Top 10 filmes do diretor Wim Wenders, de Paris, Texas e Submersão

Novo filme do diretor chega em breve aos cinemas

06/04/2018 15h00

Ao lado de cineastas como Rainer Werner Fassbinder e Werner Herzog, Wim Wenders está entre os nomes mais importantes do "New German Cinema", movimento que revigorou o cinema na Alemanha Ocidental entre o final da década de 1970 e o começo da década de 1980. Nesse período, produziu alguns dos filmes mais relevantes de sua carreira e também moldou sua identidade cinematográfica ao captar a efervescência cultural de grandes centros urbanos.

O cinema de Wim Wenders se baseia fortemente em preceitos filosóficos onde o homem vive a eterna busca para encontrar e conhecer a si mesmo. Seu trabalho como pintor antes de se tornar diretor é evidente: as paisagens em seus filmes são sempre de tirar o fôlego (O Sal da Terra é o maior exemplo disso), servindo como um complemento da personalidade de seus personagens, uma espécie de externalização dos conflitos internos que eles vivem.

Diferente de Herzog e Fassbinder, Wenders incorporou a cultura americana e fez dela parte importante de seu trabalho. Ao visitar os Estados Unidos pela primeira vez em 1972, o diretor alemão se sentiu encantado pela cultura americana e a usou como principal combustível em sua busca por respostas sobre diversos aspectos relacionados à vida humana, passando pelo sofrimento, alegria e questionamentos existenciais e sociais pelos quais todos nós passaremos algum dia.

Assistir aos filmes de Wim Wenders é embarcar em uma viagem pessoal marcada por uma visão interessante de um mundo onde influências artísticas são convertidas em experiências profundamente reflexivas. A lista traz 10 filmes importantes para quem se interessa pela obra do diretor, que estreia Submersão em breve.

Submersão

10 – Até O Fim do Mundo (1991)

No primeiro ato, Até o Fim do Mundo é caracterizado como uma história de suspense e mistério. Acompanhamos Claire Tourneur, uma mulher de coração partido que vive à procura de Sam Farber, aquele que de acordo com ela será capaz de libertá-la de seu tédio espiritual.

Quando descobrimos que Sam é um fugitivo da CIA que carrega um dispositivo que faz com que pessoas cegas possam enxergar, Até o fim do mundo revela sua ambição um tanto quanto pretensiosa. O filme retrata um mundo à beira do apocalipse tecnológico e traz uma premissa pouco convencional para a filmografia de Wim Wenders. Este está longe de ser seu melhor filme, mas tem importância fundamental para aqueles que desejam se aprofundar e entender a filmografia do diretor.


9 – Movimento em Falso (1975)

Movimento em Falso é um filme lento e contemplativo que pode gerar uma reflexão interna interessante se for assistido no momento certo. A trama gira em torno de um homem passando por uma crise existencial que vai em uma viagem para Bonn com o objetivo de descobrir sua voz como escritor. A bordo do trem, ele vive que o ajudam a olhar a vida por uma nova perspectiva.

Ao longo de sua carreira, Wim Wenders passou por altos e baixos. Movimento em Falso tem grande qualidades, mas também deixa a desejar em alguns aspectos. O ritmo lento e cenas longas acompanhadas de narração em off enquanto personagens buscam algum significado nas paisagens podem ser um pouco cansativos. Por outro lado, o filme tem uma atmosfera melancólica que talvez não exerça um impacto tão grande nos primeiros minutos após os créditos finais, mas que irá se lapidar com o tempo e acompanhar o espectador mesmo após o filme ter acabado.


8 – O Céu de Lisboa (1993)

Phillip é um engenheiro de som que viaja até Lisboa para ajudar seu amigo Friedrich a concluir um filme. Ele atravessa a Europa, mas quando chega à capital portuguesa, recebe a péssima notícia de que seu Friedrich desapareceu. Ao adentrar a casa onde seu amigo vivia, Phillip encontra um filme inacabado que contém imagens sem som, filmadas nas ruas de Lisboa.

O Céu de Lisboa acompanha Philip viajando pela cidade enquanto procura a trilha sonora certa para o filme. Ele logo se vê apaixonado por Lisboa, sua cultura, seu povo e toda a história que carrega. Durante sua estadia na cidade, acaba se envolvendo com Teresa, uma cantora que oferece a trilha sonora perfeita para o para o filme. Por meio de belas paisagens e uma narrativa cativante, o filme oferece uma reflexão interessante sobre o significado do cinema.


7 – Pina (2011)

Pina é uma homenagem de Wim Wenders à Pina Bausch, uma das coreógrafas de dança mais importante de todos os tempos. Durante o filme, assistimos sua companhia de dança executar algumas de suas mais famosas coreografias. A união perfeita entre som e imagem faz do filme uma experiência única para os sentidos; os elementos nas coreografias de Bausch capturados pela sensibilidade cinematográfica do diretor são incrivelmente imersivos.

Pina

Ainda que o filme não tenha um apelo tão grande ao público que não é familiarizado com Pina Bausch, o modo como as coreografias são apresentadas faz com que nos aprofundemos naquele universo, nos instigando a buscar por novas informação que ajudem a conhecer melhor a história da artista.


6 – O Estado das Coisas (1982)

No começo da década de 1980, Wim Wenders se juntou a Francis Ford Coppola em um projeto que daria origem àquele que é considerado seu pior filme, Hammet – Mistérios em Chinatown. Tanto para Wim Winders, diretor do filme, quanto para Coppola, produtor executivo, o resultado foi somente frustação e dor de cabeça.

