Protagonistas de Quincas Berro D’Água evitam politicamente correto

15/05/2010 12h55

Em Quincas Berro D’Água, adaptação de A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água, considerado o melhor livro de Jorge Amado, Cabo Martim, Negro Pastinha, Curió e Pé-de-vento formam o quarteto que é guiado pelo rei dos vagabundos e dos cachaceiros da Bahia.

Na vida real, os quatro atores que dão vida aos personagens também parecem um corpo único, tamanha a inteiração e piadas internas. “Nós temos nossos códigos”, diz Flávio Bauraqui, acompanhado de Frank Martins, Luís Miranda e Irandhir Santos. Atores com formação de teatro, mas que têm flertado (caso de Martins) ou namorado forte com o cinema (caso dos outros três) com o cinema.

Na adaptação dirigida e roteirizada por Sérgio Machado, Quincas, apelido que o ex-funcionário público Joaquim Soares da Cunha adquiriu na farra, morre no dia de seu aniversário. Porém, os órfãos de sua majestade não aceitam o fato e resolvem fazer uma festa para comemorar os 72 anos completados. Claro que o morto vai junto, ora pois.

Os quatro não são vagabundos qualquer. “São catedráticos da cachaça”, define Frank Martins, o Curió. Já Irandhir Santos, o Cabo Martim, prefere ressaltar uma camada além da tragicômica que permeia o filme: a amizade. “Eles não estão embriagados só pela bebida. Também estão bêbados pelo sentimento de perda. É dolorido e emocionante, tudo junto”.

Como é comum na obra de Sérgio Machado, seja pelo premiado longa Cidade Baixa, o roteiro de Madame Satã ou pelo curta-metragem O Príncipe Encantado, Quincas Berro D’Água observa o cotidiano e a felicidade dos que estão fora da ordem, os não-cidadãos renegados pela moral e pelos bons costumes.

“Vemos ali a decadência baiana e de seus casarões. Está no filme, mas também está na realidade, já que o patrimônio não é preservado”, avalia Luís Miranda, o Pé-de-vento.

Politicamente correto

Num país com 5.561 mil municípios e apenas 2.100 mil salas de exibição, o cinema é caro, artigo de luxo. Em 2009, foram 16 milhões de espectadores, que representa menos de 10% da população. Com a ressalva de que o número foi conseguido especialmente com as comédias como Se Eu Fosse Você 2, Divã e A Mulher Invisível.

Como um público que tem pagado ingressos para dar risadas vai reagir a um filme que provoca risos, sim, mas flerta também com o absurdo de ser protagonizado por um morto-vivo e ainda fala dos cachaceiros do universo baiano de Jorge Amado?

Flávio Bauraqui arrisca uma resposta. “Falta discernimento. Parte do público acostumou-se com cópias dos americanos e já taxa o cinema brasileiro de ruim. Acho que o povo não espera do cinema, mas sim das novelas e dos reality shows. Está todo mundo um pouco cego e a função do cinema é justamente provocar, mas o cinema é caro e não chega”.

A química dos quatro atores em cena ao lado de Paulo José, o protagonista, poderá ser conferida a partir de 21 de maio, quando Quincas Berro D’Água chega aos cinemas brasileiros.

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