TIRADENTES 2011: Clássicos de Saraceni reforçam poesia do cinema

Arraial do Cabo e Porto das Caixas, exibidos na Mostra de Tiradentes, são filmes fundamentais da cinematografia brasileira

25/01/2011 16h15


























É quase uma covardia emparelhar Porto das Caixas com qualquer outro filme exibido na Mostra de Cinema de Tiradentes. Produzido em 1962 e premiado em Cannes dois anos depois, o filme de Paulo Cezar Saraceni é uma poesia em torno da liberdade e da prisão.

Embalado na trilha sonora de Antônio Carlos Jobim, o filme se guia pelo fluido de sentimentos das personagens. Crueldade, frieza, amor, poder, dominação, desespero, sedução, manipulação entram e saem do filme.

O cenário é Porto das Caixas, região de Itaboraí, localidade importante do Rio de Janeiro do século 16. No filme, um lugar decadente que abriga seres humanos capazes de atos que fogem da dignidade. Lá, perto da linha de trem, vive um casal: ela (Irma Alvarez) é uma mulher oprimida, mas com ganância de viver; ele, o marido (Paulo Padilha) que bate e vê sua esposa escapar-lhe pelos dedos.

Num filme correto, o fotógrafo auxilia o diretor a realizar os planos e criar uma ambiência de imagem. No caso de Porto das Caixas, não seria exagero afirmar que Mário Carneiro é cocriador ao lado de Saraceni. O trabalho belíssimo de iluminação, que joga os personagens num escuro da alma avassalador, emana uma falência humana paralela à pulsão pela vida.

Liberdade e prisão andam parelhas nesse filme. Chegar a um estado isento de coação pode implicar ultrapassar a linha da dignidade ou um criar uma prisão. É como se o Raskolnikov de Crime e Castigo, de Doistoiévski, fosse dividido entre a personagem da mulher e a do amante (Cláudio Cavalcanti).

Sem contar a relação magnética que Irma Alvarez e Paulo Padilha, protagonistas do filme, têm no longa, quase criando faíscas quando estão juntos disputando o poder do casal. Porto das Caixas não é nada menos que lindo!

Essa beleza, aliás, já é enunciada no primeiro curta-metragem de Saraceni, realizado em parceria com Carneiro, Arraial do Cabo (1959), também exibido na Mostra de Tiradentes. O documentário trata da interferência de uma fábrica de sal (inserida na política do Estado Novo para fomentar a industrialização brasileira) na rotina de pescadores da região de Cabo Frio.

Um documentário filmado quase como ficção, fundado nos contrastes do humano e máquina, natureza e indústria, beleza e feiura (remetendo à arquitetura opressora de Metrópolis). Um fluxo de poesia numa região prestes a sofrer uma intervenção direta em suas características.

Na entrevista para o catálogo de Tiradentes, Paulo Cezar Saraceni revela a força de Mário Peixoto em Arraial do Cabo. “Limite [de Peixoto] foi uma inspiração para meu filme, nós queriamos fazer um filme assim, retomando uma vontade, um certo movimento no cinema brasileiro. Nós ficávamos muito apaixonados pelo texto do Limite, e também pelo texto do Mári Peixoto dizendo que o Eisenstein tinha adorado o filme. Mas o Cinema Novo tinha essa vontade de falar da identidade brasileira”.

A chave perfeita para se aproximar do filme de Saraceni. “Minha vontade então já era juntar o Cinema Novo com Limite”. Arraial do Cabo carrega a necessidade cinema novista de falar sobre um Brasil de verdade com a poesia da pura imagem do clássico de Peixoto.

Em tempo: quem quiser assistir aos dois filmes de Saraceni, basta entrar em contato com a Cinemateca Brasileira, que conserva as duas produções em seu acervo.


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