Como Sniper Americano se tornou o filme de guerra mais bem sucedido de todos os tempos?

Recordes de público e bilheteria, discussões acaloradas, críticas arrasadoras. Neste pré-Oscar só dá o novo filme de Clint Eastwood

11/02/2015 11h15

Com quase US$ 300 milhões arrecadados desde o seu lançamento nos Estados Unidos, Sniper Americano se tornou em poucas semanas o filme de guerra mais rentável da história de Hollywood, superando Pearl Harbor e O Resgate Do Soldado Ryan. E não é só isso: o filme de Clint Eastwood também é, de longe, o longa mais assistido entre os indicados na categoria principal do Oscar 2015 .

Mas, qual o segredo de tamanho sucesso? O que tem feito milhões de americanos deixarem suas residências em meio a uma série de nevascas históricas?

O grande sucesso de Sniper Americano não pode ser creditado para algum fator específico. A arrecadação surpreendente do filme foi influenciada por vários deles, incluindo questões de estratégias de mercado, criação de polêmicas propositais e o mais importante: uma aposta no conservadorismo norte-americano, o que ajudou a alimentar debates políticos históricos.

O efeito Oscar

Historicamente, filmes finalistas do Oscar têm seus faturamentos inflados após a divulgação dos indicados. Com Sniper Americano não foi diferente: mesmo com uma abertura fraca em seu lançamento em janeiro, algo em torno de US 680 mil, o longa viu seu sucesso ser ampliado exponencialmente na semana pós-indicações.

+ Saiba mais em nosso especial do Oscar 2015

Entre os dias 23 e 24 de janeiro - exatamente depois que a Academia divulgou sua lista - a exibição de Sniper Americano foi expandida para 3,5 mil salas, resultando em um faturamento de US$ 89 milhões. No final de semana seguinte, algo inesperado: mesmo perdendo cópias de exibição, os ganhos aumentaram mais uma vez e ultrapassaram os US$ 107 milhões.

Esta, porém, é apenas a ponta do iceberg.

Sniper Americano

Sniper Americano

As disputas políticas

Baseado em uma história trágica, recente e muito conhecida pelos norte-americanos. Sniper Americano tem a fórmula pronta de um blockbuster: um personagem midiático, um crime, uma história patriota.

O roteiro é baseado na própria autobiografia do atirador de elite Chris Kyle, assassinado em 2013. Uma lenda dentro da marinha norte-americana, ele assumiu para si o título de "o sniper mais letal da história", algo que nunca teve respaldo oficial.

Discutir a vida de Chris é como usar uma lupa sobre uma questão base da política norte-americana: a oposição entre os mais liberais, e portando avessos ao belicismo exagerado, e os mais conservadores, com maior simpatia ao tema.

Foi justamente esse debate que tem ajudado Sniper Americano a ser assunto nacional. Michael Moore (dos igualmente polêmicos (Sicko - $.O.$. Saúde e Fahrenheit 11 De Setembro) sugeriu publicamente que snipers são "covardes". Sarah Palin, líder conservadora, agradeceu publicamente ao diretor. Redes sociais, TV, grande mídia, todos falaram sobre o filme. Midiatizado à exaustão, não é de se estranhar que esteja alcançando números tão absurdos.

A estratégia dos criadores

Clint Eastwood e Bradley Cooper


Quando a Warner adquiriu os direitos da adaptação, a primeira opção para dirigi-la era Steven Spielberg. O diretor acabou não assinando o contrato e Clint Eastwood assumiu o projeto, o que pode ter se tornado decisivo para guiar Sniper Americano diretamente ao seu público. Simpático aos republicanos, o diretor foi decisivo na última campanha presidencial ao protagonizar o histórico discurso contra Barack Obama.

"As pessoas confiam em Bradley Cooper e a combinação com Clint Eastwood realmente ajudou. Além disso, indicações ao Oscar foram uma validação enorme", disse o analista de bilheteria Phil Contrino em entrevista ao The Hollywood Reporter. 

O orçamento baixo, algo em torno de US$ 60 milhões, não impediu que a Warner pudesse realizar campanhas pelo país. A participação de veteranos de guerra, peças patriotas no rádio, TV e jornais e muito material publicitário ajudaram, mas os criadores acreditam que o principal motivação para o sucesso do longa é o tom que Eastwood alcançou.

"Este é o primeiro filme de guerra contemporânea mainstream que realmente conta uma história pessoal sobre soldados. É muito raro", justificou Sue Kroll, presidente mundial de marketing e distribuição internacional na Warner.

"Se, por causa deste filme, as pessoas estão falando sobre veteranos e que eles sacrificaram, isso é uma vitória", diz Greg Silverman, executivo da Warner. Os números mostram que o público se sensibilizou com o longa e o filme obteu resultados melhores em cinemas em estados onde há quantidade de ex-combatentes consideráveis, como na Carolina do Norte. Outro fator que comprova o target correto é que apenas 37% dos espectadores tinham menos de 25 anos.

"Há pessoas que vão ver Sniper que não foram ao cinema em dois ou três anos", ainda diz a reportagem da revista The Hollywood Reporter.

Qual o limite?

Ajudado pelo crescimento exponencial do conservadorismo e alçado ao patamar de "assunto nacional", Sniper Americano ainda intriga os analistas. Muitos acreditam que seu sucesso possa credenciá-lo para vencer o Oscar 2015 daqui duas semanas. Comoção, recordes, patriotismo exagerado, uma lista de votantes conservadores. Não estranhe se, de fato, o longa vencer.

Estamos diante de um fenômeno. Que Boyhood: Da Infância À Juventude, O Grande Hotel Budapeste e Birdman Ou A Inesperada Virtude Da Ignorância abram seus olhos.

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