Quando tudo acaba bem: o otimismo que vem das telas

Filmes com final feliz aumentam a autoestima do espectador, mas especialistas alertam que é preciso ter cautela

26/07/2014 17h00

A Procura da Felicidade

À Procura da Felicidade: público tolera sofrimento do personagem, mas quer redenção final

No filme À Procura da Felicidade, o personagem vivido por Will Smith é um pai de família desempregado que tenta ganhar a vida vendendo aparelhos médicos ultrapassados que ninguém quer comprar. Luta para sustentar o filho pequeno e a mulher, até que esta o abandona e ele tem de cuidar sozinho da criança. Não bastasse, pai e filho são despejados do apartamento em que vivem e ficam sem ter para onde ir. Sofrermos – e não pouco - junto com o protagonista ao longo de toda a trama, mas no final tudo termina bem. E poderia ser diferente?

Na vida real sim, mas no cinema dificilmente algum estúdio bancaria uma história como essa se tudo terminasse em fracasso. Não é à toa que os finais felizes predominam no cinema. A vida real é cheia de obstáculos, derrotas e frustrações e por isso as pessoas geralmente se sentem atraídas por tramas sobre gente que se dá bem. O público até tolera o sofrimento de um personagem ao longo de um filme, por mais revezes que o roteirista seja capaz de imaginar, mas quer, quase que invariavelmente, ser recompensado com a redenção final.

Você conseguiria imaginar Náufrago, com o personagem vivido por Tom Hanks morrendo sozinho na ilha, sem nunca ser achado? O cinema geralmente entrega o que o público quer ver. É uma representação da realidade, não a realidade. Nesta não seria improvável um desfecho infeliz para o funcionário da FedEx, mas na sala escura é preciso que a realidade seja menos cartesiana. Mesmo quando volta à civilização e descobre que a noiva se casou com outro homem, o roteiro não deixa de oferecer ao personagem – e ao público – a perspectiva de um novo amor.

OTIMISMO CEGO

Segundo especialistas, não há problema em gostar de finais felizes. Tampouco faz mal à saúde mental a capacidade que alguns filmes com happy end têm de acentuar o otimismo das pessoas. Produções como Quem Quer Ser Um Milionário?, Pequena Miss Sunshine, O Diário de Brigte Jones, O Lado Bom da Vida, Coração Louco, entre tantas outras, são carregadas de mensagens positivas, de superação, que costumam elevar a autoestima do público. Mas especialistas alertam que se contaminar em demasia com a ideia de que tudo vai dar certo ao final pode minar a energia para alcançar objetivos.

Náufrago

Náufrago: roteiro presenteia personagem e público com a perspectiva de um novo amor

Para a psicóloga Julie Norem, autora do livro The Positive Power of Negative Thinking, não há nada de errado com filmes que acentuam o lado positivo e dão esperança. Mas, segundo ela, estas produções, assim como os livros de autoajuda, "não levam em conta que as pessoas enfrentam situações diferentes, encontram obstáculos diferentes e têm personalidades diferentes. Tentar colocar todo mundo sob uma perspectiva otimista pode ser um erro".

Tali Sharot, um dos autores de um estudo sobre o otimismo realizado em conjunto pela University College London e da Berlin School of Mind and Brain, diz que o problema é que as pessoas excessivamente otimistas filtram as informações que recebem, prestando mais atenção ao que é positivo – o que as impede de alterar previsões otimistas mesmo quando tudo indica o fracasso.

Para o cientista, embora fantasias positivas possam trazer algum bem-estar momentâneo, por permitir às pessoas desfrutarem mentalmente de um futuro desejado, a crença cega de que tudo vai terminar bem pode fazer com que estes indivíduos sejam mais displicentes, desleixados, achando que, independente de suas ações, no final tudo vai dar certo, como num filme.


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