TIRADENTES 2011: Atmosfera jovial e terna permeia mostra mineira

Os Monstros, Santos Dumont - Pré-cineasta? e Os Residentes: três filmes que esquentam as discussões da Mostra de Tiradentes

28/01/2011 11h49



















O público de Tiradentes tem um carinho especial com os filmes vindos da produtora cearense Alumbramento. Vencedores do ano passado com Estrada Para Ythaca, os irmãos Pretti, Guto Parente e Pedro Diógenes apresentaram, fora de competição, Os Monstros.

“É para celebrar a amizade”, diz Parente na apresentação. Na verdade, uma comédia sem piadas. Esse quarteto que realiza filmes dedicados à amizade e defensores de um cinema feito com o que se tem à mão consegue criar a estranha sensação de se sentir jovem, flutuando e pronto para tudo. Filme jovial e de alma masculina: no final da linha, estão lá os amigos para segurar as pontas.

No alto de uma laje à noite João executa em sua flauta uma melodia triste, dissonante. A metrópole ao fundo o condena e a imensa escuridão acolhe seu desolamento. Sua namorada o observa, volta para a casa e arruma as malas – do namorado. Ela o tira de casa e João vai para a rua buscar arrego na bebida e nos amigos.

Os Monstros tem cerca de 12 sequências, preenchidas com cenas longas de quadro fixos com movimentos de zoom. Dentro dele, o cooperativismo da produção salta para um coleguismo dos personagens. João toca sua flauta num bar, mas é expulso pelo reino da mediocridade. Joaquim e Pedro são quase irmãos que trabalham como operadores de som na televisão e dão o dedo para Daniel, o produtor. Eugênio é uma espécie de Godod que felizmente vai ao encontro dos amigos.

Um filme muito engraçado, apesar da ausência de comédia. Há sim situações inusitadas ou indiretas ácidas a pessoas do cinema. A câmera registra, o agrupamento das situações cria o riso e o cômico abre espaço para a crítica.

Os Monstros é uma ironia que criou pernas próprias e se tornou filme. Um espírito jovem que se aproximou do cinema e resolveu exorcizar o marasmo da vida, defendendo a dissonância. Uma reunião de desordens que a câmera trata de maneira séria, cinematográfica, com planos precisamente construídos (mais um bom trabalho do fotógrafo Ivo Lopes Araújo).

Estrada Para Ythaca deve estrear em São Paulo até meados do ano. Se você estiver na cidade, não perca a chance de se banhar do espírito jovial do filme. E se prepare para a “continuação”, Os Montros.

Sessão tripla

Com a aproximação do final da Mostra de Cinema de Tiradentes, na quinta-feira (28/1) foram exibidos três longas-metragens na sequência. Os Residentes, selecionado também para a seção Panorama de Berlim, Os Monstros e Santos Dumont – Pré-cineasta?, de Carlos Adriano.

Uma sessão diversa. Um filme exigente, seguido de um leve e cifrado, encerrando por um documentário que faz conexões entre a construção da torre Eiffel, os voos de Santos Dumont no dirigível e o surgimento do instrumento de registro mutoscópio. Muito inteligente a montagem de Adriano ao traçar uma linha de diálogo entre esses três momentos para pontuar o desejo humano de voar, seja fisicamente (avião) ou metaforicamente (a imaginação pré-cinematográfica).

Costumo acompanhar por ano oito festivais de cinema. Cada um deles tem um público com reações distintas. Por exemplo, a do Cine PE vai para o evento, o point; em Brasília, está pronto para se atirar em tudo que pintar na tela do cinema; Paulínia, para bater palmas a qualquer filme; Gramado, a fugir antes de meia hora de projeção. E por aí vai.

Em Tiradentes, nessa atmosfera permanente de discussão do cinema brasileiro, é empolgante ver o público comparecendo na sessão de curtas-metragens ou enchendo o Cine Tenda para assistir três longas em sequência.

Acontece algo mágico aqui.

*O repórter viajou a convite da organização do festival.

Deixe seu comentário
comments powered by Disqus