RIO 2011: Se não pudesse manter meu estilo, não filmaria em 3D, afirma Dario Argento, mestre do horror

Nesta entrevista exclusiva, diretor italiano justifica sua ida ao 3D e diz que jovens mantém seu cinema de pé

14/10/2011 17h09

Noite de quarta-feira. A sala do Centro Cultural Banco do Brasil está mais cheia do que nos outros dias de retrospectiva. Cinéfilos seguram DVDs e pôsteres. Na fila, os desavisados perguntam: “Ele vem?”. Ele, no caso, é Dario Argento, que minutos depois entraria na sala de cinema para ser ovacionado.

Uma das recepções mais calorosas que já presenciei em um festival de cinema. O grupo era pequeno, de cerca de 100 pessoas. Apaixonados sem pudor de mostrar seu furor – a maioria era de jovens. Urros, punho fechado e erguido, chacoalhando, palmas intensas. Também não foi histeria. Foi vontade de deixar claro a ele: “Argento, nós te amamos”.

“Realmente não esperava uma reação daquelas. Tem um sabor especial por ser no Brasil, o país da minha mãe”, contou Dario Argento em entrevista exclusiva ao Cineclick na tarde de quinta-feira (13/10) no Rio de Janeiro. É a primeira vez que o mestre do horror, o gênio que redefiniu um gênero, vem ao Brasil como convidado de honra acompanhando a retrospectiva de sua obra para cinema e televisão.


Cena de Profondo Rosso, obra-prima de Argento que no Brasil é conhecida como Prelúdio Para Matar: assassino misterioso

Argento é um nome vagamente presente na memória de quem vê cinema, mas poucos acompanharam os diversos momentos de sua filmografia. A primeira fase (com destaque para a Trilogia dos Animais), a consolidação de um gênero na Trilogia das Três Mães, as experimentações dos anos 1980 (Phenomena e Terror na Ópera) e a suposta queda nos anos 90 e 2000, quando as mortes em seu cinema tornam-se mais explícitas.

“Não concordo que isso seja um problema [filmar a morte de maneira explícita e espetacularizada]. É um desejo meu de experimentar”, diz Argento, contradizendo o comentário deste repórter ao comparar a decupagem à Hitchcock de Prelúdio Para Matar (1975) com os gritos e urros de Pelts (2006). “Sou entusiasta de experimentar novas formas, sistemas, tudo”.


Assim como grandes autores - Scorsese e Wim Wenders -, Argento migra para o formato 3D. "É uma evolução natural", diz

Drácula em 3D

O personagem Drácula, que Dario Argento define como um tipo entre Eros e Tânatos, vai virar um filme de horror em 3D nas mãos do realizador italiano que migra para uma nova tecnologia assim como Martin Scorsese (Hugo) e Wim Wenders (Pina).

Conhecido pelos enquadramentos diagonais e câmeras em primeira pessoa que voam substituindo o olhar de animais – como o corvo no teatro em Terror na Ópera –, Argento promete aos seus fãs que o 3D não significa um abandono de seu estilo. Pelo contrário. “Vai ter o meu estilo. Se não fosse possível usar a minha câmera, não faria em 3D”, assegura.

A profundidade do olhar e de campo é, para o cineasta italiano, o maior ganho trazido por essa tecnologia. O repórter retruca, dizendo que o scope (formato retangular de tela) de seus primeiros filmes já permitia ao espectador penetrar na ação além do primeiro plano. Argento dá a tréplica.

“Eu tentava isso com a iluminação, como se pode ver em Suspiria, mas era impossível. No final das contas, víamos a imagem numa tela plana. Agora não”. Na impossibilidade de se comunicar em italiano, já que o repórter só sabia falar “Piacere”, Argento se enrola com o inglês para traduzir o que o espectador vai sentir ao assistir a Drácula 3D. “Seus olhos vão ficar... felizes... alumbrados... brilhando”.


Argento e sua filha, Asia: o primeiro a dirigi-la em uma cena nua, no longa Trauma (1993). Asia tinha 18 anos, oito como atriz

Frescor juvenil

Dario Argento faz cinema há mais de 40 anos – um detalhe que poucos sabem é que, antes de estrear na direção com O Pássaro das Plumas de Cristal, de 1970, o italiano foi um dos roteiristas de Era uma Vez no Oeste, a convite de Bernardo Bertolucci. Argento também trabalhou como crítico de cinema para o diário Paese Sera.

Tanto tempo depois, espanta que, na calorosa plateia que o recebeu no CCBB, a esmagadora maioria era de jovens. “Quando comecei, meu público era de jovens. Passaram-se 15 anos, uma nova geração de jovens. Sempre foi assim. Eles compreendem melhor meu cinema porque vão de peito aberto para meus filmes. Os adultos são mais reticentes”, define o realizador, que coloca em Freud parte do peso de sua obra. "Sem ele, a humanidade não seria a mesma".

Assim como na quarta-feira, também deve ser de jovens a plateia que irá assistir o cineasta apresentar duas sessões com seus filmes: Terror na Ópera, nesta sexta-feira, às 24h, no Estação Sesc Botafogo, e a obra-prima Prelúdio Para Matar, no sábado (15/10), também à meia-noite, no Cine Odeon.

São os jovens dos anos 1970, que viram os filmes de Argento no cinema, ou dos anos 80 e 90, ratos de video locadora, ou dos anos 2000, o grupo dos downloads e torrents, que mantém a genialidade de Dario Argento de pé.

Serviço

Mostra Dario Argento e seu Mundo de Horror
De 7 a 23 de outubro, no Centro Cutural Banco do Brasil-RJ
Programação completa neste link


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