Problemas das grandes metrópoles ganham espaço no cinema brasileiro e argentino

Seja atrelado ao Boy Meets Girl ou ao drama pesado, longas debatem desafios de se viver nos grandes centros

16/12/2014 19h50

Não é de hoje que o cinema se permite tratar das relações entre a cidade e os indivíduos. Mas não há como negar que nos últimos tempos o número de produções que tratam especificamente desta temática têm crescido, principalmente se voltarmos nosso olhar para os filmes produzidos no Brasil e na Argentina.

Motivado pelo sentimento de que algo vai mal em meio ao crescimento desordenado das grandes metrópoles ou mera coincidência temática, não há como saber. Fato é que produções brasileiras e argentinas têm discutido a influência do meio urbano na construção da identidade de seus personagens.

Não há como não lembrar do fenômeno pop Medianeras - Buenos Aires Na Era Do Amor Virtual, pioneiro no debate da especulação imobiliária em Buenos Aires - problema que se espalha pelas metrópoles de vários países de América do Sul. A cidade aqui parece sempre disposta a prender tudo e todos com seus tentáculos, mas não impede que a dupla de protagonistas se banhe ao final em uma piscina de açúcar  - um otimismo necessário após uma dolorida narrativa.

"Eu não inventei os ataques de pânico, a insônia, o Rivotril, os transtornos de ansiedade, o estresse, o sedentarismo, as fobias, as contraturas e demais patologias sociais. Provavelmente, conhecemos mais pessoas portadoras dessas patologias do que pessoas com cáries" disse o diretor do longa, Gustavo Taretto, em entrevista na época do seu lançamento. Responsável também pelo roteiro, Taretto defende que a vida em Buenos Aires cria sujeitos cada vez mais inseguros e infelizes.

O brasileiro O Homem Das Multidões também investe no batido boy meets girl para mostrar a solidão em Belo Horizonte, cidade que não vemos retratada no cinema com frequência. "Um personagem vive a solidão cercada de corpos, e o outro vive a solidão de almas", disse o diretor Marcelo Gomes (do premiado Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo) em entrevista para a Folha de S. Paulo. O filme colecionou elogios e chegou a ser premiado no tradicional festival de Guadalajara.

+ Leia a crítica de O Homem das Multidões

Riocorrente

Mais complexo e ousado é Riocorrente, filme em que o diretor Paulo Sacramento escancara uma São Paulo hostil aos seus personagens. É mais ou menos o que a dupla Carlos Alberto Riccelli e Bruna Lombardi já haviam mostrado em O Signo Da Cidade: viver na maior cidade do país é estar próximo da tragédia a todo momento.

Exibidos na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, semanas atrás, Sinfonia da Necrópole, Ausência e Branco Sai Preto Fica, este ambientado em Brasília, mostram que a temática deve continuar em evidência nos próximos anos.

+ Leia a crítica de Ausência

A hostilidade de Buenos Aires também permeia o mais recente sucesso do cinema argentino, Relatos Selvagens, filme em que os personagens precisam lidar com a influência dos problemas da vida urbana em suas relações cotidianas. O trânsito, o excesso de burocracia e os problemas de convivência decorrentes do estresse dessas situações permeiam todo o filme de Damián Szifrón. A capital argentina, decadente, também é tema de Elefante Branco e O Crítico, este último já em pré-estreia nos cinemas brasileiros e oficialmente marcado para estrear no próximo dia 25.  

O Crítico

Elefante Branco retira os holofotes da classe média e do centro da cidade e vai até a periferia, mostrando as relações de poder que se perpetuam onde o Estado não chega.

O Crítico tem a cidade como cenário e extrai dela um desconforto inquietante. A busca incessante do protagonista por um apartamento talvez seja uma metáfora de nossa busca por pertencer ao local onde vivemos. É possível ser feliz sem conquistar esses espaços? Infelizmente nem o cinema foi capaz de tal resposta, mas, ao menos, traz novos olhares para essa tentativa. O resto é fora da sala escura.

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