O cinema e a solidão: Como o tema é retratado nas telonas

Sentimento se intensificou na era digital e ganhou mais espaço nas telonas

15/05/2015 18h14

Por Iara Vasconcelos

Entre Abelhas, novo filme de Fábio Porchat, traz de volta aos cinemas a velha discussão sobre a solidão, sentimento que se intensifica cada vez mais na era digital. Se por um lado, o advento da internet chegou para nos aproximar daqueles que não podemos ter sempre presentes, por outro nos afastou daqueles que convivemos cotidianamente.

Na trama, Bruno sofre de um mal que o impede de enxergar algumas pessoas, sejam estranhos ou amigos. Aos poucos, as pessoas que ele mais ama se tornam invisíveis e ele fica sozinho. Uma das cenas mais impactantes é quando Bruno caminha solitário pelas ruas do Rio de Janeiro, não há absolutamente mais ninguém ao seu redor.

+ Confira crítica de Entre Abelhas 

Mas essa não é a primeira vez que a sétima arte aborda o tema. O também nacional O Homem Das Multidões fala sobre esse exílio quase involuntário que acomete tantas pessoas. O protagonista, um maquinista de metrô, é a síntese do solitário urbana, sua única companhia é a colega de trabalho, e amor platônico, Margô, cuja vida se resume ao mundo virtual. Conheceu o noivo pela web, seus amigos são todos virtuais e até seu animal de estimação é um peixe computadorizado.

Real x Virtual

O excelente Ela, de Spike Jonze, também retrata bem como a internet veio para suprir um sentimento que já é antigo: A necessidade de conexões humanas. O problema é quando a tecnologia falha na missão de auxiliar esse processo e acaba por substituí-lo. A ferramenta torna-se a ação propriamente dita. E isso é bem demonstrado através da alegoria do amor entre o homem e uma máquina, argumento no qual o filme de baseia.

Assistir Theodore (Joaquin Phoenix) se apaixonar pela voz e "personalidade" do Sistema Operacional, apelidado de Samantha, cuja voz é dublada por Scarlett Johansson, é ao mesmo tempo sublime e sufocante. Até que ponto não forjamos nossa própria exclusão do mundo ao redor? Quantas oportunidades de conexões humanas o protagonista não perdeu ao eleger o programa de computador como principal responsável por preencher seu vazio?

Ela

 

O ex-integrante da trupe do Monty Python, Terry Gilliam, conseguiu a mesma proeza usando seu sarcasmo habitual. Em O Teorema Zero, ele demonstra como no mundo pós-moderno nos deixamos domar pelas maravilhas da tecnologia, permitindo que ela,muitas vezes substitua nossas relações interpessoais.

Outro bom exemplo é do argentino Medianeras - Buenos Aires Na Era Do Amor Virtual, que aponta, além do desenvolvimento tecnológico, o crescimento urbano desordenado como causa desse vazio.

A solidão sob outros olhares

O sentimento de abandono completo pode ter se intensificado na era digital, mas não é recente e já foi assunto central de outros longas. No premiado Gravidade, de 2013, vencedor de sete Oscars e sucesso ao arrecadar US$ 716 milhões em bilheterias do mundo, Sandra Bullock vive uma astronauta que precisa lutar pela sua sobrevivência no espaço após um acidente. A tarefa se torna mais penosa diante da solidão na imensidão do espaço.

Já o diretor Martin Scorsese aproveitou a época mais obscura de Hollywood, na qual a tendência era explorar a violência e o terror psicológico, para narrar a história do ex-veterano do Vietnã em Taxi Driver, no qual entrega ao público um olhar sombrio e desprovido de glamour do anti-herói que classifica a si mesmo como "o homem solitário de Deus". No caso do taxista Travis Bickle, o ostracismo o transformou em um homem obsessivo, um verdadeiro misantropo.

Claro, não podemos esquecer de Wall-E, Encontros E Desencontros, Eu Sou A Lenda, Náufrago e Terra Tranquila. Todos abordam o tema por meio de diferentes pontos de vista, mas sempre com o mesmo assunto central.

É certo que a solidão será cada vez mais explorada pelos cineastas mundo a fora. O poder de catarse da sétima é a oportunidade perfeita para que essa sensação, tão recorrente no mundo moderno, mas já intrínseca ao ser humano, continue a povoar o imaginário popular através de grandes obras nas telonas. Enquanto isso, uma parte dos outsiders (socialmente desajustados) dessa geração continuará lotando as salas de cinema, buscando identificação com esses personagens e uma forma de compensar o sentimento de não pertencer ao mundo comum.

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