Ricardo Darín é sinônimo de bilheteria e atrai 10,2 milhões de espectadores

Cineclick conversa com pesquisadores argentinos para tentar entender por que Darín é o mais popular ator da argentina

01/09/2011 08h54






















O crítico Inácio Araújo, da Folha de S. Paulo, definiu assim o ator Ricardo Darín: “Ele é o Humphrey Bogart da Argentina”. Só lhe falta o cigarro no canto da boca, mas o portenho encarna uma figura masculina próxima a Bogart. Com um pequeno detalhe: em uma década, desde que se tornou um hit com Nova Rainhas, longas argentinos que contaram com os préstimos do ator levaram 10,2 milhões de espectadores às salas de exibição.

Darín é o ator de cinema mais popular na Argentina e desfruta da adesão irrestrita do público. “Ele é o único ator para o qual o público assina um ‘cheque em branco' e que pensa assim: se está no filme, este deve ser bom”, avalia ao Cineclick o jornalista argentino Mariano Oliveiros, responsável pelo blog Taquilla Nacional, que compila dados do mercado desde 1995.

Um Conto Chinês [foto], o mais recente filme com o ator, chega aos cinemas brasileiros nesta sexta-feira (2/9) após ter levado 900.932 mil espectadores às salas argentinas após 18 semanas em cartaz. A popularidade e o respeito de Darín, um hitmaker, ajuda muito a carreira comercial de um filme, mas não é a solução. Ponderação feita pela pesquisadora Clara Kriger, autora de vários livros sobre cinema argentino e latino-americano.

“Ainda que não exista uma fórmula para pronta, existem três elementos que devem conviver em filmes que busquem público. Primeiro, tocar em algum tema presente no discurso social; segundo, deve prevalecer a narrativa clássica; terceiro, ressaltar o aspecto emocional do enredo. Se a isso somarmos um ator tão carismático como Darín, o público está garantido”, avaliou à reportagem.

Nascido há 54 anos em uma família de atores, Ricardo Alberto Darín iniciou a carreira 1979 com La Playa del Amor. Por duas décadas, alternou filmes menores com trabalhos na televisão – hoje se diz sem esperanças com a telinha. “Hoje não espero nada da TV. Digamos que eu e ela estamos dando um tempo. O cinema tem um processo mais calmo, a TV tornou-se apenas uma empresa a fazer dinheiro”, afirmou ao Cineclick quando esteve no Brasil, em novembro do ano passado, para divulgar Abutres.

Assista ao trailer de Um Conto Chinês, que estreia na sexta (2)

De coadjuvante a protagonista

Darín tornou-se um nome conhecido após o sucesso de Nove Rainhas, que teve público na Argentina de 1,2 milhões em 2000. “Foi com esse filme que o grande público descobriu nele um ator mais sério, dramático, apesar de ele já ter feito filmes de êxito como El Farol (1998) e O Mesmo Amor, A Mesma Chuva (1999)”, avalia Oliveiros.

No ano seguinte, Darín volta a emplacar um sucesso, O Filho da Noiva, visto por 1,3 milhões de espectadores. Segunda bem-sucedida parceria com o diretor Juan José Campanella, que ainda o dirigiria em Clube da Lua (1 milhão de espectadores em 2004) e O Segredo dos Seus Olhos, arrasa-quarteirão (2,4 milhões) e Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010.

Em uma década, Darín participou, quase sempre como protagonista, de 14 produções argentinas. Destas, dez figuraram nas três primeiras posições do ranking de mais vistos entre filmes portenhos. O prestígio do ator ajudou até mesmo filmes considerados “difíceis” pelo mercado, seja pela temática ou pela linguagem mais arriscada – casos de O Sinal e XXY.


Darín e Martina Gusmán em cena de Abutres: primeira parceria entre o ator e o diretor bonaerense Pablo Trapero

Beleza rústica

“Eu sou um afortunado. Imagina, com esses dentes e esse nariz, se eu não tivesse esses olhos azuis não seria o que sou”, brincou durante a passagem por São Paulo. Sempre que pode, Darín ressalta humildade e considera um exagero a pecha de sedutor. “Há uma expressão portenha perfeita para defini-lo: no se la cree”, avalia Clara Kriger. Traduzindo: não se leva muito a sério.

“Darín é muito bom ator e podemos até pensar nele como a representação do portenho médio. É como se os espectadores o vissem como um parceiro”. A pesquisadora, autora de Cines al Margen. Nuevos Modos de Representación en el Cine Argentino Contemporáneo, vai além na tentativa de entender a imagem passada por ele nos cinemas. “Sem dúvidas é um homem atraente, mas em Buenos Aires não é um sex symbol. Nas minhas viagens a San Pablo encontrei comentários sobre sua beleza que na capital não são comuns”.

“Darín é pequeno e as pessoas o enxergam mais como amigo do que como estrela. Nas entrevistas, apresenta-se como uma pessoa normal que trabalha como ator. Não tem escândalos, não faz propaganda de propriedades, não permite que sua figura seja cultuada. Não é artificial e não dá lições de moral”.


Protagonista do vencedor do Oscar O Segredo dos Seus Olhos, Darín não participou da cerimônia da Academia

O resto dos portenhos

Se os longas com Ricardo Darín logram um maior diálogo com o público, o cinema argentino não se resume ao ator. Aí a estrada faz a curva e, assim como na produção brasileira, o cinema nacional apanha para encontrar seus espectadores.

“Enfrentamos um estancamento: há quase dez anos o market share para nacionais varia de 9 a 12%. Anualmente, apenas sete a dez longas superam os 100 mil espectadores (número mínimo para medirmos um êxito comercial). Os títulos que funcionam bem sem chegar a esse valor nunca são mais de três ou quatro por ano”, contabiliza Mariano Oliveiros, do Taquilla Argentina.

Para Clara Kriger, poucos filmes são dignos de nota por sua inventividade cinematográfica. “O que há de mais interessante passa pelo documentário. As produções ficcionais são mais desiguais. Há bastante tempo não vejo ficções argentinas que me chamem atenção. Por sorte, temos um montante de filmes de ficção que são bons e voltadas para um público massivo, mas não encontro nada inovador ou realmente interessante”.

No desigual mercado que enxota filmes nacionais, a sorte está com as produções que contam com Darín. “Ele tem características que sintetizam os portenhos: um tipo de humor irônico, uma picardia, um jeito viril e terno. Talvez por isso se pareça com o Humphrey Bogart e seus personagens duros, mas carinhosos”.

Este é Ricardo Darín.

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