Primeiro filme brasileiro feito pelo celular inova a forma de se fazer cinema

Criações tornam-se mais acessíveis

21/09/2016 17h35

Na próxima quinta-feira (29), em meio a tantos filmes produzidos em Hollywood, chega aos também cinemas Charlote SP. O longa brasileiro conta a história de uma modelo de carreira internacional que, de volta ao Brasil para encontrar a sua essência, acaba também entrando em uma jornada de redescobrir a cidade de São Paulo, ao lado de seu amigo cineasta. O longa, no entanto, não chama a atenção por sua trama, mas pela forma como foi gravado. Sob o comando de Frank Mora, as cenas foram capturadas apenas por câmeras de celulares, mostrando que as tecnologias vieram para deixar o fazer cinema mais acessível.

Como o próprio diretor afirma, inicialmente, a decisão não foi uma sacada. "Foi uma falta de opção. Essa era a única possibilidade que eu tinha de fazer o filme", explica. Mora não estava disposto a inscrever o seu projeto para garantir fundos da lei de incentivo. Este, aliás, é o seu segundo longa produzido desta forma. Mas a sua intenção nunca foi usar isso como um diferencial. "Estava gravando e não pensava em usar isso como artifício. As pessoas que estavam envolvidas pensavam nisso, mas para mim eu estava fazendo um filme, apenas", completa.

Para isso, ele buscou estudar muito para que encontrasse o melhor método para gravar com celulares. Formado em Rádio e TV, ele acredita que o mais importante é saber usar os obstáculos para encontrar soluções. E, assim, ele chegou a conhecer um aplicativo que permitiria que os quatro iPhones usados para gravar se transformassem em câmeras manuais, permitindo o controle do foco e outros artifícios presentes em câmeras profissionais.

Charlote SP

Além disso, seu maior cuidado foi com a pré e pós-produção. Todas as cenas foram muito pensadas e estudadas para que fossem capturadas da melhor maneira possível. "Foi uma grande produção feita com baixo orçamento, você evita gastos. A pós-produção foi a mesma de um filme gravado com câmera normal". Além disso, Mora explica que atualmente a tecnologia está mais acessível e é possível ter um estúdio dentro de casa, o que facilita o corte de gastos.

No entanto, nem todos os pontos de substituir as câmeras convencionais são positivos. Em Charlote SP, por exemplo, o mais difícil foi fazer com que o som estivesse adequado. Inicialmente, a produção tentou acoplar microfones aos aparelhos celulares. Mas com as interferências constantes, eles optaram pela captação direta. "Contratar uma equipe só para isso também não era viável", explica.

Mas o ponto mais positivo, sem dúvida foi a naturalidade. "Eu não teria essa carga de realidade com uma câmera mais robusta. Ninguém imaginava que estávamos gravando um filme", relembra Mora. Mas, mesmo com seu projeto tendo dado tão certo, o cineasta explica que está longe de querer ser lembrado apenas por trabalhar com celulares. "Também quero usar os artifícios convencionais. Não quero assumir um rótulo", conclui. Mas uma coisa ele tem certeza, criou-se mais uma forma de se fazer cinema.

Outros casos

Apesar de ser uma ideia inovadora, Charlote SP não é o primeiro longa a ser gravado com câmeras de celular. Um exemplo que foi bastante aclamado foi Tangerine, longa que trata sobre questões LGBT. Com a falta de orçamento, o filme foi capturado completamente com iPhone 5s, tendo o auxílio de lentes e do mesmo aplicativo usado por Mora. O projeto fez sucesso e chegou a ganhar prêmio de melhor filme de ficção no Festival do Rio de Janeiro.

Mas até no Oscar já tivemos representantes do cinema gravado com meios alternativos. Em Searching For Sugar Man, o orçamento não foi o suficiente para a capturar todas as cenas com uma câmera convencional, o que fez com o diretor do longa acabasse optando por usar o seu iPhone para finalizar a produção. A escolha quase fez com que a Academia não aprovasse a inclusão do documentário na disputa pela estatueta, mas depois de refletir, eles acabaram entendendo o uso do celular e a produção saiu vencedora no ano de 2013.

Já com avanço do Snapchat, não demorou muito para que alguém tivesse a ideia de usar o aplicativo para gravar um filme com a ferramenta. Em junho, um grupo de youtubers lançou Sickhouse. Diferente dos outros diretores, eles optaram por algo já formatado. Este não chegou a ser lançado nos cinemas, sendo disponibilizado apenas pelo Vimeo.

Veja abaixo os trailers de Charlote SP e Sickhouse: 

 

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