Terror: um dos gêneros mais aclamados do cinema nacional

Dizer que o terror é raro no cinema nacional é uma afirmação vazia

03/07/2020 08h00

Dizer que o horror é raro no cinema nacional é uma afirmação vazia. Só é possível dizer que o gênero é menos expressivo numericamente se compararmos sua expressão com a de outros gêneros. Em 2002, de acordo com o "Dicionário de filmes brasileiros" de Antonio Leão da Silva Neto, 3415 longa-metragens haviam sido finalizados no Brasil, dentre os quais apenas 20 eram classificados como sendo de horror ou de terror. Desses 20, a maioria era obra de José Mojica Marins, o Zé do Caixão.

Claro que de lá para cá, o número aumentou, mas não expressivamente. A estatística ainda é válida.

Por outro lado, em uma reflexão mais profunda, observando a filmografia do cinema nacional, pode-se dizer que o horror é sim - mesmo que contraditório - bastante presente. Pareceria até estranho que não fosse, pois, se olharmos para nossas narrativas tradicionais, vemos que boa parte delas versa sobre os mistérios que envolvem a vida e a morte, os embates entre as forças do bem e do mal e a interferência de elementos sobrenaturais ou irracionais como fatores determinantes no mundo cotidiano – que estão na raiz do gênero.

Via de regra, os filmes ainda estreiam em poucas salas e não ficam muito tempo em cartaz. Mas têm sido exibidos em festivais nacionais e internacionais, tanto nos de nicho quanto nos que não se pautam por uma temática específica. É uma mudança com relação aos filmes brasileiros de terror lançados a partir da década de 1960, como os de Mojica, voltados para o mercado interno.

A produção alcançou um ápice numérico e de rentabilidade nos anos 1970, em meio à indústria da "Boca do Lixo" paulistana. São dessa época filmes como "O Anjo Da Noite" (1974), de Walter Hugo Khouri, e "Excitação" (1977), dirigido por Jean Garret.

Questões culturais e de recepção ainda fazem com que o tamanho da produção, orçamento e recursos técnicos dos filmes de horror brasileiros sejam incomparáveis em relação a países como Japão, Coreia do Sul e Estados Unidos, mercados em que o gênero é particularmente forte.

Zé do Caixão sempre produziu seus longas de uma forma ultra-independente, com baixíssimos orçamentos, e ainda assim construiu um legado espetacular. Muitos seguiram seus passos, tais como Marco Dutra, Juliana Rojas, Ricardo Ghiorzi, Rodrigo Aragão e Gabriela Amaral Almeida.

Alguns dos principais filmes de terror nacionais são:

 

Esta Noite Encarnarei No Teu Cadáver (1967)


Sinopse: As maldades de Zé do Caixão (José Mojica Marins) se tornam cada vez mais sádicas. Em busca da mulher ideal para gerar seu filho perfeito, ele rapta seis jovens e as submete a terríveis torturas. Mais tarde, após acabar com a vida de uma moça grávida, a população se revolta e decide exterminá-lo.

Na época, o filme foi censurado. Sua exibição só foi liberada após uma mudança no roteiro. A fala dita pelo Zé do Caixão antes de morrer "Eu não creio. Não creio", fazendo referência a sua descrença em Deus, foi alterada para "Deus... Sim... Deus é a verdade! Eu creio em tua força. Salvai-me! A cruz, cruz, padre...!". É precedido por "À Meia-Noite Levarei Sua Alma" (1964) e seguido por "Encarnação do Demônio" (2008).

Gêmeas (1999)


Sinopse: A história é ambientada no início da década de 80 e se passa em um bairro de classe-média do Rio de Janeiro: as irmãs gêmeas idênticas Iara e Marilena (Fernanda Torres) vivem pregando peças nos homens, fazendo-se passar uma pela outra, para desespero de seu pai, Dr. Jorge (Francisco Cuoco). Marilena é bióloga. Iara, como sua mãe (Fernanda Montenegro), é costureira. Um dia Marilena conhece Osmar (Evandro Mesquita), dono de uma auto-escola, por quem se apaixona à primeira vista. O mesmo, entretanto, acontece com Iara, que decide seduzir o namorado da irmã sem que este (e esta) saiba. Tem início uma intensa rivalidade entre as irmãs, em busca do amor de Osmar, que irá trazer à história um desfecho surpreendente.

