mereceu levar os de som e montagem. O longa de Christopher Nolan é uma aula técnica. Já Blade Runner 2049 era o melhor em termos de fotografia e efeitos. O mais legal é que Roger Deakins, de 68 anos, finalmente levou o seu primeiro Oscar após 14 indicações.

A Premiação

Esse ano, o evento foi relevante e agradável de assistir e não dá para falar que a Academia não se esforçou para evitar a gafe do ano passado, afinal todos os envelopes da premiação estavam marcados com a categoria em questão. Sem falar que o envelope final, de Melhor Filme, estava à vista de todos. Isso que eu chamo de aprender com os próprios erros.

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Mas destaque mesmo vai para a questão da representatividade e, principalmente, do assédio e falta de espaço para as mulheres em Hollywood. Jimmy Kimmel destacou em seu discurso de abertura as campanhas contra a má conduta sexual dos homens e a desigualdade de gênero, lembrando que apenas 11% dos filmes são feitos por mulheres.

"No ano em que os homens se equivocaram tanto, as mulheres começaram a sair com peixes", brincou Kimmel, referindo-se à história de A Forma Da Água. O comediante ainda citou o produtor Harvey Weinstein, alvo de diversas acusações de assédio. "Nós não podemos deixar que o mau comportamento aconteça mais, o mundo está nos observando, precisamos dar o exemplo", completou.

Mais tarde na noite, as atrizes Ashley Judd, Annabella Sciorra e Salma Hayek falaram contra o assédio sexual e apresentaram um vídeo sobre representação de mulheres, negros e imigrantes em Hollywood. Elas ainda mencionaram o "Time's Up", movimento criado para combater os crimes sexuais e a desigualdade na indústrtia do cinema. Foi um momento poderoso.

"As mudanças vêm de novas vozes, vozes diferentes. Um coro poderoso está dizendo: "time's up" [chegou a hora]. Gostaríamos de falar dessas pessoas que deram tudo e acabaram com essa discussão enviesada em relação a gênero e etnia", disse Judd, claramente emocionada.

Del Toro, em seu discurso, ainda falou sobre a importância de "apagar fronteiras" e fez uma crítica ao muro que Donald Trump quer construir entre os Estados Unidos e o México. "Sou um imigrante, como Alfonso [Cuarón], Gael [Garcia Bernal] e muitos de vocês. A melhor coisa no nosso setor é poder apagar as linhas, as fronteiras."

Oscar 2018

E Frances McDormand fechou com chave de ouro o assunto com um discurso feminista curto e inspirador. "Todas nós temos uma história para contar. Vamos falar sobre nossos projetos, que precisam de financiamento. Temos que ter inclusão", discursou a vencedora da categoria de Melhor Atriz.

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Claro que nem tudo foi perfeito e uma das piores gafes do ano foi o esquecimento de Adam West, conhecido pela série de TV do Batman dos anos 60, no In Memoriam do Oscar 2018, momento que relembra os astros que morreram no ano anterior e faz uma homenagem às suas carreiras.

Outro momento vergonha alheia foi a apresentação musical de Gael Garcia Bernal em Remember Me, de Viva - A Vida É Uma Festa. Embora o ator seja extremamente relevante para a América Latina e sua presença no palco tenha sido uma bela escolha, claramente ele não segurou a onda. Pelo menos sua performance evitou que os espectadores chorassem com a bela música.

No final das contas, o Oscar 2018 termina com um sentimento positivo de justiça e igualdade, capaz, ainda, de se redimir dos erros do passado, tanto técnicos ou de tom da cerimônia quanto na escolha de indicados e premiados. Resta saber se essa aparente mudança será mesmo levada adiante ou se foi apenas uma forma de contornar as pesadas críticas dos últimos anos.

Veja o trailer de A Forma Da Água, Três Anúncios Para Um Crime, O Destino De Uma Nação, Corra! e Dunkirk:

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