TIRADENTES 2012: Em noite politizada, ator de Corpo Presente protesta contra polícia no Pinheirinho

Manifesto foi lido durante lançamento do filme Corpo Presente.

26/01/2012 13h30

Foto: Daniel Iglesias/Universo Produção

Marat Descartes lê moção de repúdio à desocupação do Pinherinho

A noite de quarta-feira (25/1) na Mostra de Tiradentes foi de celebração pela pré-estreia de Corpo Presente, mas também de protestos. Assim como acontecera há dois dias quando os cineastas Juliana Rojas e Marco Dutra, de Trabalhar Cansa, criticaram a ação da Polícia Militar, endossada pela prefeitura de São José dos Campos e pelo governo do Estado de São Paulo, de desocupação da comunidade do Pinheirinho, o ator Marat Descartes leu, no palco do Cine Tenda, uma moção de repúdio.

“Estamos em um momento de alegria e celebração, mas não podemos fechar os olhos para algo de muito grave que está acontecendo em nosso país e, em especial, São Paulo”, disse Descartes, antes de iniciar a leitura da “Moção de repúdio à política do coturno em Pinheirinho”, mesmo manifesto que havia sido lido por Rojas e Dutra na terça-feira. O público do Cine Tenda aplaudiu a atitude.

“As instâncias dos poderes executivo e judiciário fizeram a opção, em Pinheirinho, pela lei que protege a especulação imobiliária, em detrimento do direito das pessoas à moradia. Vence mais uma vez a política do coturno em prol do capital”, diz um trecho do texto. No dia 22, a Polícia Militar de São Paulo e Guarda Civil Metropolitana de São José dos Campos invadiram a ocupação do Pinheirinho, existente há oito anos no interior de São Paulo, para cumprir um mandato de desocupação emitido pela justiça estadual.

O terreno faz parte da massa falida do especulador Naji Nahas, preso por crime financeiro em 2008. Na desocupação, que pegou os moradores de surpresa às 5h do último domingo (22), os policiais usaram bombas de gás lacrimogênio e armas. Durante a semana, acumulam-se denúncias de abuso e violência policial, ocultamento de informações de feridos e mortos. A Organização das Nações Unidas (ONU) disse ontem que iria denunciar a violação de direitos humanos na ação em São José dos Campos. No YouTube, ativistas postam diariamente pequenos vídeos com as famílias vitimadas.

Personagens entorpecidos

Não é à toa a leitura do manifesto no Cine Tiradentes antes de um filme como Corpo Presente. O longa-metragem de Marcelo Toledo e Paulo Gregori, em competição na Mostra Aurora, a principal vitrine do evento em Tiradentes, tem duas fortes leituras. A primeira é a homenagem ao cinema paulista, especialmente da Boca do Lixo, cujo de ponto era o centro de São Paulo e realizada dos anos 1960 e meados dos 80. Produções baratas e rodadas rapidamente, onde se misturavam as pornochanchadas de apelo sexual ao público com outros realizadores já de estilos consolidados.

Foto: Divulgação

Corpo Presente: protagonistas inteiramente alienados da realidade

Nesse registro, há verdadeiras homenagens a cineastas (Alfredo Sternheim), musas (Neide Ribeiro, Selma Egrei), musos (David Cardoso) da Boca do Lixo, atrizes antológicas do cinema brasileiro como Darlene Glória e figuras do cinema e da cinefilia contemporânea (Leandro Firmino, Daniel Chaia e David Libesking Sirota). Sem contar citações a Ozualdo Candeias.

Além dessa homenagem ao cinema, Corpo Presente é um filme (e por que não dizer político?) do entorpecimento de três personagens, inteiramente alienados da realidade. Alberto (Marat Descartes) é um agente funerário viciado em pílulas e perseguido por agiotas. Cynthia (Simone Iliescu) é uma dançarina de boate que se prostitui ocasionalmente e sonha integrar uma companhia de dança no Japão. Beatriz (Raissa Gregori) é trabalhadora de fábrica que gosta de tatuagens e passear pelo centro da cidade.

Num filme sem floreios, todos os personagens estão entorpecidos e imóveis. Alberto vai para as pílulas, Cynthia embarca num sonho impossível e Beatriz nas tatuagens. Não há força de ação ou de reação. São personagens que vivem numa nota só, a de divórcio do mundo.

O que faz de Corpo Presente tanto um comentário atual sobre o estado das coisas quanto uma divertida homenagem a um período do cinema.

*Heitor Augusto viajou a convite da organização do festival.

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