Alguns meses depois esse episódio, Wim Wenders visitou o set de filmagem de um filme português chamado O Território, onde se deparou com uma equipe bem-humorada que se mantinha positiva mesmo em meio a uma série de dificuldades. Ele ficou encantado ao observar como a falta de dinheiro não era um problema para a equipe e convenceu o diretor do filme, Raul Ruiz, e os atores a fazer um filme.

Com uma premissa simples, O Estado das Coisas nos apresenta às dificuldades enfrentadas por uma equipe de cinema, que vão desde o desaparecimento de um produtor à falta de película para continuar as filmagens. O filme traz uma reflexão sobre o cinema autoral e a importância da criatividade em qualquer trabalho artístico.


5 – O Amigo Americano (1977)

A cultura americana influenciou diretamente o estilo cinematográfico de Wim Wenders e isso é retratado claramente pelo diretor em O Amigo Americano. Dennis Hopper interpreta um americano exilado na Europa que convence um moldurista alemão com uma doença fatal a cometer um assassinato.

A trama apresenta um tema bastante presente na filmografia do diretor alemão ao explorar a relação conturbada entre os Estados Unidos e a Europa. Apesar do tema familiar, o gênero de suspense era uma experiência relativamente nova para Wim Wenders em 1977, mas seu olhar existencialista em relação aos dois protagonistas resulta em um filme que transita perfeitamente entre o cinema "de arte" e o mainstream.


4 – Asas do Desejo (1987)

O contraste entre a beleza arquitetônica e a destruição causada pela Segunda Guerra Mundial presente nas ruas da Berlim é um artifício marcante usado por Wim Wenders para retratar a dualidade da natureza humana em Asas do Desejo. A história acompanha dois anjos que podem ouvir o pensamento das pessoas, mas não podem se manifestar fisicamente. Durante uma de suas andanças, um dos anjos se apaixona por uma artista de circo e sente-se inclinado a tornar-se humano para poder ficar com ela.

Em uma meditação através da existência humana, monólogos internos revelam a fragilidade de almas solitárias que ainda carrega as marcas de destruição de um período obscuro na história da humanidade buscando por qualquer tipo de esperança em uma cidade dividida por um muro, seja no sentido figurado ou literak. Inspirando-se em cineastas emblemáticos como Andrei Tarkvosky e François Truffaut, Asas do Desejo conta com uma fotografia memorável e um roteiro poético que, juntos, resultam em uma experiência única.


3 – O Sal da Terra (2014)

O Sal da Terra é fruto da parceria entre Wim Wenders e o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado. O documentário se concentra na carreira mais de quarenta anos do fotógrafo, apresentando as implicações sociais de seu trabalho por meio de paisagens magníficas acompanhas por uma narração em off que ajuda a elucidar o propósito das fotografias.

Sal da Terra

Assim como Pina, O Sal da Terra traz um retrato detalhado e envolvente de uma figura que dedicou sua vida em prol da arte que ama. A homenagem prestada por Wim Wenders resulta em um filme especial capaz de abordar tanto o lado técnico quanto humano do trabalho de Sebastião Salgado. É muito difícil que alguém assista ao filme e não se sinta impelido a pesquisar mais a fundo sobre a carreira do fotógrafo brasileiro.


2 – Alice nas Cidades (1974)

Na década de 1970, os melhores filmes de Wim Wenders se caracterizavam por retratar angústia alemã vivida no pós-guerra. Usando emoções e conflitos humanos como tema central de suas narrativas, o diretor passava a sensação de que a geração da guerra fria havia se submetido à cultura norte-americana e absorvido seus costumes. Em Alice nas Cidades, um jornalista alemão se vê preso a uma garota de nove anos que busca por sua avó.

Este é o primeiro filme da "Trilogia da Estrada", composta também por Movimento em Falso e No Decurso do Tempo. Aqui, fica claro o impacto da cultura americana no estilo cinematográfico de Wim Wenders. Os personagens viajam pela Europa do pós-guerra onde uma nova geração tenta encontrar sua própria identidade, assim como o escritor que protagoniza o filme.

Com uma história emocionalmente complexa sobre relacionamentos rompidos e a busca contínua pelo lar, Alice nas Cidades é um filme fundamental para quem se interessa pela filmografia de Wim Wenders.


1 – Paris, Texas (1984)

Vencedor da Palma de Ouro de 1984, Paris, Texas explora as consequências do término de uma relação. A trama acompanha um homem que estava desaparecido há quatro anos desde que sua esposa o deixou. Após andar por um longo período de tempo no deserto, ele encontra um abrigo onde finalmente pode se recuperar. Saindo de lá, seu objetivo é se reaproximar de seu filho e encontrar sua esposa para esclarecer eventos do passado que não tiveram o desfecho apropriado.

Personagens repletos de profundidade perdidos em seu próprio labirinto mental são o principal atrativo de Paris, Texas. Neste filme, Wim Wenders encontra o equilíbrio perfeito entre o estilo contemplativo pelo qual ficou conhecido no início da década de 1970 e o retrato da cultura norte-americana por um viés humano como fora observado em Alice nas Cidades. Repleto de melancolia, reflexões pertinentes e uma trilha sonora brilhante, o filme conta com aquela que pode ser considerada a cena de reconciliação mais emocionante da história do cinema.

Sobre o autor: Vinicius Liessi é editor do Cinema Depois do Café, blog focado na elaboração de listas e críticas de filmes

Veja o trailer de Sumersão:


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