Inicialmente, "Gêmeas" seria apenas um dos episódios de Traição, longa produzido pela Conspiração Filmes e que contém três histórias baseadas em contos de Nélson Rodrigues. Entretanto, posteriormente o diretor Andrucha Waddington resolveu esticar um pouco mais a história e transformar o que seria um media-metragem num longa. Fernanda Torres recebeu indicação de Melhor Atriz no Grande Prêmio Cinema Brasil.

Encarnação Do Demônio (2008)


Sinopse: Após 40 anos preso, Zé do Caixão (José Mojica Marins) enfim é libertado. De volta às ruas, ele está decidido a cumprir sua missão: encontrar uma mulher que possa gerar seu filho perfeito. Caminhando pela cidade de São Paulo ele enfrenta leis não naturais e crendices populares, deixando um rastro de sangue por onde passa.

Nascido de um pesadelo - Mojica afirmou que a ideia de criar o Zé do Caixão veio de um sonho que teve. Ele disse que viu um vulto arrastando-o para um cemitério, onde encontrou uma lápide com as datas de seu nascimento e de sua morte. "Acordei aos berros e, naquele momento, decidi que faria um filme diferente de tudo que já havia realizado", relatou. Ganhou os prêmios de Melhor Filme, Melhor Fotografia, Melhor Direção de Arte, Melhor Edição, Melhor Edição de Som, Melhor Trilha Sonora e Prêmio da Crítica no Festival de Paulínia. Além disso, ganhou Melhor Direção de Arte e o Prêmio Especial de Atuação pelo Conjunto da Obra no Festival do Paraná.

Gata Velha Ainda Mia (2013)


Sinopse: Glória Polk (Regina Duarte) é uma escritora decadente, que resolveu voltar a escrever um livro de ficção após 17 anos de ausência. Um dia, ela resolve abrir sua casa para Carol (Bárbara Paz), uma jovem jornalista que mora em seu prédio e é casada com seu antigo esposo. Empolgada com a oportunidade, Carol logo se dá conta que Glória possui uma faceta obscura, que fez com que tivesse imensa dificuldade em se relacionar com outras pessoas ao longo dos anos.

Intencionalmente ou não, "Gata Velha Ainda Mia" pinta logo de prontidão a protagonista como maníaca - e o espectador passa o filme todo esperando ela reconhecer que tem uma tendência a Hannibal Lecter. É uma espera angustiante porque não é todo dia que Regina Duarte, a Namoradinha do Brasil, se presta ao papel de insanidade.

O Rastro (2017)


Sinopse: João Rocha (Rafael Cardoso), um jovem e talentoso médico em ascensão, acaba encarregado de uma tarefa ingrata: supervisionar a transferência de pacientes quando um hospital público da cidade do Rio de Janeiro é fechado por falta de verba. Quando tudo parece correr dentro da normalidade, uma das pacientes, criança, desaparece no meio da noite, levando João para uma jornada num mundo obscuro e perigoso.

O filme levou 8 anos para finalmente chegar aos cinemas. Captar recursos e amadurecer o roteiro foram alguns dos embates enfrentados pela equipe. A princípio a história se passaria em uma casa isolada em alguma colina do país, mas como a própria equipe definiu: "seria muito americanizado". A fim de trazer uma ótica nacional para o filme, eles mudaram a para um hospital e abordaram as condições precárias do local, algo que é verídico em nosso sistema de saúde pública. "O Iluminado" (1980), "O Sexto Sentido" (1999), "Os Outros" (2001), "O Orfanato" (2008) e "O Babadook" (2014) foram algumas das referências usadas pelos criadores, que escolheram desenvolver o filme como um terror psicológico. Segundo a produtora, Malu Miranda, os suspenses de David Fincher também exerceram grande influência no processo de criação.


Deixe seu comentário
comments powered by Disqus