RIO 2011: Filme de abertura, novo Almodóvar escorrega em exageros

Diretor espanhol volta a trabalhar com Antonio Banderas após vinte anos

07/10/2011 07h03


Antonio Banderas observa Elena Anaya na cena mais bonita de A Pele que Habito, novo longa de Almodóvar

Não foi um grande Almodóvar que abriu na noite de quinta-feira (6/10) o Festival do Rio de 2011. A Pele que Habito marca uma volta irregular do cineasta a temas constantes em sua carreira.

A tortura e a possessão, oriundas de um amor doentio, são o cerne de seu longa-metragem. Em verdade, esta é uma aproximação que Almodóvar já fez em diversos momentos de sua filmografia, em diferentes gêneros ou intensidade. Há a posse e a ingratidão de Maus Hábitos ou Má Educação, a prisão invisível de Abraços Partidos e a explícita de Ata-me!.

Os personagens de Almodóvar são apaixonados, mesmo que personifiquem seu desejo pelas linhas tortas – como Agrado em Fale com Ela. A Pele que Habito não é diferente: temos um talentoso cirurgião (Antonio Banderas, que volta a trabalhar com o cineasta após 20 anos) responsável por “criar” uma mulher que beira a perfeição simétrica, Vera (Elena Anaya).

Sua paixão é tanta que apenas mirando a projeção de Vera num telão faz Robert, o cirurgião, perder o controle. Mas quem é, de fato, esta mulher parece participar de um estranho jogo sadomasoquista? Isso é o que o espectador descobre durante a projeção, por meio da participação da personagem de Marisa Paredes, uma das grandes convidadas do Festival do Rio deste ano.


Acompanhando Almodóvar desde Maus Hábitos (1984), Marisa Paredes estará no Rio de Janeiro de 5 a 12 de outubro

O estilo tenta ser o mesmo que consolidou Almodóvar como um autor. Existem em A Pele que Habito algumas indicações de seus grandes momentos de pura beleza, como o plano citado acima, o de Robert mirando Vera, numa fusão que une dois corpos separados pelo espaço, mas ligados pelo desejo – cena que, aliás, reverbera num momento-chave de Ata-me!.

Se a aspiração estilística é a mesma, não se pode dizer o mesmo da precisão das escolhas. Este 19º longa-metragem de Almodóvar deixa a estranha sensação de que é um apanhado de opções equivocadas, frutos de um exagero de estar sempre um passo além do de costume. Não é novidade que seu cinema trabalha um tom acima do “normal”, seja no trato da comédia ou do drama. Porém, A Pele que Habito é um desconfortável tom acima do próprio padrão estabelecido pelo cineasta.

Ator-fetiche nos anos 80, Antonio Banderas não trabalhava com Almodóvar desde Ata-me! (1990)

A primeira parte é muito irregular, marcada por uma trilha nunca sutil – uma pena para um cineasta marcado pela delicadeza. O grande sintoma está na dificuldade de empatia do espectador com os personagens, principal porta de entrada dos filmes de Almodóvar. Isso graças a uma direção em certa medida burocrática e uma atuação estéril de Antonio Banderas, que já não tem a mesma força em encarar os tipos dúbios do início da parceria com o cineasta.

A sensação é que o intuito foi fazer um filme de tese a provar a relação do amor e da dor ou de como a tortura leva a um prazer narcísico, passando também por comentários sobre a ética. Uma operação que não funcionou: o diretor que sempre optou por mostrar e nos educou a não julgar, decidiu demonstrar desta vez.

Após sua passagem pelo Festival do Rio, onde ainda terá mais três sessões, A Pele que Habito vai estrear nos cinemas brasileiros em 4 de novembro, distribuído pela Paris Filmes.

Serviço
Sessões de A Pele que Habito no Festival do Rio
Domingo (9/10), às 14h, no Roxy 3 [RX009]
Segunda-feira (10/10), às 17h, no Estação Sesc Rio 1 [ER122
Segunda-feira (10/10), às 21h30, no Estação SESC Rio 1 [ER124]

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